25 Abril 2026
"Como escreveu seu amigo Paolo De Benedetti por ocasião de sua morte: 'Creio, se assim se pode dizer (ki-vjakhol, uma expressão hebraica para justificar afirmações ousadas), que Deus levou Carlo Maria Martini consigo por necessidade de conversar com Ele'. Por necessidade de conversar com o Grande intercessor!", escreve Brunetto Salvarani, em artigo publicado por Rocca nº 8, 15-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Brunetto Salvarani é teólogo, escritor, professor de Teologia de missão e do diálogo na Faculdade Teológica da Emilia Romagna e nos Institutos de Ciências Religiosas de Modena, Bolonha e Rimini.
Eis o artigo.
Retomemos nossa análise em torno da figura de Carlo Maria Martini (1927-2012). Há um verso fundamental do poeta místico Clemente Rebora que – do amado cardeal – pode legitimamente ser tomado como emblema de sua longa fidelidade à Sagrada Escritura: “E a Palavra silenciou a minha tagarelice”. É belo recordar, a esse respeito, sua entrada em Milão com o Evangelho nas mãos, quase uma entronização: assim como o Concílio Vaticano II havia sido inaugurado por João XXIII com uma entronização em São Pedro da Bíblia, finalmente trazida de volta ao centro da vida da Igreja após um longo exílio. Martini jamais abandonou o Evangelho, até seus últimos dias, entregando diariamente aquela Bíblia que — segundo a constituição conciliar Dei Verbum — contém a Palavra de Deus nas mãos de seu povo, como “lâmpada para os nossos passos e luz para o caminho” (versículo do Salmista que ele escolheu como epígrafe para seu túmulo): esse será o seu legado mais evidente.
Educar-se na Bíblia, promessa para o futuro
Com alguns esclarecimentos fundamentais que marcaram consistentemente seu compromisso com a difusão das Escrituras. Primeiro, a ideia de que a Bíblia deve sempre ser lida dentro do tempo da história, na perspectiva de um discernimento espiritual (discernimento é um termo crucial no vocabulário de Martini, pois a escuta da Palavra de Deus deve estar orientada para a vida, para apreender o que Deus pretende dizer à sua Igreja e a toda a humanidade hoje).
Segundo, a Igreja recebeu a Palavra como uma herança preciosa, não como uma posse, mas sim como um dom que, na realidade, não lhe pertence, pois se dirige a todos os homens. Vejam bem: Martini não temia esse caminho que, ao longo dos séculos, por assim dizer, secularizou a própria Escritura, esse Grande Código (N. Frye) que agora é patrimônio de todos, tão poderoso a ponto de ressoar até mesmo em leituras que transcendem os limites da Igreja (de todas as igrejas).
Por isso, o diálogo entre as igrejas e as diferentes fés, entre crentes e (os chamados) não crentes, é também parte integrante da escuta da Palavra de Deus, desse Espírito que "sopra onde quer" (Jo 3,8) e que potencialmente fala a cada homem e a cada mulher.
O outro não é, portanto, alguém a ser convencido ou temido, mas sim o interlocutor indispensável, a caixa de ressonância que, sozinha, pode nos restituir plenamente a força e vida de uma palavra que ressoa no presente de uma relação no Espírito (penso, a esse respeito, na segunda carta pastoral do arcebispo à Igreja Ambrosiana, intitulada In principio la Parola, 1981).
Ele estava bem ciente do drama tão propriamente italiano da ignorância generalizada da Bíblia, um livro realmente ausente em nossas latitudes, um problema que frequentemente abordamos aqui. Estava também ciente da profunda relevância educativa das Escrituras, particularmente no que diz respeito ao futuro do velho continente. De fato, Martini se refere, em diversas ocasiões, à Bíblia como um grande livro educativo para a humanidade: como um texto literário, que cria uma linguagem comunicativa, narrativa e poética de excepcional eficácia e beleza; como um documento sapiencial, que expressa a verdade da condição humana de uma maneira tão eficaz, atraente e incisiva que cada pessoa, de todos os continentes e culturas, pode se sentir refletida em pelo menos alguma parte dela; e como um livro que coloca Deus, o educador, no centro, capaz de estimular poderosamente toda atividade de formação, não apenas religiosa, mas também humana e civil. Até expressar a esperança de que a Bíblia pudesse se tornar o livro do futuro da Europa...
Diante de Israel
Para Martini, o caminho cristão é uma educação contínua em um relacionamento correto com o outro, um exercício e um aprendizado diário na relação com o próximo. Em sua opinião, o mistério de Deus é essencialmente este: "Não se pode tornar Deus católico. Deus está além dos limites e das definições que estabelecemos. Precisamos deles na vida, obviamente, mas não devemos confundi-los com Deus, cujo coração é sempre mais vasto" (de Diálogos noturnos em Jerusalém: Sobre o risco da fé). E ainda: "Devemos aprender a viver a vastidão de ser católicos. E devemos aprender a conhecer os outros (...). Para proteger essa imensidão, não conheço maneira melhor do que continuar sempre a ler a Bíblia (...). Se ouvirmos Jesus e olharmos para os pobres, os oprimidos, os doentes (...) Deus nos conduz para fora, na imensidão. Ele nos ensina a pensar abertamente."
