A inteligência artificial poderá ver todas as mensagens privadas do Instagram a partir de hoje: "Imagine o carteiro lendo suas cartas"

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09 Mai 2026

O Meta remove a única proteção real para os chats do Instagram e abre as portas para a análise em massa de conversas privadas com IA.

A reportagem é de Carlos del Castillo, publicada por El Diario, 07-05-2026.

Nesta sexta-feira, 8 de maio, o Instagram deixará de oferecer criptografia de ponta a ponta para suas mensagens privadas. Na prática, isso permite que a Meta acesse livremente os chats dos 2,5 bilhões de usuários da rede social.

A empresa alega que a mudança se deve ao baixo uso da criptografia, que precisa ser ativada pelos usuários. No entanto, a decisão coincide com a implementação de uma lei nos EUA que pressiona as empresas a eliminarem esse protocolo de segurança, o mais eficaz para proteger as comunicações digitais. Coincide também com o aprimoramento das capacidades de análise de big data da inteligência artificial.

Organizações de defesa dos direitos digitais e da privacidade criticaram a decisão da Meta, que também é proprietária do Facebook e do WhatsApp. "Essa mudança de rumo exporá milhões de usuários a riscos sérios e concretos", alerta a Global Encryption Coalition, cujos membros incluem a Mozilla Foundation, o Center for Democracy and Technology e a Internet Society.

Proteção básica

A criptografia de mensagens digitais é um processo que converte seu conteúdo em um código ilegível, exceto para a pessoa que possui a chave correta (o destinatário original). "Muitos usuários do Instagram usam mensagens diretas para discutir assuntos pessoais, políticos ou profissionais sensíveis", destaca a Coalizão. Abandonar a criptografia "aumentará o risco de esses usuários serem monitorados e interceptados por agentes maliciosos, governos e outros que buscam acessar suas comunicações privadas", alertam.

Os críticos também apontam que até mesmo o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, defendeu o valor dessa proteção digital básica. "Acredito que o futuro da comunicação caminhará cada vez mais para serviços privados e criptografados, onde as pessoas possam ter certeza de que o que dizem umas às outras permanece seguro e que suas mensagens e conteúdo não serão armazenados indefinidamente. Este é o futuro que espero que possamos ajudar a construir", afirmou ele em 2023.

Então, qual é o motivo da mudança? "Pouquíssimas pessoas estavam optando pela criptografia de ponta a ponta em mensagens diretas, então removeremos essa opção do Instagram nos próximos meses. A partir de 8 de maio de 2026, não forneceremos mais criptografia de ponta a ponta em mensagens diretas", anunciou a empresa em março, incentivando os usuários a migrarem para o WhatsApp, que continuará oferecendo essa proteção.

Embora a Meta não tenha divulgado um número oficial, alguns analistas sugerem taxas de utilização em torno de 2%. Isso implicaria que 50 milhões de pessoas em todo o mundo teriam criptografado suas mensagens do Instagram, um número considerável, visto que a ativação teve que ser voluntária. “É um recurso oculto, pouco divulgado e complexo que as pessoas desconhecem e que não vem ativado por padrão; não porque as pessoas optem por não se proteger”, enfatiza Elena Gil, advogada especializada em novas tecnologias.

Conversas reveladas

Ao ser contatada pelo elDiario.es, uma porta-voz da Meta compartilhou uma publicação de 2023 de seu blog oficial afirmando que a empresa não usará mensagens privadas para treinar sua IA. No entanto, isso não está claramente definido em sua política de privacidade, que é o único documento juridicamente vinculativo referente ao uso de dados pessoais pela empresa, observa Elena Gil.

Pelo contrário, após analisar essas 140 páginas de cláusulas legais, a advogada explica que a Meta faz uso extensivo e mal definido de um conceito jurídico chamado "interesse legítimo". Trata-se de uma fórmula que permite às empresas usar dados do usuário sem solicitar explicitamente sua permissão.

“É o conceito jurídico mais utilizado no mundo digital para o treinamento de inteligência artificial ou sistemas automatizados”, observa Gil, cuja pesquisa sobre como as empresas usam brechas legais como o “interesse legítimo” para analisar dados de usuários foi premiada pela Agência Espanhola de Proteção de Dados. “Com muitas nuances, basicamente significa que elas não precisam pedir consentimento se as consequências de suas ações forem mínimas”, explica.

