“Um mundo instável por alianças desfeitas. A religião usada como desculpa para os conflitos”. Entrevista com Cardeal Jean-Paul Vesco

Uma menina de 11 anos está sentada nos escombros de uma casa em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. (Foto: Eyad El Baba | UNICEF)

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15 Mai 2026

De baixa estatura, mas com uma personalidade exuberante que cativou a mídia durante o conclave que elegeu Leão XIV. Poliglota e de simpatia inata, é bem conhecido pelos moradores de rua da Praça de São Pedro. Chama-os pelo nome e muitas vezes já lhes prestou assistência. Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel, publicou pela Lev L'audacia della fraternità (A Audácia da Fraternidade), um livro-manifesto sobre a virtude esquecida da era da "terceira guerra mundial aos pedaços": "Ou voltamos a nos enxergar como irmãos, ou o mundo não terá futuro", afirma o cardeal, natural de Lyon. "Se existe um homem que encarna a dimensão da fraternidade", escreveu o semanário Le Point, "esse homem é Vesco". Em Paris, acaba de celebrar missa em Notre Dame em memória dos mártires da Argélia, usando um broche do país na lapela. "A fraternidade é a fronteira da Igreja; esse é o maior testemunho que ela pode dar ao mundo."

A entrevista é de Giacomo Galeazzi com o Cardeal Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel, publicada por La Stampa, 14-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Nas relações com o Islã, o que significa ser irmãos?

A fraternidade é reconhecer um homem e uma mulher como tais antes de vê-los como muçulmanos. Antes mesmo de considerá-los crentes. Temos que abandonar a obsessão da diferença religiosa, vendo em cada pessoa um homem e uma mulher, e em segundo lugar uma pessoa de fé. Mesmo com crentes de outra religião, temos muito em comum; somos iguais, homens e mulheres. E a religião não pode deixar de nos "ligar": a própria palavra "re-ligio" diz isso, ou seja, nos ligar juntos. A religião não pode se tornar uma barreira. As fés religiosas devem escolher a fraternidade: tem que ser assim.

Quando jovem, o senhor participou de protestos universitários e depois trabalhou como advogado até encontrar sua vocação. Por que o Norte da África como lugar de missão?

Quando entrei para a Ordem Dominicana naquele ano (1º de agosto de 1996), o bispo de Oran, Pierre Claverie, foi assassinado na Argélia, juntamente com seu amigo muçulmano, Mohamed. Imediatamente senti uma profunda ligação entre mim e esse dominicano, a quem eu não conhecia. Quando fui ordenado sacerdote e minha ordem religiosa quis enviar frades para a Argélia, me ofereci como voluntário. Em Oran, tornei-me vigário-geral do bispo que sucedeu o mártir Claverie, depois bispo eu mesmo, e nessa função organizei a cerimônia de beatificação dos 19 mártires da Argélia em 8 de dezembro de 2018. Em tudo isso, vejo um fio misterioso que me une àquele povo e à Igreja que sirvo na Argélia.

Em Gaza, no Irã e no Oriente Médio, a relação entre o Norte e o Sul globais está sendo reescrita. Poderiam acontecer barreiras culturais e geopolíticas como aquela Leste-Oeste durante a Guerra Fria?

Não há dúvida de que os equilíbrios mundiais estão se modificando. O esquema Leste-Oeste e agora aquele Norte-Sul se romperam. Estamos caminhando para uma fragmentação do mundo; é difícil saber aonde isso nos levará. Por décadas, assistimos à contraposição entre o bloco soviético de um lado e o bloco capitalista do outro, depois aquela entre Norte-Sul e, ainda, aquela entre mundo muçulmano e mundo ocidental. Hoje, tudo isso desmoronou, as alianças estão sendo redefinidas, tornando o planeta muito mais instável. Num passado recente, víamos as religiões como fator de divisão, hoje o que testemunhamos é muito diferente: o que está acontecendo na Palestina, em Israel e no Irã não tem nada a ver com as religiões, mas sim com interesses bem mais profundos. O que está acontecendo na Palestina é colonização sob pretextos religiosos; no Irã, estão em curso relações de força que nada têm a ver com as religiões. Temos confirmação disso todos os dias.

O senhor é um defensor do papel crescente das mulheres na Igreja. Quais desenvolvimentos futuros considera possíveis?

Na minha cúria diocesana em Argel, são mais presentes as mulheres do que os homens: somos seis, o bispo e o vigário-geral são homens, e o restante da equipe é composta por quatro mulheres. Esta é, efetivamente, uma questão para a Igreja: o mundo está mudando, a Igreja está mudando, mas, ainda assim, existe um desnível muito grande em relação ao papel das mulheres na Igreja. É uma questão que devemos abordar. O Papa Francisco já havia aberto um caminho. A consciência da distinção entre o papel sacramental do sacerdote e o seu papel na governança eclesiástica está crescendo na Igreja. Em última análise, trata-se do equilíbrio entre os leigos e o clero na vida da Igreja. Lembremo-nos de que são as mulheres que "mantêm a Igreja funcionando". Mas não podemos deixar de notar que existe uma defasagem entre o que efetivamente acontece e os papéis no governo da Igreja.

Leão XIV colocou a paz no centro do seu Magistério e alertou contra a geopolítica da impotência. Num mundo onde a força predomina, ainda há espaço para a fraternidade?

Hoje, as relações entre os Estados não se baseiam mais em dinâmicas ideológicas ou religiosas, mas sim em puras relações de força. E se continuarmos por esse caminho, creio que o mundo não terá um futuro. Se não enxergarmos o outro, mesmo o mais diferente de nós, como irmão, mas unicamente como alguém com que tratar com base num princípio de força ou fraqueza, então a vida não tem amanhã. Leão XIV é o único líder mundial que continuamente apela para o dever da paz. Ao elegê-lo, nós, cardeais, sabíamos que estávamos escolhendo um Papa para a paz. Cada Pontífice vem em sua própria época, e este Papa vem para uma época de guerra na qual é urgente buscar a paz. "A guerra voltou a estar na moda", declarou o Papa Leão XIV aos diplomatas. Todas as instituições que foram criadas no passado — a ONU, a Europa — para enfrentar de maneira não bélica as disputas entre estados, acabaram ficando bastante enfraquecidas. A fraternidade é o único horizonte à nossa frente: sem ela não existe nenhum futuro para a humanidade. Pierre Claverie dizia que "ninguém possui a verdade, cada um a busca, e eu preciso da verdade dos outros".

Uma pergunta "mais leve": como começou sua paixão pela corrida? Quando se tornou um maratonista? Acabou de participar da Maratona de Roma.

Corro desde criança. Não tenho lembrança de mim que não seja correndo. Quando jovem, vivia fazendo corridas de cross-country. Depois parei, a certo ponto, e agora, como adulto, voltei a correr. E hoje, correr se tornou uma fonte de inspiração para mim. Não conseguiria ficar sem correr.

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