16 Abril 2026
O vice-presidente, que se converteu em 2019, curva-se a Trump e ataca o pontífice: "Ele deveria se preocupar apenas com a moralidade". Mas Prevost não cede e revida: "O coração do Senhor está destroçado pelas guerras, pelas injustiças e pelas mentiras".
A reportagem é de Mattia Ferraresi, publicada por Domani, 15-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Para o vice-presidente J.D. Vance, o Papa deveria "se preocupar com questões de moralidade e outros assuntos que dizem respeito à Igreja", deixando o presidente dos Estados Unidos cuidar da política de seu país.
Com essas palavras, divulgadas pela Fox News, o católico Vance tentou, com dificuldade, conter o descomedimento do presidente Donald Trump, que, após atacar o Papa com um de seus habituais delírios nas redes sociais, ordenou perfidamente que seu vice-presidente, extremamente constrangido, resolvesse o assunto diante das câmeras. E para defender os argumentos do chefe, Vance se reinventou como porta-voz da opção religiosa, defensor de um catolicismo substancialmente interior que se ocupa com as questões da alma e certos assuntos morais, mas não se intromete na realidade da política. Como se a guerra não tivesse nada a ver com a moralidade. O papa deve ficar em sua proverbial "pista", como costumam dizer os estadunidenses, e deixar o resto da estrada para ser ocupada pelo poder, ocasionalmente abençoado por forças divinas invocadas sem hesitação, mas apenas na medida em que confirmem a vontade presidencial.
Every time Vance talks about the church and Catholicism (like tonight on the pope and just war doctrine), his ability to damage his own credibility is incredible. https://t.co/gIKt5NREKR
— Massimo Faggioli (@MassimoFaggioli) April 15, 2026
Religiosidade estadunidense
A resposta de Vance, que se converteu em 2019, está perfeitamente alinhada com uma ampla tradição do catolicismo estadunidense (protestantizado), muito zeloso em separar da forma mais clara possível o pessoal do político, mas o problema é que Vance, o primeiro entre os mais altos funcionários da república a se definir como um "pós-liberal", havia prometido justamente romper com essa tradição. Esse é o aspecto característico da proposta do convertido Vance, que difere nesse ponto do convencional Marco Rubio, católico tradicional que se sentiria muito mais à vontade do que seu colega de governo defendendo o ataque de Trump, separando o tom desagradável do dissenso legítimo. Em vez disso, o presidente achou mais divertido enviar seu vice-presidente, agora especialista em missões fracassadas e beijos da morte.
A crítica mais frequente dirigida a Vance é a de promover um Estado de tipo ético ou confessional, onde a lei natural informa o direito positivo e as normas sociais — assuntos que são o cerne da pregação do Papa, que se ocupa das coisas do céu e da terra. A constrangedora guinada de Vance não passou despercebida aos teóricos do pós-liberalismo: "Se poderia pensar que um papa que afirma que as políticas públicas devem ser guiadas pelos princípios da lei natural e da moralidade cristã fosse bem recebido por um político católico pós-liberal", comentou Edward Feser, filósofo pós-liberal que, com Patrick Deneen, Adrian Vermeule e outros intelectuais, contribuiu para lançar as bases do pensamento pós-liberal.
O duelo
Com timing perfeito, ontem foi publicado também o discurso preparado pelo Papa para uma conferência da Pontifícia Academia de Ciências Sociais sobre o poder e sua legitimidade. Em seu discurso, Leão explica que "a democracia se conserva saudável apenas quando está enraizada na lei moral e em uma verdadeira visão da pessoa humana", e se esse fundamento estiver ausente, "corre o risco de se tornar ou uma tirania da maioria ou uma máscara para a dominação das elites econômicas e tecnológicas". O texto também aborda a relação agostiniana entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, entidades diferentes, mas conectadas, enquanto para Trump a Igreja Católica nada mais é do que uma estrutura globalista com decorações barrocas que escolhe seu líder com base no ocupante da Casa Branca.
O efeito político do ataque de Donald Trump é, portanto, em primeiro lugar, uma consternação entre o eleitorado católico; mas, uma vez superada a desagradável sensação do tom reservado ao Vigário de Cristo, alguns deles perceberão que, no fim das contas, o presidente não está totalmente errado em repreender o chefe da Igreja por ousar levantar objeções à guerra e até mesmo incitar os cidadãos estadunidenses a ligarem para seus representantes no Congresso para exigir políticas de paz.
As palavras de Leão
Nesse contexto, quem sai cada vez mais derrotado e marginalizado é J.D. Vance, e não se pode descartar que, entre os instintos que levaram o presidente ao ataque frontal a Leão, esteja também o de destruir o campo onde se desenrolará a corrida pela candidatura em 2028. A psicologia trumpiana não prevê sucessores, nem legado, apenas destruição e escombros.
Nesse interim, o Papa, exercendo o direito reivindicado durante sua viagem a Argel para continuar a invocar a paz, disse: "O coração de Deus está destroçado pelas guerras, pelas violências, pelas injustiças e pelas mentiras. Mas o coração de nosso Pai não está com os malvados, com os prepotentes, com os soberbos: o coração de Deus está com os pequenos e os humildes, e com eles leva adiante o seu Reino de amor e paz, dia após dia." Disse isso na Casa de acolhimento das Pequenas Irmãs dos Pobres em Annaba, na Argélia.
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