16 Abril 2026
A guerra no Irã e o consequente choque no preço do petróleo escancaram a urgência financeira da transição energética para governos e vários setores da economia. A Petrobras, porém, continua ignorando esses sinais e as projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), tanto para a queda do consumo de petróleo em 2026 quanto para o pico da demanda, previsto para ocorrer até 2030.
A informação é publicada por ClimaInfo, 15-04-2026.
A busca por novas reservas de combustíveis fósseis não sai dos planos da presidente da petrolífera, Magda Chambriard. “Repor reservas onde quer que elas existam é do nosso interesse”, disse a executiva à Exame. A justificativa de Magda, referindo-se ao pré-sal – a maior província petrolífera brasileira e que ainda rende descobertas vultosas – é que não se pode “botar todos os ovos na mesma cesta, porque nós temos uma atividade de alto risco”.
O foco do momento, obviamente, é a Foz do Amazonas. “A gente olha para a Margem Equatorial, particularmente no Amapá, onde a gente acha que pode ter o maior volume.” No início do ano, a Petrobras derramou 18 mil litros de fluido ao perfurar o poço Morpho no bloco FZA-M-59. A perfuração foi interrompida; a empresa foi multada pelo IBAMA e pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), e retomou a operação em março.
A Petrobras ainda acelera projetos já contratados. O principal deles está nos litorais de Sergipe e Alagoas, que concentram um investimento de US$ 11,5 bilhões (R$ 57,4 bilhões), explica a Exame. Serão duas plataformas e um grande gasoduto, com início de produção previsto para 2030. A expectativa é produzir cerca de 240 mil barris de petróleo (bpd) e 18 milhões de metros cúbicos (m³) de gás fóssil diariamente. Que, queimados, liberarão ainda mais gases de efeito estufa na atmosfera e agravarão ainda mais as mudanças climáticas.
Os planos da Petrobras de produzir mais combustíveis fósseis, sujando ainda mais a atmosfera e piorando a crise climática, também incluem ativos no exterior. “Golfo do México me interessa. Venezuela, dificílimo trabalhar lá, mas a reserva está lá e já está descoberta. Logo, me interessa. Agora, se nós vamos para lá ou não, é outra conversa”, disse Magda à Exame.
A petrolífera também está de olho na África. Para a presidente da Petrobras, a margem atlântica africana é uma “aposta natural e quase intuitiva”, diante da experiência acumulada pela empresa no pré-sal brasileiro.
Diante de tantos planos para petróleo e gás fóssil, a pergunta que não quer calar, e que a Petrobras deveria fazer a si mesma, é: haverá demanda para tudo isso, diante não só da emergência climática, mas de toda a insegurança energética relacionada aos combustíveis fósseis que a guerra no Irã escancarou?
Em tempo
Não há mais nenhum impedimento tecnológico para abandonarmos os combustíveis fósseis. E a guerra no Irã deveria aumentar o interesse dos governos na primeira conferência global sobre a transição para longe do petróleo, gás e carvão, que acontece de 24 a 29 de abril, em Santa Marta, na Colômbia. O mundo, porém, parece que perderá a chance de aproveitar o atual choque do petróleo para acelerar o abandono do petróleo, destaca Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. “O comportamento dos países na esteira da crise do estreito de Ormuz lembra o da mariposa que acelera em direção à lâmpada: a Europa busca investir em novos oleodutos e chama de ‘erro’ a decisão de abandonar a energia nuclear; o Japão e Indonésia trocam tarifas dos EUA por uma expansão fóssil bilionária; o Brasil enterra discretamente a determinação presidencial de produzir um roteiro para se livrar de fósseis; países em desenvolvimento produtores de petróleo planejam ‘Drill, baby, drill’", avalia na Folha. A Petrobras é uma prova disso.
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