30 Mai 2026
Da Guatemala de Ríos Montt ao El Salvador de Bukele: a "revolução conservadora" das igrejas protestantes está colonizando as estruturas de poder na região.
A reportagem é de Álvaro Murillo Sofia Menchú, publicada por El País, 28-05-2026.
Até recentemente, um bispo católico liderava as orações nas cerimônias de posse presidencial na Costa Rica, defendendo posições conservadoras mais próximas da tradição do que de mudanças radicais. Em ocasiões recentes, esse bispo dividiu o púlpito com líderes das igrejas cristãs protestantes que proliferaram nas últimas décadas — embora em ritmo mais lento do que em outros países da região — juntamente com seu próprio ativismo político dentro dos partidos confessionais. O ano de 2026, no entanto, traz uma nova realidade para o cenário político costarriquenho: a ascensão de novos grupos religiosos dentro do partido governista dominante, cujo objetivo é abalar as elites e estabelecer uma espécie de “revolução conservadora” com o apoio dos Estados Unidos.
A fotografia foi tirada em 8 de maio, na cerimônia em que Rodrigo Chávez entregou a faixa presidencial à sua sucessora, Laura Fernández, uma cristã devota e bastante hábil em transitar pelos círculos protestantes. A bênção não foi dada por ninguém da hierarquia católica, com quem Chávez havia se distanciado durante sua presidência. Em vez disso, foi concedida por um pastor protestante que se apresenta como embaixador do Reino dos Céus e um padre católico com grande presença na mídia, que administra projetos multimilionários em bairros carentes da zona sul de San José. Seu nome é Sergio Valverde, e ele é visto com mais frequência com autoridades governamentais do que com seus superiores na decadente Conferência Episcopal.
“Que o temor do Senhor esteja sobre eles e sobre os três poderes do governo… Hoje vocês invocam uma Débora para esta nação. E assim como está escrito no Livro dos Juízes, assim veremos na Costa Rica, que pela mão de uma mulher o Eterno entregará os seus inimigos”, leu o pastor Daniel Piedra com grande eloquência sob o olhar impassível do rei Felipe VI da Espanha. O pastor relatou mais tarde que chegou ao estádio com uma escolta e que tinha um lugar especial de frente para as arquibancadas, onde centenas de apoiadores de Chávez e Fernández estavam reunidos, este último sendo comparado à profetisa israelita Débora do Antigo Testamento. Alguns oraram com ele de olhos fechados e mãos abertas em direção ao céu, incluindo membros do Congresso que fazem parte da ala neopentecostal dentro do partido governista, que detém a maioria no Congresso.
Um quarto das cadeiras do novo Partido Soberano do Povo (PPSO) é ocupado por membros ligados a igrejas cristãs, incluindo um pastor que anteriormente atuou como deputado por um dos partidos confessionais agora extintos do cenário político. Tentamos contatá-lo para esta reportagem, mas não obtivemos resposta. A bandeira com o peixe não é mais o símbolo principal; agora, o poder das igrejas evangélicas se infiltra em um movimento político liderado por cidadãos de forma mais estratégica. Elas não competem mais: agora negociam, mobilizam, legitimam e são legitimadas, dão e recebem. Em comum com o grupo chavista, compartilham um discurso de "temor a Deus" com exaltação da prosperidade individual, mas, acima de tudo, têm dois inimigos principais: as elites tradicionais e os valores liberais associados aos direitos humanos ou ao Estado de Direito e suas instituições "progressistas".
“Ambos os lados foram bem-sucedidos em suas estratégias. Um lado conseguiu deixar de usar partidos explicitamente religiosos, enquanto o outro conseguiu incorporar grupos com grande poder de mobilização, sob a influência da nova direita simbolizada por Donald Trump”, comenta Laura Fuentes Belgrave, socióloga pesquisadora da Escola Ecumênica de Estudos da Religião da Universidade Nacional (UNA) da Costa Rica.
Longe dos bispos
É a receita de "Deus, pátria e poder" que está sendo engendrada nos Estados Unidos por igrejas protestantes dinâmicas, enquanto o Vaticano é apontado como inimigo. O ex-presidente Chávez não foi tão explícito quanto Trump em seus ataques contra o Papa Leão XIV, mas participou de debates públicos com os bispos da Igreja Católica local, que representa 52% da população no único país do continente com religião oficial consagrada em sua Constituição; isso apesar de a estrutura eclesiástica estar passando por um declínio em sua liderança social, segundo fontes internas.
“Enquanto alguns grupos evangélicos estão construindo comunidade, desenvolvendo narrativas digitais, mobilizando suas comunidades e usando comunicação emocional direta, muitos setores católicos perderam a iniciativa, tornando-se mais voltados para si mesmos do que engajados no discurso público”, diz um padre influente que pediu para permanecer anônimo. Ele vê um paralelo com o que aconteceu nos Estados Unidos com as organizações que apoiam Trump, ou no Brasil com o movimento de Bolsonaro, onde “a religião também se torna uma identidade política”, lamentou.
As táticas de Chávez foram certeiras desde o início. Embora não fosse um homem de observância religiosa, seu discurso era repleto de referências a Deus e à "pátria abençoada", à condenação do comunismo como pecado capital e à retórica do bem contra o mal. "Ele não vê os outros como adversários, mas como antagonistas, como inimigos, como o próprio mal", acrescenta Fuentes Belgrave, apontando também para ações concretas: o abandono dos esforços para conscientizar sobre os direitos da população sexualmente diversa, a rejeição de posições feministas e a adoção de um discurso em defesa da família tradicional. Em novembro, o então presidente chegou a revogar um decreto que legalizava o aborto em casos de risco à saúde da mãe. Ele havia anunciado isso a um grupo de pastores semanas antes, no início de uma campanha eleitoral que contou com a participação de diversos líderes protestantes e resultou na eleição da candidata do partido governista, Fernández, uma "mulher temente a Deus", como ela mesma se descreve.
