O alerta de Ebola testa a preparação do México em relação à saúde para a Copa do Mundo

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21 Mai 2026

Especialistas alertam que o surto na África exige protocolos conjuntos entre México, Estados Unidos e Canadá, em antecipação à chegada de milhões de visitantes.

A reportagem é de Verónica M. Garrido, publicada por El País, 20-05-2026.

O novo surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) deve ser abordado com cautela. “Por um lado, não podemos exagerar e dizer que isso vai se tornar uma pandemia internacional. Por outro lado, não podemos ser complacentes. É verdade que a situação no Congo é muito grave”, disse o especialista em doenças infecciosas Alejandro Macías a este jornal. Autoridades sanitárias internacionais estão monitorando atentamente a disseminação da doença na África, enquanto a Copa do Mundo, que atrairá milhões de turistas de todo o mundo para 16 cidades no México, Estados Unidos e Canadá, está prestes a começar. Os especialistas consultados apontam para a necessidade de ativar esforços e protocolos entre os três países.

A seleção nacional da RDC, que está no Grupo K da FIFA ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão, enfrentará o país sul-americano no dia 23 de junho, no Estádio Akron, em Guadalajara, Jalisco. O secretário de saúde do estado, Héctor Raúl Pérez Gómez, declarou ao EL PAÍS que “é muito importante não entrar em pânico nem alarmar” e pediu uma abordagem de prevenção e cuidado livre de estigma e discriminação. “É uma situação delicada que, obviamente, nos preocupa, mas também estamos lidando com ela”, afirmou.

A cidade, que espera receber até 2,5 milhões de visitantes, mobilizará 100 profissionais de saúde nos aeroportos e outros pontos de entrada internacionais. No estádio e arredores, nas Fan Fests e em outros locais da cidade onde ocorrerão atividades culturais durante o torneio, entre 11 de junho e 19 de julho, haverá até 420 membros adicionais do Departamento de Saúde.

Esse trabalho, explica Pérez Gómez, está sendo coordenado com a FIFA e autoridades do governo federal. “Temos reuniões praticamente diárias. Hoje, com o governador Pablo Lemus e a FIFA, discutimos esse assunto. Estamos perfeitamente preparados”, garante. Ele acrescenta: “Este surto epidemiológico está muito, muito longe de ser considerado um risco de pandemia”.

Pérez Gómez enfatiza que a seleção de futebol da República Democrática do Congo e sua comissão técnica “não representam um risco adicional”, visto que estão em centros de treinamento sob supervisão médica rigorosa e constante. Por outro lado, ele reconhece a importância do monitoramento de visitantes. “Sabemos que um paciente assintomático no período de incubação pode chegar. O mais importante é o isolamento e as medidas de proteção individual para os profissionais de saúde”, explica. O surto de Ebola na África Central já atingiu mais de 500 casos suspeitos e cerca de 130 mortes. Não existe tratamento ou vacina comprovadamente eficaz contra a variante Bundibugyo.

Para Samuel Ponce de León, coordenador do programa de Epidemiologia e Riscos Emergentes da UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México), a situação é preocupante, embora não represente “um cenário de desordem, caos ou catástrofe”. A taxa média de letalidade do vírus Ebola é de cerca de 50%, com sintomas iniciais que podem surgir repentinamente: febre, fadiga, mal-estar geral, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta, seguidos de vômitos, diarreia, dor abdominal, erupções cutâneas e sinais de deterioração das funções renal e hepática.

“Na África, o risco aumenta devido ao manuseio de cadáveres e porque os doentes são frequentemente cuidados diretamente por familiares, que entram em contato com secreções corporais e outros fluidos”, destaca Ponce de León.

O especialista destaca que o cenário para um evento de massa “é preocupante” devido ao fluxo de viajantes. “Nunca será uma situação tão disseminada quanto a da Covid, porque o nível de transmissão é muito diferente. No entanto, a transmissão pode ocorrer em diferentes países e algumas cadeias de infecção podem ser estabelecidas. Essas seriam cadeias que poderiam ser controladas rapidamente se houvesse um bom sistema de vigilância e controle institucional”, conclui.

A respeito disso, o Secretário de Saúde de Jalisco assegura que o estado está atento e preparado, tanto em hospitais públicos quanto privados, embora não forneça uma data para a entrega dos suprimentos necessários. “Será muito importante ter os exames laboratoriais que possam ser necessários, mas o mais importante é o isolamento que devemos proporcionar ao paciente e o que conhecemos como equipamentos de proteção individual para os próprios profissionais de saúde”, destaca.

O infectologista indica que o México deve ter ampla disponibilidade de testes, especialmente nas três cidades-sede da Copa do Mundo. “Isso é o mínimo necessário: ter testes, pessoal treinado, trajes de proteção e todos os equipamentos de proteção utilizados nesse tipo de contenção”, afirma.

O desafio surge também em meio a uma crise na Organização Mundial da Saúde (OMS), que se fragilizou nos últimos anos com a saída de países como os Estados Unidos e a Argentina. São “tempos difíceis, perigosos e profundamente divisivos”, admitiu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nesta segunda-feira. Diante desse cenário, Ponce destaca que a responsabilidade pela contenção e vigilância recai sobre as autoridades sanitárias locais. “A esta altura, já deveria haver um protocolo conjunto entre o México, os Estados Unidos e o Canadá. Deveria ter começado há meses”, observa.

Macías destaca que “é importante dizer que nem todos na RDC estão infectados”. No entanto, vale ressaltar que o nível de controle que os governos podem exercer sobre o fluxo de turistas durante o torneio é relativo. “Instamos todos os viajantes vindos do Congo ou de outros países em desenvolvimento a relatarem quaisquer sintomas que apresentem”, afirma. Ponce de León, por sua vez, ressalta que a disseminação da infecção na RDC e em Uganda está ocorrendo principalmente em áreas rurais.

“Esperamos que os viajantes internacionais venham de áreas urbanas, onde a transmissão provavelmente não está presente no momento”, observa. “Mas isso também não pode ser garantido. Uma pessoa pode morar em uma área urbana, ter condições financeiras para viajar para a Copa do Mundo e, ao mesmo tempo, entrar em contato com pessoas de áreas afetadas”, acrescenta.

Na terça-feira, ao ser questionado sobre as medidas que o México tomará para enfrentar o desafio de receber milhões de visitantes, o Secretário de Saúde, David Kershenobich, garantiu que o país está “preparado e vigilante” caso surja algum caso em seu território. O governo mexicano emitiu uma recomendação para quem visita áreas com surtos na África e mantém vigilância epidemiológica especial para o vírus.

As recomendações para viajantes incluem permanecerem atentos a quaisquer sintomas, e um sistema de monitoramento foi implementado para aqueles que chegam daquele continente. Enquanto isso, os Estados Unidos suspenderão a entrada por 30 dias para cidadãos não americanos da RDC, Sudão do Sul e Uganda, e suspenderam todos os serviços de visto.

O especialista da UNAM espera que o governo mexicano forneça “informações mais claras para as autoridades de imigração, protocolos específicos de contenção e espaços preparados para isolar pacientes suspeitos com pessoal devidamente equipado”. Ele conclui que as medidas preventivas muitas vezes parecem exageradas até que o primeiro caso apareça: “A prevenção raramente chama a atenção. Os erros, sim.”

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