"Leão e Trump vêm de mundos diferentes: uma visão universal versus uma visão egoísta". Entrevista com Michael Mulvey

Donald Trump | Foto: Daniel Torok/The White House / Flickr

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25 Abril 2026

Donald Trump critica Francis Prevost. Há uma enorme distância política e cultural entre esses dois estadunidenses, duas figuras simbólicas em nível global. Michael Mulvey, 76, bispo emérito de Corpus Christi, Texas, um dos estados republicanos por excelência, recentemente aposentado, relata o profundo desconforto da comunidade católica após as palavras do presidente sobre o Papa.

A entrevista é de Riccardo Barlaam, publicada por Il Sole 24 Ore, 19-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Como o senhor avalia os ataques do presidente Trump ao Papa Leão XIV por suas posições sobre a guerra?

Trump e o Papa Leão vêm de dois mundos diferentes. Nós somos fiéis ao Papa e à sua visão, que é uma visão de paz. É muito doloroso pensar que uma figura política possa criticar um homem de Deus que tem uma visão universal do mundo. Trump tem uma visão egoísta, pensa primeiro em si mesmo e projetou essa visão em sua política. Ele diz que quer paz, mas depois bombardeia o Irã.

O Papa lançou uma mensagem de paz, contra a guerra, com palavras fortes, porém de diálogo. As palavras violentas que o presidente usou contra o Papa Leão são inaceitáveis. Não sou psicólogo, mas, na minha opinião, são palavras que vêm de um homem muito inseguro. Um homem inseguro que controla a maior potência mundial. Trump é bilionário. Seu mundo é o dinheiro. Ele vem de uma cultura onde o valor das pessoas se baseia no fato de que "quanto mais você tem, mais você é". Todos que vão contra essa visão são atacados com violência.

Trump afirma que o atual pontificado está prejudicando a Igreja.

Isso é ridículo. O Papa usa o Evangelho para falar de paz, e o presidente não pode pretender que o Papa apoie aqueles que fazem guerra e criam violência. Quando Trump diz que os iranianos não têm respeito pela humanidade, ele está falando de todos os iranianos. Se você diz algo assim, você também não tem respeito pela humanidade, porque não pode considerar todos os iranianos da mesma forma. A violência está se tornando um padrão para tratar as pessoas. Perdemos a cabeça. O fim, neste caso, não justifica os meios. Não pode justificá-lo.

Em seu post, ele também citou Louis Prevost, irmão do Papa, dizendo que o prefere por ser "totalmente MAGA". O irmão do Papa deve ter se sentido desconfortável.

Eu também acho. Não se pode acreditar que alguém que votou nos republicanos — e leu isso na internet — seja "totalmente MAGA", seja com certeza um seu apoiador. O Papa critica a guerra porque quer a paz no mundo. O comportamento de Trump evidencia sua insegurança. Na história estadunidense, houve apenas dois presidentes católicos: JFK Kennedy e Joe Biden.

Normalmente, a classe dominante branca indica um presidente ligado às igrejas evangélicas. Você progride se estiver ligado a uma dessas igrejas. O problema das igrejas evangélicas é o "evangelho da prosperidade", a teoria segundo a qual "quanto mais dinheiro você tem, mais Deus está com você".

As igrejas evangélicas acreditam nisso. Não existe a dimensão da dor, da dificuldade da existência que faz parte da vida humana. Dê seu dinheiro à igreja e, no final, Deus o abençoará. Essa é a mentalidade da igreja evangélica que está crescendo, especialmente entre os republicanos.

O presidente também atribuiu a si mesmo um papel na eleição do Papa. Ele disse: "Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano".

Isso é constrangedor e absolutamente escandaloso. Ele disse coisas inaceitáveis. Não é de forma alguma verdade. Nos EUA, o consenso político permanece fortemente ligado ao mundo religioso. Os políticos usam a religião. Não é o centro do seu pensamento, mas eles tentam explorá-la para benefício próprio. Nos Estados Unidos, as igrejas estão cheias, não é como na Europa. Ter o consenso das igrejas é importante para vencer as eleições.

Trump se fez retratar como Jesus curando um doente, com a águia estadunidense ao fundo. Isso é um devocionismo blasfemo. Por que faz isso?

Vivemos na terra de Hollywood, onde o que importa é a imagem. Essa imagem, para mim, é blasfema. Mas algumas pessoas aqui acreditam nela. Você pode vender qualquer produto para um estadunidense, basta usar uma imagem e as palavras certas.

Donald Trump como Jesus Cristo. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Os Estados Unidos não são mais o farol da democracia.

Nos tornamos autorreferenciais, esse é o problema. Trump diz que somos o centro do mundo, mas isso não é verdade. Não se pode seguir em frente sozinhos. Não se pode anular os direitos humanos das pessoas; é preciso haver um esforço pela paz e pelo diálogo, e se deve tentar incluir todos, se deve entender a cultura, as linguagens e as histórias dos outros. Os Estados Unidos foram construídos por migrantes. Todos os estadunidenses são filhos de migrantes. A diversidade foi a riqueza dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos "desunidos"?

Quando nos tornamos autorreferenciais, só pensamos em nós mesmos. Eu amo muito os Estados Unidos, mas este não é o país em que queremos viver. A política fracassou.

Não há relação entre os dois partidos: quando um é eleito, passa o tempo todo criticando o outro. Não podemos continuar assim. Mesmo que a economia esteja indo bem, as pessoas não estão felizes.

O que quer dizer?

Nas grandes celebrações familiares, não se pode mais falar de política; não se pode dizer em quem se votou porque corre-se o risco de brigar. O país está realmente polarizado demais.

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