Daí seu incansável compromisso com o ecumenismo, que ele impulsionou com grande convicção, com o diálogo intercultural e com o diálogo inter-religioso como elementos não periféricos, mas decididamente fundamental para a identidade eclesial. Acima de tudo, porém, o cardeal colocou a relação com Israel. Olhando para o passado, ele admite sentir "uma profunda dor e humilhação" diante das rupturas infracristãs, causadas, em sua visão, pelo que ele chama de protocisma entre a Igreja dos gentios e a Igreja
Judaico-Cristã, "que privou a Igreja da ajuda que teria vindo da tradição judaica". É por isso que "devemos estimar e amar esse povo: um simples antiantissemitismo não basta"... Segundo Martini, a ruptura das relações entre gentios e judaico-cristãos teve três consequências: a ainda evidente dificuldade da prática cristã em focar a atitude correta de cristãos e das comunidades em relação ao poder técnico, econômico e político deste mundo; a dificuldade de encontrar a atitude correta em relação ao corpo, à sexualidade e à família; e a dificuldade da espiritualidade cristã em identificar a conexão autêntica entre a esperança messiânica escatológica e as esperanças de indivíduos e comunidades em relação à justiça e aos direitos humanos.
O que está em jogo
Ele, como inspirador e transmissor, contribuiu para o nascimento e o crescimento do diálogo judaico-cristão. Esse diálogo, em sua visão, é uma necessidade para a Igreja em sua contínua conversão, a teshuvá. Em seu livro, Popolo in cammino, ele escreve: "Um atraso que deve pesar muito sobre nós (...) é não ter considerado vital a nossa relação com o povo judeu como vital. A Igreja, cada um de nós, as nossas comunidades, não podem se compreender e se definir exceto em relação às raízes sagradas de nossa fé e, portanto, à importância do povo judaico na história, na sua missão e no seu chamado permanente." E em seu discurso em Vallombrosa (1984), ele afirma resolutamente: “O problema tornou-se mais preciso e decisivo para o futuro da própria Igreja. O que está em jogo não é simplesmente a maior ou menor continuidade vital de um diálogo, mas sim a aquisição da consciência, nos cristãos, de seus laços com o rebanho de Abraão e as consequências que disso advirão no plano doutrinal, para a disciplina, a liturgia, a vida espiritual da Igreja e até mesmo para sua missão no mundo de hoje”. Sem esquecer sua predileção por Jerusalém, onde – como se sabe – viveu por vários anos após o término de seu mandato episcopal e antes que sua doença o impossibilitasse: “O que me levou a Jerusalém?”, explicou ele diversas vezes – “Não sei… Foi o Espírito Santo”. Assim, graças a Martini, compreendemos que o judaísmo é para os cristãos o paradigma não só do diálogo inter-religioso, mas também de toda diferença, o sacramento de toda alteridade, o lugar teológico onde os cristãos podem demonstrar que todo outro alude — precisamente em sua alteridade constitutiva — Àquele que é totalmente outro e totalmente próximo de cada mulher e de cada homem.
Caminhar no meio…
No início, questionei-me sobre qual seria a imagem mais eficaz para tentar uma empreitada impossível: definir sinteticamente uma personalidade poliédrica e complexa como a do Cardeal Martini. Falei de profeta, de homem-mundo, de visão de longo alcance, e espero ter conseguido explicar, ao menos em parte, o porquê. Acrescento agora uma segunda definição: a de um Grande intercessor. Bem, é lícito dizer que, por escolha consciente, Martini foi, antes de tudo, um Grande intercessor, no sentido etimológico da palavra: inter-ceder, caminhar no meio, sem emitir juízos de certo ou errado a torto e a direito. Caminhar no meio em oração: esse era o seu objetivo em Jerusalém, interceder entre judeus e palestinos... como seria necessário ainda hoje!
Trata-se claramente de um papel profético, numa época em que, ao contrário, todos os movimentos religiosos mais fortes e de sucesso tendem a fazer o oposto: alargar os fossos, erguer muros de separação e segregação, fechar-se em suas próprias identidades, exaltar acriticamente suas próprias razões, erguidas como ídolos intocáveis, e desvalorizar regularmente as razões alheias, considerando-as erradas, inevitavelmente equivocadas e em má-fé.
Nesse sentido, Martini compreendeu plenamente a ambiguidade de uma específica vingança de Deus (G. Kepel) que não prevê o respeito pela humanidade de cada homem; ele leu e cuidou da Bíblia, entendendo-a, antes de tudo, como uma jornada contínua de humanização... No final, como escreveu seu amigo Paolo De Benedetti por ocasião de sua morte: “Creio, se assim se pode dizer (ki-vjakhol, uma expressão hebraica para justificar afirmações ousadas), que Deus levou Carlo Maria Martini consigo por necessidade de conversar com Ele.” Por necessidade de conversar com o Grande intercessor!
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