Musk contra Altman e a OpenAI: começa o julgamento que poderá decidir o futuro da IA

Elon Musk (Foto: Wikimedia Commons)

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29 Abril 2026

Um dos julgamentos mais aguardados do mundo da tecnologia está acontecendo em um tribunal federal em Oakland, Califórnia. Elon Musk e Sam Altman, cofundadores da OpenAI, a empresa que transformou a inteligência artificial em um fenômeno de massa, se enfrentam. De um lado está o homem mais rico do mundo, CEO da Tesla e da SpaceX. Do outro, o "pai" do ChatGPT e o rosto icônico da inteligência artificial generativa. Entre eles, onze anos de alianças, desavenças e acusações mútuas, e um processo civil que pode remodelar o equilíbrio de uma indústria avaliada em centenas de bilhões de dólares.

A reportagem é de Pier Luigi Pisa, publicada por La Repubblica, 27-04-2026. 

O caso começa em 27 de abril perante a juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia. Espera-se que as audiências durem aproximadamente quatro semanas, com um júri composto por nove pessoas.

A causa

A causa ganhou forma em 2024, quando Elon Musk entrou com um processo contra a OpenAI e seu CEO, Sam Altman. O bilionário também processou posteriormente a Microsoft, que investiu pelo menos treze bilhões de dólares na empresa liderada por Altman.

O cerne da acusação diz respeito à suposta traição da missão original da OpenAI: desenvolver inteligência artificial para o benefício da humanidade, como uma organização sem fins lucrativos. Segundo Musk, a organização mudou de rumo, construindo uma estrutura com fins lucrativos e fechando acordos bilionários com empresas como a Microsoft para financiar sua inteligência artificial. Isso, alega Musk, violou os compromissos e condições iniciais sob os quais ele próprio contribuiu com aproximadamente US$ 38 milhões.

Musk está buscando indenizações de até cerca de US$ 150 bilhões, além de medidas estruturais: a remoção da atual liderança da OpenAI, o término de sua parceria com a Microsoft e o retorno a um modelo sem fins lucrativos.

Os motivos de Musk

Musk afirma que foi enganado. Quando cofundou a OpenAI com Altman, o atual presidente Greg Brockman e outros pesquisadores em dezembro de 2015, o acordo era claro: construir um laboratório sem fins lucrativos que desenvolvesse inteligência artificial geral (AGI) para o benefício da humanidade, de forma aberta e transparente — como um contrapeso aos gigantes privados da área, começando pelo DeepMind do Google. Musk afirma ter investido dezenas de milhões de dólares com base nessa promessa.

Mas em 2019, ano em que Sam Altman se tornou CEO, a OpenAI reorganizou sua estrutura, introduzindo uma subsidiária com fins lucrativos e retornos limitados para os investidores. De acordo com Musk, essa mudança — combinada com a parceria multimilionária com a Microsoft — representou uma ruptura com os compromissos originais.

Para sustentar essa tese, os advogados de Musk apresentarão ao tribunal passagens das anotações pessoais de Greg Brockman, datadas de 2017. Em uma das passagens mais citadas, Brockman considerou a possibilidade de reorganizar a OpenAI para reduzir a influência de Musk nas decisões, transferindo o controle efetivo para uma estrutura mais voltada para o lucro. Tal escolha, observou ele, significaria renegar os compromissos iniciais, com o risco de comprometer a credibilidade dos fundadores.

Defesa da OpenAI

Segundo a OpenAI, o processo não tem nada a ver com a proteção da humanidade e é, em vez disso, "uma campanha de assédio motivada por ego, inveja e o desejo de prejudicar um concorrente". Esse concorrente é a xAI, a empresa de inteligência artificial que Musk fundou em 2023 e que hoje desenvolve o chatbot Grok, em concorrência direta com o ChatGPT.

A OpenAI também levantará uma questão delicada para Musk: em 2017, segundo documentos reunidos pela defesa, o próprio bilionário propôs uma estrutura com fins lucrativos, chegando a considerar uma fusão entre a OpenAI e a Tesla. Mas, segundo os advogados de Altman, após não conseguir obter o controle da organização, Musk tornou-se um crítico da busca pelo lucro.

Em uma postagem publicada pela OpenAI no início da batalha judicial, a empresa escreveu: "Estamos desapontados por termos chegado a este ponto com alguém que admiramos há muito tempo: alguém que nos incentivou a almejar mais, depois disse que iríamos fracassar, fundou uma concorrente e, em seguida, nos processou quando começamos a fazer progressos reais em direção à missão da OpenAI sem ele."

Entre os documentos do processo está uma troca de e-mails de janeiro de 2016, na qual Ilya Sutskever, então chefe de pesquisa, explicou a Musk: "À medida que nos aproximamos da construção de IA avançada, fará sentido sermos menos abertos. A 'abertura' da OpenAI significa que todos devem se beneficiar dos resultados da IA assim que ela for desenvolvida, mas é perfeitamente aceitável não compartilhar a pesquisa…". Musk respondeu com um conciso: "Concordo."

