Precisamos do Espírito para viver o mandamento do amor. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

08 Mai 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 14,15-21 que corresponde ao 6° Domingo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor,  para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade,  que o mundo não é capaz de receber,  porque não o vê nem o conhece.  Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá,  mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus mandamentos e os observa,  esse me ama.  Ora, quem me ama, será amado por meu Pai,  e eu o amarei e me manifestarei a ele.

Jesus está com seus discípulos e lhes entrega o que deve pulsar no coração da comunidade que deseja segui-lo, que deseja ser sua discípula:

Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos.

A palavra “mandamentos” foi adquirindo diferentes significados ao longo da história do cristianismo, por vezes distanciando-se bastante do mistério que Jesus quis transmitir. Significava cumprir normas, tentar seguir os dez mandamentos que Deus havia entregue a Moisés no Sinai ou outro tipo de preceitos, mas geralmente carregados de um forte conteúdo moral, dependendo da época e das circunstâncias.

“Se vocês me amam…”. Jesus começa falando-lhes sobre o amor: pois é o coração, a fonte e a origem do desejo de segui-lo. O amor é o requisito essencial para cumprir os mandamentos. É a fonte de onde brota esse “cumprir os mandamentos”. Podemos dizer que não será possível acolhê-los a não ser a partir do amor. O amor é a base, é a essência, é o centro de onde nasce tudo o mais e o início daquela Última Ceia, desse momento sagrado em que Jesus está entregando seu legado. Lemos que: “tendo amado os seus, amou-os até o extremo” e começou a lavar os pés de cada um dos discípulos. A partir desse amor — que é serviço abnegado — que é rebaixar-se, como diz São Paulo: Ele, que era de natureza divina e não fez alarde de sua natureza divina, mas se rebaixou… É um amor concreto, que se recebe, que se sente e se acolhe, e é a única porta pela qual se pode entrar para cumprir seus mandamentos.

“Se vocês me amam…”. Cada um/a dos discípulos e discípulas foram olhados e amados por ele e, por isso, seguiram-no. A história de milhares de cristãos e cristãs, de comunidades inteiras mártires por sua fé em Jesus, que os levou a estar entre os mais pequenos, entre os “últimos”, torna visível esse amor de Deus que cativa e sustenta a fé, esse segui-lo, mesmo apesar das dificuldades. O Reino que Jesus promete não leva a um espiritualismo desencarnado… mas nos conduz por seu próprio Caminho – como vimos no domingo passado – nos convida a descer com Ele e tocar as chagas daqueles que sofrem para levar-lhes a esperança do amor que sana, reconforta e cura essas feridas!

“Se vocês me amam”. Não somos portadores de doutrinas, nem de ensinamentos, mas somos comunicadores de um Amor que recebemos, experimentamos e que nos impele a comunicá-lo.

“Se vocês me amam…”. o amor não fica nas palavras, mas se traduz em gestos concretos. Jesus demonstrou isso na Última Ceia ao lavar os pés daqueles que estavam com Ele à mesa. Esse gesto humilde é a verdadeira medida do amor: “Façam o mesmo”. Muitas vezes, cumprir os mandamentos foi considerado prioridade como sinal de amor, entendidos como uma lista de normas impostas.

O Papa Francisco nos lembrou que os mandamentos não são correntes, mas sim marcas que nos guiam rumo à liberdade do amor verdadeiro; é um caminho que se ilumina a partir do amor e se concretiza em gestos vivos de serviço. “Os preceitos de Deus podem ser reduzidos a ser apenas a bela fachada de uma vida que, seja como for, continua sendo uma existência de escravos e não de filhos. Muitas vezes, por trás da máscara farisaica da correção asfixiante se oculta algo feio e não resolvido. O Papa: a obediência formal reduz o Decálogo a uma máscara

Então, eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre.

Jesus sabe que, sozinhos, não podemos fazer nada, que a dura realidade que às vezes vemos e sentimos nos ultrapassa, como já nos dizia o Papa Francisco: “A nova vida não é o esforço titânico para sermos coerentes com uma norma, mas o próprio Espírito de Deus que começa a nos guiar até os seus frutos, em uma feliz sinergia entre a nossa alegria de sermos amados e a sua alegria de nos amar. Duas alegrias se encontram: a alegria de Deus de nos amar e a nossa alegria de sermos amados”. 

“Ele é o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele mora com vocês, e estará com vocês. ”

Jesus nos promete o seu Espírito! É o mesmo Espírito que o move, que alimenta a sua vida, que é o canal da sua comunicação com o Pai; esse mesmo Espírito é o que Ele nos dá. E a pergunta que poderíamos nos fazer é: como podemos recebê-lo? Uma pergunta tranquila e serena, que não tem resposta imediata, que expressa uma busca, nasce de um desejo e de uma profunda necessidade diante das diferentes situações que vivemos.

“Eu não deixarei vocês órfãos, mas voltarei para vocês.”

Há já mais de XX séculos que o Espírito anima, sustenta e alimenta a vida de todas as comunidades cristãs, renovando-as, abrindo novos horizontes, conquistando pessoas que seguem o seu caminho com profundas convicções.

Precisamos do seu Espírito para sermos instrumentos de mudança, para nos animarmos a ousar o diferente e não continuarmos a fazer parte de um cristianismo “acostumado”, como meros cumpridores de normas ou ritos, mas onde não há vida e que muitas vezes afasta aqueles que buscam Deus às cegas.

Como escreveu o padre Robert Francis Prevost, quando era Prior Geral da ordem dos Agostinianos em seu livro Liberi sotto la grazia: "é preciso realizar uma mudança substancial dos conceitos, para nos ajudar a renovar nosso vocabulário e nossas expressões", e por isso convida os irmãos consagrados a seguirem o exemplo de Santo Agostinho, que "em seu tempo soube se fazer entender e criar uma linguagem capaz de falar ao coração ainda hoje". 

Precisamos do seu Espírito para nos guiar, nos iluminar e nos dar a capacidade de nos deixarmos sempre animar por ele. A partir da nossa pobreza e fragilidade, unimo-nos à oração do Papa Leão para o mês de maio.

Oração

Senhor da criação, Tu nos deste a terra fértil e, com ela, o nosso pão de cada dia, como sinal do teu amor e providência. Hoje reconhecemos com tristeza que milhões de irmãos e irmãs continuam a sofrer de fome, enquanto tantos bens são desperdiçados em nossas mesas.

Desperta em nós uma nova consciência: que aprendamos a agradecer por cada alimento, a consumir com simplicidade, a compartilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um presente teu, destinado a todos, não apenas a alguns poucos.

Bom Pai, torna-nos capazes de transformar a lógica do consumo egoísta em uma cultura de solidariedade. Que nossas comunidades promovam gestos concretos: campanhas de conscientização, bancos de alimentos e um estilo de vida sóbrio e responsável.

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