18 Mai 2026
A UNRWA salva milhões de documentos que registram o trauma de várias gerações em uma operação de 10 meses.
A reportagem é de Jason Burke, publicada por The Guardian, e reproduzida por El Diario, 18-05-2026.
A viagem de Jerusalém Oriental a Amã deve ser fácil: um curto trajeto de carro até o Mar Morto, depois a travessia do posto de controle fronteiriço e, sem demora, até a capital jordaniana.
Mas para os funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), a jornada parecia intransponível. Era o início do verão de 2024, e eles estavam tentando proteger um vasto e crucial arquivo documental que abrangia décadas da história recente da Palestina.
A UNRWA estava perto de concluir uma operação de 10 meses para salvaguardar seus arquivos em Gaza e Jerusalém Oriental. Tinha sido uma tarefa muito delicada e, por vezes, perigosa. Dezenas de funcionários da agência em quatro países estiveram envolvidos, e a operação implicou deslocações para resgatar documentos de áreas bombardeadas, entrega de envelopes sem identificação vindos do Egito e transporte de materiais preciosos em caixas utilizando aeronaves militares.
O tempo estava se esgotando. Israel havia se organizado para expulsar a UNRWA do vasto complexo que ocupava em Jerusalém Oriental, um objetivo também almejado por grupos de direita.
A importância dos arquivos da UNRWA é evidente. Muitos deles detalham as experiências de palestinos que fugiram ou foram expulsos de suas casas durante as guerras que levaram à fundação de Israel em 1948.
“Destruí-los teria sido catastrófico… Se uma solução justa e duradoura para o conflito for alcançada, esta será a documentação que comprovará que palestinos viviam em determinado local”, explica Roger Hearn, alto funcionário da agência e responsável pela operação.
A UNRWA não deveria ter que fazer esse tipo de esforço clandestino, já que sua missão fundadora, em 1949, era fornecer assistência médica, alimentação e educação para cerca de 750 mil refugiados palestinos.
No início da Guerra de Gaza, que se seguiu ao ataque surpresa do Hamas em 7 de outubro de 2023, os arquivos da organização estavam dispersos pelos países onde ela possui escritórios no Oriente Médio. Sua sede na Cidade de Gaza guardava os cartões de registro originais dos refugiados palestinos que fugiram para a Faixa de Gaza em 1948 em busca de segurança, bem como certidões de nascimento, casamento e óbito que remontavam a várias gerações. Esses documentos permitiram que os palestinos descendentes daqueles que foram forçados a deixar suas casas rastreassem suas origens familiares até o que hoje é Israel.
Embora tenham existido diversas iniciativas para digitalizar os documentos, centenas de milhares de registros ainda são mantidos em papel, o que os torna vulneráveis a incêndios, inundações ou destruição deliberada.
Jean-Pierre Filiu, professor de Estudos do Oriente Médio no Instituto de Estudos Políticos de Paris, que visitou Gaza durante a guerra, considera os documentos “cruciais para a experiência palestina”.
“Há testemunhos de pessoas que foram forçadas a fugir em 1948, de onde vieram, quais eram suas propriedades, o que foi destruído. Entre 1948 e 1949, 200 mil pessoas chegaram a Gaza vindas de toda a Palestina”, ele recorda.
Israel nutre há décadas hostilidade contra a UNRWA, acusando-a de dar aos palestinos a esperança de retornar às suas casas ao conceder status de refugiado aos descendentes daqueles que originalmente fugiram. Acusa também a agência de usar livros didáticos em suas escolas que promovem visões anti-Israel e antissemitas.
Após os ataques do Hamas em 2023, Israel alegou que membros da agência participaram do ataque. A UNRWA demitiu nove pessoas após uma investigação.
A primeira fase da operação de resgate de documentos foi dramática e arriscada.
Dias após invadir Gaza, Israel ordenou a evacuação dos escritórios da UNRWA na Cidade de Gaza. Os funcionários internacionais deixaram o local em poucas horas, sem poder levar seus arquivos consigo.
“Havia um risco real de que os israelenses entrassem e os destruíssem, ou que fossem aniquilados por fogo, explosão ou qualquer outra coisa”, diz Sam Rose, diretor interino da UNRWA em Gaza.
O sistema de registro digital da UNRWA havia sido temporariamente desativado devido a uma tentativa de ataque cibernético alguns meses antes, e havia receios de que outro ataque cibernético pudesse apagar os registros já digitalizados.
