06 Mai 2026
“Por mais que o progressismo tenha razão, sem se conectar com as maiorias está condenado ao fracasso. As formas dessa conexão estão falhando. Mesmo com melhorias tangíveis na vida das pessoas, o progressismo está perdendo a batalha dos valores”, escreve Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 02-05-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Os encontros recentes de governos progressistas e a Mobilização Progressista Global, em Barcelona, marcam um ponto de inflexão no esforço para reverter a onda ultradireitista que ameaça a democracia e a paz.
Liderada pelo presidente estadunidense, essa onda está colocando em xeque nossa capacidade de convivência. Os valores humanistas e democráticos que acreditávamos estar consolidados estão sendo negados com apoio popular crescente.
Diante desse perigo, em Barcelona, colocou-se uma firme resistência com amplo eco internacional. No entanto, a resistência será efêmera se não for acompanhada por projetos alternativos que suscitem um amplo consenso social que mobilize e inspire.
Sem projeto, o ódio e a destruição podem voltar a se impor, como tantas vezes na história. O conteúdo desse projeto alternativo é conhecido. Primeiro, a paz, pois a guerra, ou a ameaça dela, corrói as bases da existência.
Diante da desigualdade crescente, a fórmula tradicional do socialismo democrático segue vigente: crescimento econômico com redistribuição social, por meio de um estado de bem-estar social financiado por impostos sobre os detentores de riqueza. Cuidar da sustentabilidade ecológica de nossa casa comum. Afirmar a primazia dos direitos humanos e da democracia representativa. E aprofundar a transformação mais transcendental: a igualdade entre mulheres e homens em todos os âmbitos.
Não se trata de inventar novos objetivos, mas de abordar sua realização começando pelas pessoas, pelo que são, sentem e pensam. Por mais que o progressismo tenha razão, sem se conectar com as maiorias está condenado ao fracasso. As formas dessa conexão estão falhando. Mesmo com melhorias tangíveis na vida das pessoas, o progressismo está perdendo a batalha dos valores, a começar pela credibilidade dos atores que defendem esses valores.
Talvez a luta pela paz seja o objetivo mais aceito. Tanto pelo medo da guerra quanto por seus efeitos econômicos. Outros objetivos são mais difíceis de alguns entenderem. O feminismo não é óbvio para muitos homens. Não é fácil para nós, homens, renunciarmos a direitos milenares do poder que possuímos por sermos homens.
A ultradireita é impulsionada pelo voto masculino jovem. Por isso, é necessário legislar e governar para proteger a igualdade, mas também é preciso educar (a escola é fundamental) e dialogar, cada um em seu ambiente. A ação das pessoas é mais importante do que a ação do governo quando se trata de valores.
É o que acontece com a xenofobia, o câncer da convivência. A imigração é uma necessidade e um bem naquelas sociedades que não reproduzem sua população autóctone. Contudo, os fluxos migratórios podem se tornar excessivos, quando não se atua sobre os desequilíbrios no planeta, incluindo as guerras atrozes que deslocam mais gente do que nunca neste século.
Será mesmo verdade que não toleramos o outro? A crise da convivência é estimulada pela manipulação demagógica. A oposição aos discursos de ódio não é apenas um tema legal, mas de cada um de nós em nosso cotidiano.
Também é necessário entender que as políticas ecológicas não podem se dar por ordem e mando: dos efeitos da energia eólica ao modo e custo do consumo. É necessário dialogar nos dois sentidos. E, por fim, enquanto houver corrupção nos governos progressistas (o que é menos aceito do que nos conservadores), as declarações de princípios serão ouvidas como hipocrisia insuportável. Será necessário colocar o sino no gato corrupto.
Se a natureza humana tende à maldade, só a prevenção sistêmica pode corrigi-la. Não vamos culpar as redes sociais, que apenas expressam quem somos. Vamos intervir ativamente nelas, defendendo nossos princípios. A mobilização progressista cotidiana é uma tarefa de todos para evitar a barbárie.
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