Além disso, a alegação da Meta de que não utiliza dados de mensagens para treinamento de IA significa que esses dados não serão adicionados aos seus bancos de dados, e não que não possam ser analisados. Um dos usos especificamente mencionados em sua política de privacidade é a inferência: “Inferência é a dedução de mais informações sobre você. Essas informações inferidas são como o Santo Graal da economia digital: além de coletar muitos dados sobre você, eles tentam antecipar e adivinhar informações que você nunca forneceu”, continua a advogada.

Ao remover a proteção de ponta a ponta, a plataforma tem livre acesso a todas as mensagens de seus usuários. "Imagine se o carteiro, que é a Meta, pudesse parar e ler todas as cartas que você escreve", explica ele: "Se você fala sobre suas finanças, doenças, em quem vota, detalhes que revelam sua orientação sexual — mesmo em um país onde isso possa ser ilegal —, quanto você ganha, o que está acontecendo com você. Se você está tendo um caso extraconjugal. Suas conquistas, suas alegrias. Imagine que tudo isso, em vez de ser secreto, como era legislado décadas atrás, agora pudesse ser lido."

Gil esclarece que isso não significa que as pessoas irão ler as mensagens. Trata-se de "um algoritmo que está sempre aprendendo com tudo o que você faz dentro e fora das mensagens privadas" que será capaz de lidar com elas.

“Tudo isso é terreno fértil para manipulação em massa, treinamento de novos sistemas de IA, criação de sistemas que se assemelham cada vez mais a humanos, etc. E tudo sob o pretexto de fornecer informações transparentes em um documento que, digo-lhes, tem mais de 140 páginas, sabendo que ninguém o entende, porque nem mesmo um especialista consegue decifrar o que está escrito”, afirma a advogada em relação à política de privacidade da rede social.

Lei contra a criptografia em 11 dias

Há outro contexto para a remoção dessa proteção digital para mensagens. O fim da criptografia no Instagram ocorre apenas 11 dias antes da entrada em vigor da chamada lei "Take It Down", a primeira lei dos EUA a proibir o compartilhamento não consensual de imagens íntimas, incluindo aquelas geradas com inteligência artificial.

A lei "Take It Down" foi ratificada por Donald Trump em maio de 2025 como reação aos primeiros escândalos de criação de imagens sexualizadas com inteligência artificial, que afetaram personalidades como Taylor Swift, além de políticos, professores e alunos de escolas e institutos.

Além de punir quem distribui esse conteúdo, a lei também estipula um prazo de 48 horas para que as plataformas removam tais conteúdos. O Instagram é uma das principais plataformas onde esses tipos de ataques ocorrem, e a criptografia de mensagens dificultava o cumprimento da lei por parte da Meta. A sua remoção permitirá que a rede social analise mensagens privadas em busca desse e de outros tipos de conteúdo.

Essa é uma das consequências nocivas desse tipo de lei, como alertaram diversas organizações e especialistas em direitos digitais do mundo todo. “As plataformas podem responder abandonando completamente a criptografia para monitorar o conteúdo, transformando conversas privadas em espaços vigiados”, alertou a Electronic Frontier Foundation (EFF), organização líder nessa área, durante as negociações da Lei Take It Down.

Apesar disso, a tendência de impor a possibilidade de revisão das mensagens criptografadas dos usuários está se espalhando internacionalmente. Atualmente, a UE está negociando uma lei contra a disseminação de pornografia infantil, que, segundo críticos, pode ter o mesmo efeito que a Lei de Remoção de Conteúdo Criptografado (Take It Down Act). A Comissão Europeia afirma que a legislação não prejudicará a criptografia, mas centenas de especialistas em tecnologia enviaram uma carta a Bruxelas para expressar sua discordância: “É uma grande ameaça”.

O Reino Unido e a Índia estão pressionando por legislação semelhante. É por isso que a decisão do Instagram "cria um precedente perigoso", alerta a Global Encryption Coalition: "Num momento em que governos de todo o mundo estão considerando ativamente medidas que possam enfraquecer ou contornar a criptografia, o setor privado deve priorizar a privacidade e a segurança no desenvolvimento de seus produtos."

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