“Houve um período muito perigoso em que os ciberataques se repetiam. Eles atacavam muitas e muitas vezes por dia, e nós realmente pensávamos que poderiam destruir tanto os originais quanto as cópias que tínhamos feito. E tudo teria sido perdido irremediavelmente”, relembra Hearn.
Uma pequena equipe de funcionários da UNRWA alugou vans para retornar ao extenso complexo da agência na Cidade de Gaza, apesar da implacável ofensiva israelense, que incluía bombardeios e disparos de artilharia constantes. A equipe fez três viagens para entregar documentos a um depósito de alimentos em Rafah, na fronteira com o Egito.
Mas o Cairo não permitiria a remoção dos arquivos de Gaza sem antes consultar Israel. Os funcionários da UNRWA estavam certos de que Israel, que havia imposto um bloqueio quase total à Faixa, reconheceria imediatamente a importância dos documentos e os apreenderia ou recusaria sua transferência. Quando Israel invadiu o Líbano em 1982, seu exército removeu os arquivos da Organização para a Libertação da Palestina de sua sede em Beirute.
Assim, funcionários da UNRWA com passaportes internacionais foram encarregados de obter os arquivos sem serem vistos.
“Se parassem alguém na fronteira, simplesmente diziam que era por causa da papelada. Era preciso apresentar uma montanha [de documentos]. Todo mundo carregava alguma coisa consigo”, diz ele.
Os documentos foram verificados no Egito ao longo dos seis meses seguintes e, em seguida, transportados por uma ONG jordaniana a bordo de uma aeronave militar do país, retornando a Amã após entregar ajuda humanitária em Gaza. Os últimos pacotes partiram apenas duas semanas antes de tanques israelenses entrarem em Rafah para tomar a cidade em maio de 2024 e bloquear as saídas.
No entanto, várias coleções de documentos igualmente importantes ainda precisavam ser recuperadas da sede da agência em Jerusalém Oriental.
Poucas semanas após o início da guerra, Israel intensificou suas acusações de que a UNRWA estava colaborando com o Hamas e lançou uma campanha de obstrução e assédio contra a agência. O complexo em Jerusalém Oriental já havia sido alvo de diversos protestos e uma série de ataques incendiários no início de 2024, causando danos significativos. Enquanto isso, as iniciativas para expulsar a agência da ONU ganhavam força.
“Eles nos ameaçaram dizendo que perderíamos o acesso [aos nossos escritórios] em Jerusalém Oriental”, diz Rose.
As tentativas de persuadir missões diplomáticas mais amigas a salvaguardar os arquivos foram em vão. O tempo estava se esgotando, então, ao longo de vários meses, a equipe os transportou gradualmente para os escritórios da UNRWA na Jordânia. Em janeiro de 2025, Israel aprovou uma lei proibindo a agência de atuar nos Territórios Ocupados e no próprio país.
Isso levou a uma nova e ampla iniciativa lançada a partir de Amã, financiada principalmente por Luxemburgo. Mais de 50 funcionários da UNRWA digitalizaram meticulosamente inúmeros cartões de registro de refugiados do tamanho de cartões-postais, juntamente com milhões de outros itens, manualmente, em um porão apertado.
“Agora [os arquivos] estão fora da Palestina, mas pelo menos estão protegidos”, destaca Filiu.
A UNRWA já digitalizou quase 30 milhões de documentos, o que espera que permita fornecer aos refugiados palestinos suas árvores genealógicas e registros relacionados, bem como criar mapas que ilustrem os padrões de deslocamento em 1948. Os arquivos também proporcionarão uma melhor compreensão dos eventos que cercaram a expulsão e a fuga dos aproximadamente 750.000 palestinos que foram deslocados e fugiram naquela época. Funcionários da agência estimam que o trabalho possa levar mais dois anos.
A Dra. Anne Irfan, historiadora do Oriente Médio moderno no University College London e autora do livro recém-publicado "A Short Story of the Gaza Strip" (Uma Breve História da Faixa de Gaza), acredita que os documentos representam um registro vital da história nacional palestina.
“Os palestinos são um povo sem Estado e sem um arquivo nacional unificado... por isso o arquivo da UNRWA é especialmente importante para eles”, explica ele.
Os arquivos digitalizados abrem múltiplas linhas de investigação sobre a experiência dos refugiados palestinos, o papel da ONU e da comunidade internacional, e elementos essenciais da política do Oriente Médio nos últimos 80 anos, disse Irfan ao The Guardian. "É uma história altamente controversa com ramificações potenciais muito reais hoje", argumenta ele.
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