“Os Estados Unidos já não são uma democracia”. Entrevista com Susan Neiman

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27 Mai 2026

A filósofa estadunidense Susan Neiman, diretora do Einstein Institute e autora de O mal no pensamento moderno, considera que o trumpismo é um novo fascismo. No entanto, observa que os estadunidenses já estão despertando e vê sinais de esperança na oposição.

A entrevista é de Ricardo Dudda, publicada por Ethic, 25-05-2026.

Eis a entrevista.

Em janeiro, em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso dizendo que a ordem liberal baseada em normas era em parte falsa e havia sido destruída.

Depois, contribuiu para destruí-lo ao aprovar a ação contra o Irã, em março.

Você acredita, como ele, que a ordem liberal era uma “ficção útil”?

Parece-me uma opinião muito cínica. O problema é que a ordem baseada em normas ou leis só funciona se existirem líderes com a obrigação moral de obedecê-la. Vemos como isto foi destruído nos Estados Unidos.

Tenho outro livro, que sairá em inglês e alemão, no final do verão, e provavelmente no ano que vem em espanhol, intitulado Call It Evil. Busca compreender o fato de que o Estado de direito e a separação de poderes são inúteis, como vimos no caso de Trump, quando não se tem, em absoluto, qualquer sentido moral.

Não me sentia tão preocupada e insatisfeita desde setembro de 2001. Ao ver a guerra no Irã, considerei surpreendente que não tenhamos aprendido a lição de prudência que deveríamos ter aprendido depois da guerra no Iraque.

Essa crítica à ordem liberal lembra as críticas ao Iluminismo, um tema que você estudou a fundo. Os críticos anti-iluministas pensavam que era uma fachada intelectual para justificar diversas opressões e injustiças.

Vivemos em uma era cínica e anti-iluminista. Ela é protagonizada pelas forças sobre as quais falei em A esquerda não é woke, mas também por outra força que analiso no novo livro, onde me aprofundo na ideologia econômica e nas interpretações errôneas que foram feitas, por exemplo, de Adam Smith.

Essas interpretações sugerem que não há princípios e que todo mundo busca necessariamente seu próprio interesse. Ouvimos isso desde Trasímaco, que é como um jovem pós-moderno niilista, exceto pelo fato de ter 2.500 anos. Agora, há mais ideologias que reforçam a “supremacia do interesse próprio”.

Os contrailuministas criticavam, por exemplo, a hipocrisia em relação ao colonialismo, quando os iluministas diziam que colonizavam os povos para o próprio bem deles. Contudo, havia muitas outras suposições válidas. É óbvio que somos movidos pelo interesse próprio, pela paixão e pela inveja, mas isto se mistura com outros motivos legítimos.

Quando alguém diz que fez algo porque era o correto, sempre há outros que tentam desconstruir essas palavras para descobrir outra coisa, um motivo oculto. A ideia dos princípios morais ou do direito internacional não é uma ficção, mas também não está escrita em mármore. Para que sejam reais, um número significativo de pessoas precisa levá-los a sério como uma decisão livre, dizendo: “Embora vá contra os meus interesses, é melhor que o mundo seja regido pelo direito internacional”.

Em A esquerda não é woke, concentrei-me em algumas ideias filosóficas que foram generalizadas através das universidades. Embora as pessoas não leiam Michel Foucault ou Carl Schmitt, leem jornais escritos por jornalistas que foram à universidade e que têm dificuldades em se desprender dessa ideologia.

Tenho uma amiga antropóloga, uma lutadora apaixonada pela social-democracia, que me disse que “não consegue fazer trabalho normativo” devido à sua formação. Se as pessoas sentem que parecem bobas por fazer afirmações normativas (sobre a moral e como o mundo deveria ser), temos um problema. No meu novo livro, falo mais sobre economia. A ideia de que a economia é o “mundo real” e todo o resto não é muito poderosa.

É curioso como se interpreta mal Adam Smith como um profeta do laissez-faire, sem considerar o que ele escreve em livros, como ‘Teoria dos sentimentos morais’. Ele é considerado um símbolo neoliberal, o que de modo algum está certo.

No meu novo livro, descobri que isso foi deliberado. Um grupo de industriais dos anos 40, 50 e 60 criou think tanks que prepararam versões breves de 20 páginas de Adam Smith, ao estilo da Reader’s Digest, omitindo as partes que não se encaixavam em sua agenda, como, por exemplo, sua crítica aos rentistas ou sua defesa do Estado. Os neoliberais censuraram sua obra.

O pensador John Gray disse que o liberalismo foi um acidente histórico e que só pôde ocorrer em uma época de supremacia ocidental. Qual é a sua opinião sobre o seu “liberalismo sem esperança”?

Eu não sou liberal, sou de esquerda. Há uma grande diferença: não se pode ter direitos políticos efetivos, sem direitos sociais. John Gray é um liberal de tipo conservador. Desconfio das pessoas que afirmam saber o que vai acontecer historicamente. Tivemos muitas surpresas, como o colapso da União Soviética, em 1991, que ninguém previu.

