Bem-vindos à hiperpolítica

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22 Mai 2026

A política está cada vez mais presente em nossas vidas e, ao mesmo tempo, dá a sensação de que é cada vez mais difícil mudar as coisas.

O artigo é de Ricardo Dudda, jornalista espanhol, publicado por Ethic, 21-05-2026.

Eis o artigo.

Há alguns anos, em 2022, o colunista do Financial Times, Janan Ganesh, descreveu de forma muito breve como é a política contemporânea: trata-se de uma luta “cada vez mais feroz por cada vez menos”. A política está cada vez mais presente em nossas vidas e, ao mesmo tempo, dá a sensação de que é cada vez mais difícil mudar as coisas.

Alguns meses antes, o cientista político Anton Jäger descreveu essa sensação em um ensaio na revista Jacobin, que mais tarde se transformou em seu livro Hyperpolitics, recém-publicado: “tudo é política. E, no entanto, apesar da intensa politização que atravessa todas as esferas de nossas vidas, muito poucas pessoas participam desses conflitos de interesses organizados que costumávamos definir como política no sentido clássico, ou seja, no sentido que essa palavra tinha no século XX”. Tudo é política, mas a política nos parece incapaz de realmente mudar as coisas.

Javier Cigüela também explicou isso recentemente em Letras Libres, apoiando-se em Jäger: “A política devora todas as esferas da vida e obriga a entender cada gesto imaginável como a manifestação de uma posição ideológica, mas, ao mesmo tempo, resulta em uma intervenção imediatista, vaporosa e, frequentemente, meramente semântica, sem capacidade de incidir na realidade social, de criar instituições sólidas ou de se cristalizar em mudanças substanciais”.

Nos anos 1990, também parecia que a política não era capaz de mudar as coisas, mas havia uma atmosfera geral que indicava que, no fundo, isso não era necessário! É o que alguns chamaram de pós-política, a superação da política: estávamos na era da gestão sem atritos.

Vinte anos depois, na década de 2010, o populismo tentou enfrentar esse esfriamento da política, mas colidiu com um muro: a única coisa que se podia fazer era encenar a política, mas não exercê-la. Surgiu, então, a política como performance. O debate público foi repolitizado, começamos a falar muito mais sobre política, que se transformou em mais um gênero de entretenimento (com a protagonização de debates televisivos no prime time). Tudo era política, da cesta de compras ao time de futebol…

E, no entanto, tudo isso não trouxe de volta a política tal como a entendíamos no século XX, a política de massas realmente transformadora. Trouxe o pior dos dois mundos: a politics sem policies, a política sem políticas públicas. Ou seja: o espetáculo da política sem a possibilidade de mudança.

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