21 Mai 2026
Estudo aponta aumento do risco de estresse térmico nos estádios por causa de mudanças climáticas. Técnicos da Fifa já se preparam para atender ocorrências ligadas ao calor extremo.
A reportagem é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 20-05-2026.
Jogadores de futebol e torcedores correm o risco de enfrentar calor e umidade em níveis perigosos durante a Copa do Mundo, que começa em menos de um mês. Segundo estudo da Rede Mundial de Atribuição (WWA, na sigla em inglês), cerca de 25% dos jogos – sediados por México, Estados Unidos e Canadá – devem ocorrer sob condições climáticas extremas, com risco de estresse térmico. Fifa prepara médicos das equipes para adotar estratégias de mitigação de calor e para acudir pessoas adoecidas pelas altas temperaturas.
Para realizar o estudo, WWA usou o índice de Temperatura do Bulbo e Globo Úmido (WBGT), que mede a capacidade do corpo de se resfriar, levando em conta quatro fatores: temperatura do ar, umidade relativa, radiação solar direta e velocidade do vento. O que a organização achou foi que um quarto dos jogos devem ocorrer com temperaturas associadas ao estresse térmico, acima de 26ºC de WBGT.
O médico e consultor do Imperial College London Chris Mullington explica que um dia de 30°C em condições secas e com brisa, por exemplo, é muito diferente de um dia de 30°C com alta umidade, sol forte e pouco vento. “A alta umidade reduz a evaporação do suor, limitando o principal mecanismo de resfriamento do corpo”, explica. “É por isso que o WBGT é tão importante”.
Os pesquisadores compararam as condições previstas para 2026 com as registradas em 1994, ano do tetracampeonato brasileiro e da última Copa do Mundo sediada pelos Estados Unidos. A análise avaliou a probabilidade de cada um dos 104 jogos deste ano ocorrer sob condições que excedam as principais diretrizes de segurança estabelecidas pelo Fifpro, sindicato global de jogadores profissionais.
“Cerca de metade das mudanças climáticas causadas pelo homem ocorreram desde a última Copa do Mundo realizada na América do Norte, em 1994. Como resultado, o clima em que o torneio será disputado mudou significativamente em apenas 32 anos”, diz Joyce Kimutai, pesquisadora associada em clima extremo e mudanças climáticas no Imperial College London.
Segundo o estudo, cerca de 5% dos jogos devem ocorrer quando o WBGT estiver acima de 28°C — o equivalente a aproximadamente 38°C em calor seco ou 30°C em condições de alta umidade. “Quando o índice ultrapassa 26°C, o desempenho dos jogadores pode ser prejudicado. Acima de 28°C, o risco de doenças graves relacionadas ao calor torna-se mais preocupante — não apenas para os jogadores, mas também para as centenas de milhares de torcedores nos estádios e festivais ao ar livre”, explica Mullington.
O Fifpro recomenda pausas para resfriamento quando o WBGT alcança 26°C. A partir de 28°C, a entidade afirma que as partidas devem ser adiadas.
Os pesquisadores destacam que, devido à ampla distribuição geográfica da competição, as condições climáticas devem variar consideravelmente entre as cidades-sede. Jogos realizados em cidades do norte ou costeiras — especialmente no Canadá e ao longo da costa do Pacífico dos Estados Unidos — provavelmente terão temperaturas mais amenas. Já partidas em áreas mais ao sul e no interior dos Estados Unidos e do México poderão enfrentar calor mais intenso, sobretudo durante o dia. Em algumas regiões, a alta umidade também deve aumentar o risco à saúde.
A análise da WWA aponta ainda que o ar-condicionado reduz parte do risco em apenas três das 16 cidades-sede: mais de um terço dos jogos com pelo menos 10% de chance de ultrapassar 26°C de WBGT estão programados para estádios abertos, incluindo Miami, Kansas City, Nova York e Filadélfia, nos Estados Unidos.
Em Miami, há “quase certeza” de calor intenso durante partidas disputadas em estádio a céu aberto. O Brasil deve enfrentar condições extremas na cidade ao jogar contra a Escócia, em 24 de junho. Em Kansas City, apesar de os jogos terem sido agendados para o fim do dia, o risco permanece significativo. A partida entre Holanda e Tunísia marcada para o começo da noite, por exemplo, tem 7% de chance de ultrapassar o limite de 28°C de WBGT.
A final agendada para 19 de julho, em Nova York, tem uma chance de 1 em 8 de ultrapassar a marca de 26°C de WBGT e cerca de 3% de chance de atingir o nível mais perigoso, acima de 28°C — aproximadamente o dobro do risco registrado em 1994.
Em Dallas e Houston, embora os estádios sejam climatizados, os torcedores ainda enfrentarão risco de calor extremo nas áreas externas, com chance de 1 em 3 de exposição a condições acima de 28°C de WBGT. “Com todas as 16 cidades-sede realizando festivais para torcedores ao ar livre, centenas de milhares de pessoas podem ser afetadas”, alerta a rede.
O estudo aponta que a Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos, registrou episódios de calor intenso, mas as condições previstas para 2026 tendem a ser mais frequentes e disseminadas devido ao aumento do calor extremo provocado pelas mudanças climáticas causadas por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.
“Nossa pesquisa mostra que as mudanças climáticas estão tendo um impacto real e mensurável na viabilidade de realizar Copas do Mundo durante o verão do hemisfério norte”, afirma Friederike Otto, cofundadora da WWA e professora de ciências climáticas no Imperial College London.
Segundo Friederike Otto, o fato de um dos maiores eventos esportivos do planeta enfrentar alto risco de calor extremo evidencia como as mudanças climáticas já afetam praticamente todos os aspectos da sociedade.
Em nota ao Observatório do Clima, a Fifa afirmou que médicos das equipes passaram por treinamento sobre estratégias de mitigação do calor e manejo de doenças relacionadas às altas temperaturas. A entidade informou ainda que uma força-tarefa está finalizando diretrizes padronizadas, incluindo sistemas de alerta para risco de calor, e que continuará monitorando as condições climáticas em tempo real com base no WBGT. Segundo a Fifa, equipes de preparação para emergências se reúnem regularmente com autoridades nacionais de meteorologia e gestão de emergências dos Estados Unidos, Canadá e México, além de parceiros nas 16 cidades-sede. A entidade não respondeu se partidas poderão ser suspensas devido ao calor extremo.
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