Malformações, ratos e parasitas: em Gaza, a agonia não tem fim. Artigo de Luca Foschi

Foto: Anadolu Ajansi

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05 Mai 2026

"Mais de 58 mil são órfãs de um ou ambos os pais, relata a UNICEF, segundo a qual mais de um milhão de crianças em Gaza precisam de apoio psicológico. Praticamente todas, metade das almas que vagueiam no silencioso apocalipse da Faixa."

O artigo é de Luca Foschi, jornalista, publicado por Avvenire, 03-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

O rato mordendo a bochecha do bebê na escuridão de uma tenda, os gritos, o sangue, o horror, parecem vir do inconsciente, apavorante emissário encarregado de reavivar o pesadelo coletivo até que se torne realidade. As incisões inflamadas na pele rosada de Adam al-Ustaz, de 28 dias, um refugiado do campo de al-Maqousi, na Cidade de Gaza, viralizaram na internet no final de março, primeiro episódio de um fenômeno que logo se espalharia por toda a Faixa, não apenas nos campos de lona improvisados: "atacam quando estamos dormindo, depois desaparecem por um ou dois dias, apenas para atacar novamente, sempre abrindo caminho por baixo das lajotas do piso", contou à Reuters Khalil al-Mashharawi, cujo filho de três anos foi mordido algumas semanas antes. As vigílias alternadas dos pais não são suficientes.

Na semana passada, foi o pai que recebeu a visita dos dentes afiados dos roedores. "Essa é apenas a consequência infeliz, mas previsível, de uma situação em que as pessoas vivem em um ambiente em colapso", afirmou Reinhilde Van de Weert, representante de Gaza da Organização Mundial da Saúde, que estimou que, nos primeiros quatro meses de 2026, além das mordidas de ratos, devem ser somadas aproximadamente 17.000 infecções por ectoparasitas — piolhos, pulgas, percevejos, moscas, ácaros, carrapatos e larvas. O OCHA, Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, relatou em meados de abril que roedores e parasitas eram frequentemente visíveis em 1.326 dos 1.644 locais avaliados em Gaza, 81%. Em Rafah e Khan Yunis, o OCHA organizou operações de desinfestação em 51 abrigos de emergência e locais de deslocados, proporcionando uma trégua para aproximadamente 35.000 pessoas. Israel permitiu a entrada de 1.000 ratoeiras.

Após a devastadora temporada das bombas, o inverno de chuvas torrenciais e pântanos, seguido pela quente primavera mediterrânea, agora despontam seus frutos pestilentos. Segundo relatórios do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU, 89% das infraestruturas de água e saneamento foram destruídas ou danificadas durante a guerra. Uma política direcionada de Israel, que visa criar "escassez deliberada", as muitas formas de penúria inicialmente apontadas pelos Médicos Sem Fronteiras em "A Água como Arma", um relatório de 40 páginas publicado há poucos dias. Proliferam fossas sépticas improvisadas dentro e perto de tendas, assim como doenças gastrointestinais e de pele. A higiene tornou-se uma agonia complexa para idosos, doentes e portadores de deficiência, uma humilhação diária que se alastra silenciosamente nas multidões de deslocados. Enquanto se aguarda a Riviera de Trump, o asfalto rachado de Gaza, muitas vezes intransitável, é ladeado por 68 milhões de toneladas de escombros, onde ainda estão aprisionados milhares de cadáveres, e por lixo.

Em meados de fevereiro, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) começou a remover o aterro sanitário antes ocupado pelo mercado de Fras, na Cidade de Gaza, 300 mil metros cúbicos de lixo, um bairro compacto de colinas fétidas, com até 13 metros de altura, onde adultos e crianças sobem em busca de achados preciosos. Monstruosa infância, essa de Gaza. O Ministério da Informação da Faixa registrou 322 casos de malformações congênitas somente em 2025, o dobro em relação ao período pré-guerra, devido à fome e à exposição das mães a agentes tóxicos liberados pelas explosões.

O Ministério da Saúde calculou que a taxa de natimortos aumentou 140% em comparação com 2022. No ano passado, houve 457 mortes neonatais, um aumento de 50% em relação ao período antes da guerra. Aqueles que sobrevivem às vezes adoecem de silêncio. Segundo os especialistas, o número de crianças que perderam a capacidade de falar devido a ferimentos ou traumas sofridos durante o conflito está crescendo. Mais de 58 mil são órfãs de um ou ambos os pais, relata a UNICEF, segundo a qual mais de um milhão de crianças em Gaza precisam de apoio psicológico. Praticamente todas, metade das almas que vagueiam no silencioso apocalipse da Faixa.

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