07 Mai 2026
Entre os maiores showrunner mundiais, autor de "Em Terapia", "The Affair" e "Scenes from a Marriage", Hagai Levi, baseou sua mais recente série nos diários de Etty Hillesum, uma judia holandesa que morreu aos 31 anos em Auschwitz.
A reportagem é de por Federico Pontiggia, publicado por Il Fatto Quotidiano, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Hagai Levi, por que Etty?
É um livro que descobri há 15 anos e que mudou minha vida. Ajudou-me de verdade, gostaria que todos o lessem — e assistissem à minha série.
Lançada no Festival de Cinema de Veneza, como foi a recepção em Israel?
Foi um enorme sucesso na sala: os espectadores, pertencentes a um específico espectro político, entenderam como a série retrata Israel aqui e agora, desde as tendências pré-fascistas até as derivas totalitárias. Etty fala sobre sentir compaixão pelo outro lado e como hoje é impossível até mesmo sentir qualquer coisa pelo outro lado.
Não é uma série sobre o Holocausto?
Eu não queria falar sobre o Holocausto como uma história específica do passado, mas sim extrair lições dele para o presente e para a alma de cada um de nós. É uma série universal e abstrata, que assume diferentes significados: na Europa, ecoa a ascensão do fascismo ou da extrema-direita. Shai Carmeli-Pollak, diretor do filme israelense indicado ao Oscar, "O Mar", me disse que o governo Netanyahu colocou na mira o cinema, como parte de um plano mais amplo para limitar a liberdade de expressão e inibir obras críticas ao regime. Tenho muita sorte de não estar trabalhado em Israel há muitos anos. Onde filmo, não uso dinheiro israelense, então tenho total liberdade. O problema para cineastas e artistas em Israel é duplo: por um lado, o governo quer bloquear todo financiamento público e fazer apenas propaganda; por outro, as pessoas criativas têm que enfrentar boicotes.
Então, o boicote deve ser boicotado?
É justificado, mas prejudica as pessoas erradas. Atinge apenas a esquerda, porque 90% dos artistas em Israel são de esquerda. O boicote deveria ser mais diferenciado e seletivo, concentrando-se naqueles que apoiam o governo. Por que sabotar um filme de resistência como "O Mar", feito por alguém que dedicou a vida inteira a lutar contra a ocupação? O boicote é a maneira mais fácil de expressar a própria opinião, mas se você quiser encorajar as forças positivas, precisa se empenhar de outra forma.
Otimista?
É difícil ser otimista, especialmente em relação ao governo Netanyahu. Mas em Israel, há centenas de milhares de pessoas lutam contra esse regime todos os dias há três anos. Estamos nas ruas e estamos pagando um preço: precisaríamos ser reconhecidos. Amanhã e depois, em Roma, "Etty" será exibido no Nuovo Sacher, onde há alguns meses Nanni Moretti exibiu a faixa "Netanyahu, criminoso louco". É até redutivo; diria que é um eufemismo. Muitos em Israel subscreveriam imediatamente aquela faixa.
Levi, qual é a sua relação com a Itália?
As raízes. Meu avô era um antifascista bastante famoso; ele foi preso em Regina Coeli. Ele também era um judeu ortodoxo: crescer como uma pessoa de esquerda e religiosa foi natural para mim. A Itália é minha segunda pátria, eu entendo italiano, o atual rabino de Florença é meu tio.
Na Itália, Etty é conhecida e estudada, mas por que celebramos Anne Frank e deixamos de lado ela, cujos Diários (Adelphi) também são grandes obras literárias?
O diário de Anne Frank foi publicado no final da década de 1940, o de Hillesum apenas na década de 1980, e as pessoas diziam: "Ah, mais um diário de uma judia holandesa". Mas o dela é muito mais complexo e filosófico, há muita sensualidade e sexualidade. E creio que parece mais difícil retratar Etty como uma vítima típica do Holocausto; ela não se encaixa no estereótipo. É uma pensadora, é como Primo Levi, que extraiu insights relevantes do Holocausto para a vida cotidiana.
O que ela nos ensina?
A não odiar. Ela se recusou a odiar os nazistas, disse isso com grande clareza: o ódio envenena por dentro. Depois, seu senso de solidariedade, ela não queria se aproveitar de um privilégio.
Vamos voltar ao presente: a flotilha Global Sumud foi atacada...
E isso me deixa mais uma vez impotente, furioso e, sim, cheio de ódio. Em Gaza, há crimes de guerra inimagináveis; na Cisjordânia, é limpeza étnica, assassinatos diários, quase a sangue frio, cometidos por colonos e soldados. Meu filho é um ativista de esquerda; toda semana ele vai com os amigos para proteger os palestinos: eles fracassam, obviamente, mas fazem o que podem.
E qual é sua posição, Levi?
Eles são uma quadrilha de criminosos; não podemos esperar nada de Netanyahu e seus comparsas. Não hesito em chamá-los assim; são o inimigo.
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