As contradições de Musk

Em 2022, após o lançamento do ChatGPT, Musk foi um dos primeiros a argumentar que a OpenAI estava avançando rápido demais. No ano seguinte, ele, juntamente com outros cientistas e empreendedores, assinou uma carta aberta pedindo uma moratória de seis meses no desenvolvimento dos sistemas de IA mais poderosos.

No entanto, justamente nos meses em que assumia publicamente essa posição, ele trabalhava na criação da xAI, uma empresa que faz exatamente o que Musk disse que queria impedir: treina modelos de ponta, constrói centros de dados cada vez maiores e compete pelos mesmos clientes, pelos mesmos engenheiros e pelos mesmos chips que a OpenAI, a Anthropic e o Google.

Há outro elemento que mina o apelo à "ética" que permeia a causa do bilionário. Quando a xAI foi criada, ela foi estabelecida como uma empresa de benefício público. Esse status foi abandonado em 2025, após a fusão com a rede social X. Essa é a mesma escolha pela qual Musk critica a OpenAI hoje.

De aliados a rivais

Em 2015, Musk e Altman apresentaram-se ao público como os cofundadores de uma iniciativa concebida em clara oposição ao Google. Ambos viam a inteligência artificial como uma ameaça iminente: temiam que ela pudesse escapar do controle humano e que uma tecnologia tão poderosa acabasse nas mãos de poucos — entre eles Larry Page e Sergey Brin, os cofundadores do Google, que já tinham uma vantagem inicial na pesquisa graças à DeepMind.

Nesse contexto, Musk forneceria financiamento e visibilidade, enquanto Altman, então presidente da Y Combinator, supervisionaria a organização. Os dois se conheceram por meio de contatos em comum e se encontraram pela primeira vez na fábrica da SpaceX.

Mas uma profunda ruptura já havia se aberto entre os dois: em 2018, Elon Musk deixou a OpenAI depois que sua proposta de assumir o controle da organização e integrá-la à Tesla foi rejeitada. Quando o ChatGPT se tornou um fenômeno global em 2022 e a OpenAI passou de um laboratório de nicho para uma gigante da tecnologia, a relação azedou definitivamente. Desde então, Musk tem atacado Altman frequentemente em sua conta X, que tem mais de duzentos milhões de seguidores.

Stargate e a oferta de 97 bilhões

O conflito finalmente explodiu no início de 2025. Em 21 de janeiro, um dia após Donald Trump assumir o cargo, Sam Altman compareceu à Casa Branca junto com Larry Ellison (CEO da Oracle) e Masayoshi Son (CEO do SoftBank) para anunciar o Stargate, um projeto de investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos.

Elon Musk, que ajudou Trump a vencer as eleições ao se tornar um de seus conselheiros mais confiáveis, criticou a operação e questionou a solidez financeira da OpenAI e de seus parceiros. Três semanas depois, Musk apresentou ao conselho de administração da OpenAI uma oferta não solicitada de US$ 97,4 bilhões para adquirir o braço sem fins lucrativos da empresa. Altman rejeitou a proposta em uma postagem bem-humorada nas redes sociais.

O que está realmente em jogo?

Por trás das disputas pessoais, o que está em jogo é enorme. A OpenAI, que concluiu sua transição para uma empresa de benefício público em 2025, está atualmente no centro de uma corrida de capital sem precedentes. Sua avaliação ultrapassou US$ 730 bilhões. Além disso, a empresa liderada por Altman está se preparando para um possível IPO que poderia impulsionar sua avaliação a patamares inéditos.

Uma decisão judicial que exigisse o retorno a uma estrutura puramente sem fins lucrativos, ou mesmo apenas a suspensão dos laços com a Microsoft, colocaria em risco a estreia da empresa em Wall Street e congelaria bilhões em investimentos já comprometidos. Para a xAI, o cálculo é inverso. Ao desacelerar a OpenAI, a empresa de Musk — que até recebeu críticas pelo conteúdo inapropriado, obsceno e antissemita de seu chatbot Grok — pode, teoricamente, ganhar terreno.

Mas a questão mais profunda diz respeito à governança da inteligência artificial. Caso o júri dê ganho de causa a Musk, será a primeira vez que um tribunal dos EUA decide que uma empresa de tecnologia violou suas obrigações filantrópicas ao buscar o lucro, com potenciais consequências para todo o modelo de desenvolvimento do Vale do Silício. Se a OpenAI prevalecer, confirmará a ideia de que as missões declaradas no momento de fundação podem ser reescritas sob pressão do capital, desde que investidores e conselho concordem. Em ambos os casos, o veredito afetará quem controla a tecnologia que muitos — incluindo Musk e Altman — consideram a mais poderosa das próximas décadas.

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