O que significa o fato de Trump ter ordenado o bloqueio do Estreito de Ormuz?

Estreito de Ormuz (Foto: NASA | Wikimedia Commons)

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13 Abril 2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste domingo que seu país tomará o controle do Estreito de Ormuz, depois que as negociações com o Irã em Islamabad terminaram sem um acordo para sua reabertura. A medida entrará em vigor nesta segunda-feira às 11 horas (horário de Brasília). Teerã informou à Rússia sobre as negociações, cujo governo se ofereceu para mediar no conflito.

A reportagem é de Axel Schwarzfeld, jornalista, publicada por Página|12, 13-04-2026.

O mandatário norte-americano expressou em sua rede social Truth Social: "A reunião correu bem, chegou-se a um acordo sobre a maioria dos pontos, mas o único ponto realmente importante, o armamento nuclear, não foi aprovado". E acrescentou: "Com efeito imediato, a Marinha dos Estados Unidos, a melhor do mundo, começará a bloquear todos os navios que tentem entrar ou sair do Estreito de Ormuz".

Trump também afirmou ter ordenado à Marinha que intercepte todos os navios em águas internacionais que tenham pago uma taxa ao Irã para circular pelo estreito, alegando que essa cobrança é ilegal. "O bloqueio começará em breve. Outros países participarão deste bloqueio. Não se permitirá que o Irã se beneficie deste ato ilegal de extorsão. Eles querem dinheiro e, mais importante ainda, querem armas nucleares", disse.

O republicano também expressou confiança de que em algum momento se chegará a um acordo para a livre circulação nessa via marítima, mas acusou o Irã de tê-lo impedido com a colocação de minas. "Isso é extorsão internacional, e os líderes dos países, especialmente dos Estados Unidos, jamais se deixarão extorquir", insistiu Trump, que afirmou que seu país se encarregará de desminar o estreito.

A estratégia geopolítica

Macarena Sabio, acadêmica da Universidade de San Pablo Tucumán, afirmou ao Página|12 que a decisão de Trump é uma guinada geopolítica radical, difícil de prever, fiel a seu estilo. "Isso é também uma forma de dizer à comunidade internacional que pressione o Irã para que libere o Estreito de Ormuz", enfatizou. "É uma medida muito própria de seu estilo: unilateral, marcando sua postura e seu lugar de poder", acrescentou.

Eduardo Batule, licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Salta, disse a este meio que essa situação abre um novo mapa no plano geopolítico. "Isso convém aos Estados Unidos, pois não permitirá que ninguém os chantageie ou extorquir, e mantém o Irã em posição de se reinventar para continuar buscando chegar a um acordo", acrescentou, sublinhando que o ponto-chave é a discussão sobre a questão nuclear iraniana.

Trump fez seu anúncio depois que o vice-presidente, JD Vance, e seus enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner o informaram sobre os resultados das negociações deste fim de semana com o Irã em Islamabad — os contatos de mais alto nível entre os dois países desde a revolução islâmica de 1979. O republicano lamentou que o Irã não esteja disposto a renunciar ao seu programa nuclear, embora tenha dito que houve avanços suficientes para manter a trégua em vigor nos combates.

Trump também ameaçou impor tarifas de 50% às importações da China se Pequim fornecer armamento ao Irã. O mandatário lançou esse aviso durante uma entrevista à Fox News depois que a CNN revelou que a inteligência norte-americana acredita que o governo chinês está preparando a entrega de sistemas de mísseis antiaéreos para Teerã. "Duvido que o fizessem, porque tenho uma (boa) relação e acredito que não o fariam", disse Trump, que acrescentou: "Mas se os pegarmos fazendo isso, será imposta uma tarifa de 50%, o que é uma quantia assombrosa". Trump tem prevista uma viagem a Pequim em maio para se reunir com seu homólogo chinês, Xi Jinping.

