30 Mai 2026
"A esplêndida nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, é a crítica católica ao capitalismo mais lúcida e convincente que já li. O Papa Leão desenvolve essa crítica com traços seguros, elegantes e claros. (E é evidente que a encíclica foi escrita diretamente em inglês, e não simplesmente traduzida: é magnificamente redigida.)", escreve James Martin, SJ, é o fundador da Outreach e editor-chefe da America Media. Seu livro mais recente, "Work in Progress", é um best-seller do New York Times.
Eis o artigo.
Sou um capitalista. Como graduado pela Wharton School da University of Pennsylvania, onde estudei finanças, contabilidade e economia (e depois de ter trabalhado em finanças corporativas antes de entrar na Companhia de Jesus), acredito que o capitalismo seja o sistema econômico que distribui bens e serviços da forma mais eficiente.
A imagem da “mão invisível” de Adam Smith — segundo a qual o interesse pessoal e o desejo de lucro levam naturalmente as pessoas a responder às forças do mercado de maneira mais eficaz do que qualquer outro sistema — sempre me pareceu convincente. E o mercado (ou a economia) funciona melhor quando é deixado livre para operar, sem ser administrado pelo Estado. Essa ideia, às vezes definida como “capitalismo de livre mercado”, “laissez-faire” ou “neoliberalismo”, sempre me pareceu fundamentada.
Mas, como basta um rápido olhar para o nosso mundo para constatar, o capitalismo não é perfeito. Inúmeras pessoas permanecem presas à pobreza mesmo em economias de livre mercado. Até mesmo o mercado mais “livre” é marcado pelo que um dos meus professores de economia chamava de “pobres transitórios”, isto é, aqueles que são pobres temporariamente, até que o mercado consiga elevar todos os barcos. Além disso, o sistema é injustamente desequilibrado em favor dos ricos, que conseguem garantir brechas e tratamentos privilegiados.
A esplêndida nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, é a crítica católica ao capitalismo mais lúcida e convincente que já li. O Papa Leão desenvolve essa crítica com traços seguros, elegantes e claros. (E é evidente que a encíclica foi escrita diretamente em inglês, e não simplesmente traduzida: é magnificamente redigida.)
Como ele aborda essa crítica e o que afirma?
Antes de tudo, o Santo Padre concentra nossa atenção não nos lucros, nem mesmo no progresso, mas em algo infinitamente mais precioso: a dignidade humana. Na Wharton, ensinavam-nos que as empresas têm um único objetivo: maximizar os lucros e garantir o maior retorno possível aos acionistas, isto é, aos proprietários. Todo o resto — diziam-nos — é secundário; aliás, qualquer outro bem que se deseje obter de uma empresa (por exemplo, melhores condições de saúde para os funcionários) seria alcançado da maneira mais eficiente justamente aumentando os lucros.
O Papa Leão, porém, nos recorda que uma atenção exclusiva ao lucro leva às vezes a considerar o ser humano como sacrificável: as pessoas são demitidas com facilidade, algumas perdem a possibilidade de sustentar suas famílias e, frequentemente, comunidades inteiras são atingidas por fechamentos e demissões. Um sistema econômico que considera essas consequências simplesmente inevitáveis deve ser criticado. “O potencial positivo do mercado e da iniciativa privada só faz sentido se permanecer subordinado à lei moral e orientado pelo princípio da solidariedade, sem sacrificar os mais fracos à lógica do lucro” (n. 39).
Ao falar de “solidariedade”, a nova encíclica do Papa Leão oferece uma verdadeira aula magna de doutrina social católica e nos recorda que esses princípios devem orientar toda decisão econômica, inclusive as relativas ao pano de fundo do novo ensinamento: a inteligência artificial. É significativo que Magnifica humanitas tenha sido assinada no 135º aniversário da Rerum Novarum, a grande encíclica de Leão XIV que deu início à moderna tradição da doutrina social da Igreja. O claro resumo da doutrina social católica oferecido por Leão XIV ajuda-nos a compreender as diferentes “lógicas” segundo as quais deveriam ser tomadas as decisões econômicas.
Entre elas estão: a dignidade da pessoa, que vem de Deus; o bem comum, segundo o qual os objetivos não são simplesmente individuais, mas comunitários; a destinação universal dos bens, segundo a qual os recursos da Terra destinam-se a todos e não apenas a poucos; a subsidiariedade, pela qual as decisões devem ser tomadas o mais próximo possível daqueles que sofrem seus efeitos; e a justiça social, que nos recorda que as estruturas sociais devem ser avaliadas à luz de possíveis “estruturas de pecado” e que se deve sempre privilegiar a opção preferencial pelos pobres.
Mais uma vez, são esses princípios — e não simplesmente o desejo de lucro — que devem orientar nossas decisões econômicas. Por exemplo, as escolhas relativas à inteligência artificial devem ser feitas tendo em vista o bem comum.
Magnifica humanitas retoma a encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI, e afirma: “A atividade econômica não pode pretender resolver os problemas sociais simplesmente ampliando a lógica do mercado, mas deve ser ordenada ao bem comum, do qual a comunidade política possui uma responsabilidade própria e insubstituível” (n. 40).
Além disso, o Papa Leão afirma que o tradicional conceito de “destinação universal dos bens”, segundo o qual os recursos se destinam ao benefício e ao uso de todos, prevalece sobre o direito à propriedade privada. É uma ideia que provavelmente colocará em dificuldade os defensores do livre mercado, mais inclinados a pensar: “Ao vencedor, os despojos”. Mas, como recorda o Papa Leão, “a tradição cristã jamais reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada” (n. 66). O bem comum sempre vem em primeiro lugar.
Aqui a Igreja apresenta um desafio adicional ao modelo capitalista: entre esses “bens universais” incluem-se também “novas formas de propriedade, como patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados”. Em uma época em que o acesso a patentes farmacêuticas pode significar a diferença entre a vida e a morte, o bem da pessoa humana — na verdade, de todas as pessoas humanas — deve prevalecer sobre a divinização dos direitos privados.
Por fim, o Papa Leão critica de maneira eficaz qualquer sistema que reduza os seres humanos a engrenagens, máquinas ou até algoritmos. É interessante que a encíclica relacione a ideia perigosa segundo a qual o ser humano seria apenas um trabalhador aos estranhos objetivos do “transumanismo” e do “pós-humanismo”, segundo os quais alguns acreditam ser possível “aperfeiçoar” o ser humano ou transcender os limites físicos, a doença e até o próprio sofrimento.
O Papa Leão, porém, nos recorda não apenas que o ser humano não deve ser considerado uma engrenagem em uma economia sem alma, mas também que nosso valor não pode ser medido com base na produtividade econômica. Os seres humanos “valem” infinitamente mais. “O valor da pessoa”, escreve ele com clareza, “não depende daquilo que realiza ou produz” (n. 51).
Além disso, nosso valor não diminui quando enfraquecemos fisicamente. Esse é o grande erro do “transumanismo” e do “pós-humanismo”. “A finitude, quando acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas o abre ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro”, escreve Leão. “Justamente porque experimenta o limite — a vulnerabilidade, a dor, o fracasso — ele pode reconhecer a própria dignidade e a dignidade alheia como invioláveis” (n. 122).
No conjunto, Magnifica humanitas, juntamente com todo o corpus da doutrina social católica, recorda-nos que o mercado, apesar de toda a sua força, não salva. Só Deus salva. E Deus nos pede que olhemos não simplesmente para os lucros, mas sobretudo para a dignidade infinita da pessoa humana.
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