Em abril, após a confirmação da vitória eleitoral do partido governista, Fernández e Chávez se reuniram novamente com o grupo chamado "Fórum Meu País", composto por líderes evangélicos. Lá, a presidente eleita afirmou que Chávez "se deixou usar por Deus" e que seu governo era um "milagre" para um país que, em suas palavras, estava em ruínas. Foi nesse mesmo evento que o presidente cessante — que permanece no poder como ministro da Fazenda e ministro da Presidência — reafirmou seu desejo de que "o povo" assuma o controle do Judiciário, assim como já havia feito com os Poderes Executivo e Legislativo. A justiça divina fica aquém das ambições do partido governista.
A campanha eleitoral de 2018 parece agora uma memória distante, uma campanha que deu ao pregador evangélico e cantor Fabricio Alvarado uma vitória apertada no primeiro turno. Ele perdeu o segundo turno para Carlos Alvarado, apesar de concorrer com uma plataforma progressista, devido à mobilização do voto católico. O pregador fundou posteriormente um novo partido com base em estruturas neopentecostais, o que lhe permitiu manter presença no parlamento e servir como aliado do governo de Rodrigo Chávez. Isso ocorreu apesar de algumas críticas, nas quais Alvarado argumentava que ele e seu grupo, e não o presidente ou sua filha, Fernández, eram os verdadeiros defensores da família.
Ainda ressoa a memória de um debate televisionado em janeiro, no qual Fernández acusou Fabricio Alvarado, que concorria novamente à presidência representando o setor evangélico, de tê-la assediado sexualmente quando ela era assessora parlamentar. “Ele me encurralou em um escritório com a falsa promessa de me dar uma Bíblia”, denunciou a então candidata à presidência com gestos indignados, naquele que pareceu ser mais um ato na batalha pelos votos do setor cristão protestante, que representa um terço da população, segundo dados do Latinobarômetro 2024.
Acreditava-se que este seria o fim de Fabricio Alvarado como figura política e aliado do partido governista, mas os mesmos deputados chavistas conseguiram impedir uma votação no Congresso, em abril, sobre uma sanção política contra o então parlamentar por uma denúncia de agressão sexual feita por outra ex-assessora. Ele também enfrenta acusações criminais por estupro de menor; no entanto, agora, duas semanas após a posse de Laura Fernández, aquele debate televisionado em que ela o chamou de "lobo em pele de cordeiro" parece ser coisa do passado, e alguns críticos preveem ou temem que ela acabe lhe dando um cargo. Fabricio Alvarado não representa mais uma ameaça ao partido governista: as pesquisas mostraram que o chavismo conquistou a maior parte dos votos evangélicos.
Tendência regional
A realidade mostra que a Costa Rica não é muito diferente do resto da América Central, apesar de ser um estado católico com um extenso sistema público de bem-estar social. Organizações religiosas vêm ganhando influência política há anos, baseadas na ideia bíblica de que “quando os justos governam, o povo se alegra”. A Guatemala tem sido pioneira na região, com figuras evangélicas participando de partidos políticos já existentes, atraindo votos de uma congregação que encontra pontos em comum em valores conservadores.
“Eles veem a comunidade evangélica como uma fonte considerável de votos. Para atraí-los, usam linguagem religiosa, frequentam cultos e integram líderes evangélicos em suas fileiras a fim de obter seu apoio”, afirma o relatório “O Pensamento e a Ação Social dos Evangélicos na Guatemala”, dirigido por Israel Ortiz, do Centro Estras. O relatório se refere a um país de 18 milhões de habitantes que, em 2018, abrigava mais de 25 mil locais de culto pertencentes a igrejas evangélicas de diversas redes e denominações.
Fatores semelhantes ocorreram em Honduras e El Salvador, onde as necessidades sociais abriram uma valiosa oportunidade para que as igrejas primeiro entrassem nas comunidades e depois, com seguidores leais, nas estruturas políticas como atores de poder. Elas encontraram espaço até mesmo dentro do governo de Nayib Bukele, que descreve o desmantelamento de gangues violentas, alcançado por meio de políticas autoritárias com forte apoio popular, como um “milagre”. Na Nicarágua, a história é singular, embora o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo também tenha utilizado líderes neopentecostais como alternativa à oposição da Igreja Católica, outrora parceira do sandinismo.
“As igrejas tendem a permanecer em silêncio diante de escândalos políticos envolvendo o governo e funcionários públicos”, observa o estudo do Centro Estras. Na Guatemala, a influência de grupos cristãos protestantes na política remonta ao falecido general Efraín Ríos Montt, pastor da Igreja Verbo e acusado de genocídio; ao ex-presidente Jorge Serrano Elías, que orquestrou um autogolpe em 1993 e posteriormente fugiu para o Panamá; a Harold Caballeros, fundador do partido Visão com Valores (Viva); e ao ex-presidente Jimmy Morales, que durante seu governo (2016-2020) expulsou a Comissão Internacional das Nações Unidas contra a Impunidade na Guatemala (CICIG).
Na Guatemala, igrejas evangélicas também têm sido usadas como fachada por diversos prefeitos acusados e extraditados para os Estados Unidos por tráfico de drogas. Um fenômeno semelhante está surgindo na Costa Rica, onde um pastor permanece sob custódia por seu suposto envolvimento em uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao narcotráfico, por meio de contratos supostamente avaliados em US$ 80 milhões com uma empresa de abacaxi no norte do país.
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