A resposta do Irã

Por outro lado, a Guarda Revolucionária iraniana rejeitou que o Estreito de Ormuz seja bloqueado pelos Estados Unidos e advertiu os navios militares que não se aproximem da zona. "A Armada da Guarda Revolucionária Islâmica anuncia que, contrariamente às falsas afirmações de alguns funcionários inimigos, o Estreito de Ormuz está sob controle e gestão inteligentes, aberto à passagem inocente de navios civis e sujeito a regulamentações específicas", afirmou o corpo militar de elite em comunicado recolhido pela agência Tasnim. "Qualquer embarcação militar que, sob qualquer pretexto ou justificativa, tente se aproximar do Estreito de Ormuz será considerada uma violação do cessar-fogo e será objeto de uma resposta contundente", advertiu.

O tráfego pelo estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, foi restringido pelo Irã desde o início da guerra com Israel e os Estados Unidos, em 28 de fevereiro, até o início das negociações entre as partes. O presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Baqer Qalibaf, justificou a falta de acordo ao afirmar que os Estados Unidos "fracassaram finalmente em conquistar a confiança da delegação iraniana". Ainda se desconhece se haverá uma segunda rodada de negociações, embora o mediador Paquistão tenha deixado a porta aberta para conversas futuras.

Em meio a essas tensões, as autoridades do Irã anunciaram que o número de mortos nos 39 dias de bombardeios israelense-americanos contra o país subiu para 3.375, incluindo dezenas de crianças, conforme informou o chefe da Organização de Medicina Legal do Irã, Abás Masyedi. O Irã não havia divulgado um balanço oficial de mortos na guerra desde 5 de março, quando cifrou em 1.230 os falecidos.

A mediação russa

O presidente do Irã, Masud Pezeshkian, informou por telefone a seu homólogo russo, Vladimir Putin, sobre os resultados das negociações com os Estados Unidos realizadas no sábado e no domingo em Islamabad. Segundo o Kremlin, Pezeshkian agradeceu a Putin por sua postura voltada à desescalada da situação no Oriente Médio e pela ajuda humanitária prestada nas últimas semanas. Também aproveitou a ligação para felicitar Putin e todos os fiéis ortodoxos pela Páscoa, celebrada neste domingo.

Por sua parte, Putin sublinhou a disposição de Moscou de mediar com o objetivo de alcançar "uma paz justa e duradoura no Oriente Médio", para o qual mantém seus ativos contatos com todos os seus parceiros na região. O mandatário, que desde o início qualificou de agressão os bombardeios norte-americanos e israelenses contra a república islâmica, também abordou com seu colega iraniano a cooperação bilateral e o fortalecimento das relações de boa vizinhança entre os dois países.

Sobre a mediação de Putin, Batule apontou as diferenças que considera entre o Paquistão e a Rússia como mediadores. "A Rússia atualmente segue focada em sua guerra com a Ucrânia e não é um terreno neutro, ao ser uma potência nessa mediação, por mais que tenha influência junto a Donald Trump", mencionou. "Em contrapartida, o Paquistão, com sua capital Islamabad como sede, é um ponto de força para que ambas as posições possam continuar dialogando, tem uma localização estratégica e, após o fracasso deste domingo, repensar posturas, interesses e objetivos e voltar a se reunir no menor prazo possível para que esta guerra possa ter uma paz duradoura", acrescentou.

Sabio afirmou que a situação atual permite a Putin assumir um papel protagonista nesse conflito internacional. "Há alguns anos, na guerra da Síria, também ocupou esse papel de mediador entre os Estados Unidos e a Síria, em meio à Primavera Árabe", recordou a acadêmica. "Moscou pode ter um lugar decisivo pela figura de Putin, pela relação que tem com Trump, e pela relação que há entre a Rússia e o Irã. Do meu ponto de vista, isso pode ser visto como algo favorável para a resolução do conflito, e claramente Putin vai aproveitar", acrescentou, esclarecendo que até agora a Rússia tinha um papel de espectadora do conflito em um plano secundário e que este é o jogo da geopolítica por parte das potências globais deste último período.

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