O liberalismo sem social-democracia é um beco sem saída. Não se pode ter igualdade perante a lei, se as pessoas não têm acesso à saúde, moradia, condições de trabalho dignas, educação e cultura. Gostaria que a Europa valorizasse o que conquistou como social-democracia. Se John Gray diz que o liberalismo está morto e conclui que o único caminho a seguir é através de regimes tirânicos semifascistas, eu digo: que tal se experimentarmos realmente o socialismo?

Se olharmos para os Estados Unidos, não pode mais ser chamado de democracia. Até mesmo na Alemanha, a lacuna entre o que a maioria das pessoas quer e a política do Governo é extraordinária. Nos Estados Unidos, vemos como os bilionários compram os meios de comunicação, o que significa a morte dos meios de comunicação independentes, a base de uma democracia.

Qual é a sua opinião em relação ao uso do termo fascismo para descrever o autoritarismo de Trump?

Não suporto a palavra autoritarismo.

Há quem diga que o termo fascismo é apenas uma forma de demonstrar indignação moral e que não ajuda a compreender o trumpismo.

Na primeira página do meu novo livro, menciona-se que, em outubro de 2024, Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, declarou publicamente que Trump é “fascista até a medula”. De repente, todo mundo utiliza o termo autoritarismo porque não quer soar o alarme.

Federico Finchelstein apontou que um dos argumentos contra o fato de Trump ser fascista é que ele não iniciou guerras. E olhe agora. Cumpre todos os requisitos: não há separação de poderes, apoderou-se dos tribunais e dos meios de comunicação, incita seu próprio povo à violência e estabelece uma distinção entre “a nossa gente” e “os outros”. Deveríamos estar mais indignados moralmente. Falar de autoritarismo não muda nada, mas falar de fascismo faz soar o alarme.

Considera que o termo é útil para um público ocidental que pensa que ele só descreve os anos 1930?

Quando dissemos “nunca mais” depois do fascismo, referíamo-nos apenas a que os alemães não deveriam colocar os judeus outra vez em vagões de gado? Não. Referíamo-nos a que nunca mais deveria acontecer algo parecido com aquilo. Estava claro que se o fascismo chegasse aos Estados Unidos, seria ligeiramente diferente do nazismo ou do fascismo italiano. É óbvio. Mas vejo todos os elementos. Outra questão: Trump está minando a legitimidade das eleições e semeando dúvidas sobre elas, o que é fascista.

O trumpismo pode sobreviver sem Trump?

O MAGA [Make America Great Again] é claramente um movimento fascista. Muitos estadunidenses se perguntam se podemos detê-lo. Há pouco, passei quatro meses nos Estados Unidos e, vista de dentro, a situação parece melhor. Há muita oposição democrática. Nem sempre está bem organizada, mas é impressionante ver as pessoas comuns se opondo ao ICE.

Todos os candidatos que ganharam as eleições a curto prazo são democratas de esquerda, como Zohran Mamdani. Se Trump não tivesse invadido a Venezuela, teríamos tido mais tempo para celebrar essa mudança. Vi mais sinais de esperança conversando com as pessoas nos supermercados do que com os intelectuais. Se houver eleições livres e justas, acredito que recuperaremos o Congresso com democratas mais progressistas.

Após a captura de Maduro e a guerra no Irã, voltou-se a mencionar bastante a obra de Carl Schmitt e a sua ideia das áreas de influência. É um autor que você estudou a fundo. Vivemos em um mundo schmittiano?

Infelizmente, sim. Stephen Miller e J.D. Vance citam Schmitt. É inquietante que haja pessoas na Casa Branca que defendam abertamente um teórico jurídico nazista. O pior é que muitas pessoas que se consideram progressistas também fazem isto.

Um dos principais instigadores da guerra no Irã é Israel. Uma pesquisa recente nos Estados Unidos revelou que, pela primeira vez na história, há mais estadunidenses a favor da Palestina do que de Israel.

As ações de Israel em Gaza se tornaram difíceis de digerir. O descrédito de Israel tem muitos motivos. Por exemplo, Israel instrumentalizou o consenso que sempre existiu sobre o Holocausto para justificar outro genocídio. É moralmente indignante.

Nos Estados Unidos, há muitos estudiosos do genocídio que classificaram o ocorrido em Gaza como genocídio (na Alemanha essa questão ainda é um tabu). Além disso, a proximidade de Netanyahu com a extrema-direita desagrada aos estadunidenses. Israel se associa agora ao lobby pró-israelense AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), que gasta dinheiro para arruinar os candidatos ao Congresso que não apoiam 100% a política israelense.

Depois, há os cristãos evangélicos fanáticos que querem um apocalipse no Oriente Médio para que Jesus retorne. Eles têm mais influência na política do que os judeus porque são 40 milhões. Dá medo de que essas opiniões estejam presentes no exército, neste momento.

Ao final, os estadunidenses perceberão que Israel é quem mais se beneficia desta guerra. Os estadunidenses mais jovens são mais pró-Palestina, mas essa mudança está acontecendo independentemente da idade.

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