15 Mai 2026
O Sínodo pediu que os leigos tenham mais influência na escolha dos bispos — o Papa Leão deveria ouvir
O artigo é de por Thomas J. Reese, publicada por America - The Jesuit Review, 14-05-2026.
Thomas J. Reese, SJ, é analista sênior do Religion News Service. Anteriormente, foi colunista do The National Catholic Reporter (2015-17) e editor associado (1978-85) e editor-chefe (1998-2005) da revista America .
Eis o artigo.
Um grupo de estudo estabelecido pelo Papa Francisco após o Sínodo sobre a Sinodalidade pediu um papel maior para os leigos e o clero na seleção dos bispos, especialmente envolvendo o conselho presbiteral diocesano e o conselho pastoral.
O grupo de estudo foi criado em resposta ao apelo do sínodo “para ampliar a consulta ao fiel Povo de Deus e envolver um número maior de leigos e pessoas consagradas no processo de consulta”. As sugestões práticas apresentadas pelo grupo representam uma expansão substancial do papel dos leigos e do clero no processo de escolha de seus bispos — e remetem ao homônimo do atual papa.
O Papa Leão Magno, no século V, acreditava que um verdadeiro bispo deveria ser eleito pelo clero, aceito pelo povo e ordenado pelos bispos das dioceses vizinhas. Era um sistema de freios e contrapesos que teria agradado aos autores dos Federalist Papers.
O clero se reunia e votava na catedral e então apresentava sua escolha ao povo que aguardava do lado de fora. Se o povo aplaudisse, ele era aceito. Se vaiasse, o clero teria de tentar novamente. Há ecos tênues desse processo nas eleições papais, nas quais os cardeais, considerados parte do clero romano, elegem o bispo de Roma. O homem escolhido é então apresentado ao povo na varanda da Basílica de São Pedro.
A etapa final do processo seria a aceitação e ordenação do candidato pelos bispos vizinhos, porque um bispo não é apenas líder de uma diocese, mas também membro do colégio episcopal.
Embora esta seja uma bela teoria, durante muito tempo a realidade foi que reis e nobres frequentemente controlavam o processo e escolhiam parentes ou aliados políticos como bispos, o que levou à corrupção generalizada na Igreja. Reformadores da Igreja pressionaram para libertar as nomeações da influência das autoridades civis, concedendo ao papa autoridade absoluta sobre a nomeação dos bispos.
Centralizar as nomeações episcopais em Roma trouxe seus próprios problemas: carreirismo, compadrio e insensibilidade às condições locais. Cada papa tinha suas próprias prioridades na escolha dos bispos, que podiam não ter relação alguma com a situação da diocese.
Paulo VI queria bispos pastorais que implementassem o Concílio Vaticano II e se relacionassem bem com seus padres. João Paulo II e Bento XVI queriam bispos que aplicassem sua interpretação do Vaticano II e eliminassem clérigos e teólogos que divergiam do ensinamento papal. Francisco queria bispos pastorais e próximos dos pobres.
Minha aposta é que Leão XIV queira bispos capazes de unir seus rebanhos enquanto pregam paz, justiça e cuidado com o planeta.
É dever do bispo “construir comunhão entre seus membros e com a Igreja universal, promovendo a variedade de dons e ministérios concedidos para o próprio crescimento e para a difusão do Evangelho”, disse Leão em 25 de junho de 2025. Nesse sentido, “um sinal claro de sua prudência pastoral é o exercício do diálogo como estilo e método, tanto em suas relações com os outros quanto na presidência de organismos participativos: em outras palavras, na condução da sinodalidade em sua Igreja particular”.
Centralizar o processo de seleção em Roma não significa ignorar a contribuição das igrejas locais.
Atualmente, os bispos de uma província se reúnem a cada três anos, sob a liderança do arcebispo, para enviar ao núncio — representante do papa junto à Igreja e ao governo de um país — uma lista de padres que consideram aptos a se tornarem bispos. Em sintonia com a sinodalidade, o grupo de estudo quer que os conselhos presbiterais e os conselhos pastorais diocesanos se reúnam antes do encontro dos bispos.
“Em um clima de oração comum e intercâmbio fraterno”, afirmou o grupo de estudo, “cada um desses organismos formulará colegialmente uma opinião escrita sobre a situação e as necessidades da diocese”.
E cada membro desses organismos entregará ao bispo, em envelope lacrado, “os nomes de sacerdotes que atuam na diocese e que consideram adequados para o episcopado”.
Sempre que possível, “o cabido da catedral, o conselho econômico diocesano, o conselho leigo, as uniões de homens e mulheres consagrados e grupos diocesanos que representem institucionalmente os jovens e os pobres também deverão ser convocados”.
Além disso, eles também deverão apresentar envelopes lacrados contendo “uma opinião sobre o perfil do futuro bispo de sua Igreja local e os nomes de bispos ou sacerdotes (não necessariamente atuando na diocese) que considerem adequados para a sucessão”. Os envelopes devem incluir a justificativa das escolhas.
O bispo também poderá consultar outras pessoas, e os resultados serão enviados ao núncio e compartilhados com os bispos da província.
O núncio é responsável por indicar três candidatos para uma diocese vacante após consultar bispos, clero e fiéis. Ele faz isso enviando um questionário sobre um candidato a pessoas selecionadas, incluindo clérigos, religiosos e leigos. Em seguida, elabora um relatório sobre cada indicado e sobre a diocese e os envia ao Dicastério para os Bispos, em Roma. Pelo sistema recomendado pelo grupo de estudo, ele agora terá contribuições adicionais dos membros do conselho presbiteral e do conselho pastoral.
Para ajudar o núncio em seu trabalho, o grupo de estudo também recomenda a criação de um Comitê para a Provisão da Igreja Local, composto por “dois padres diocesanos eleitos pelo Conselho Presbiteral, dois homens/mulheres consagrados e dois leigos eleitos pelo Conselho Pastoral Diocesano, juntamente com o Administrador Diocesano ou Administrador Apostólico”, que dirige a diocese quando não há bispo.
Os membros do comitê “prestam juramento de confidencialidade, o que não os impede de consultar discretamente outros fiéis da Igreja local para reunir informações úteis”. Então, “o núncio se apoia nesse Comitê para esclarecer a situação da diocese, o perfil do novo pastor e receber opiniões sobre possíveis candidatos”.
Essas mudanças são incrementais, não revolucionárias — o que é positivo. Aqueles que temem mudanças não devem se assustar, porque toda a participação continua sendo consultiva, não decisiva. Aqueles que desejam mudanças maiores, como a eleição de um bispo pelo clero e/ou pelos leigos, deveriam aceitar essas alterações como grandes melhorias em relação ao processo atual.
As recomendações do grupo de estudo são práticas e fáceis de implementar. Elas poderiam ser rapidamente adotadas nos Estados Unidos, onde há liberdade religiosa e o governo não interfere na escolha dos bispos.
O Papa Leão conhece intimamente o processo de seleção episcopal porque foi chefe do Dicastério para os Bispos, que faz recomendações ao papa sobre os bispos. Essas são recomendações sensatas que ele deveria aceitar. Não são exatamente o que desejava o Papa Leão Magno, mas representam uma grande melhoria em relação ao processo atual.
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