Fulton Sheen. O beato televangelista

Fulton John Sheen (Foto: Wikimedia Commons)

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09 Abril 2026

Primeiro no rádio e depois na TV, Fulton John Sheen evangelizou os Estados Unidos. Bispo desde 1951, comunicador eficaz, ganhou um Emmy e contribuiu para a emancipação da fé católica nos Estados Unidos. Em 24 de setembro, ele será elevado aos altares.

A reportagem é de Marco Ventura, publicada por La Lettura, 05-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Ele se levanta e vai ao microfone, o bispo católico Fulton John Sheen, 58 anos. Ele acaba de receber o Prêmio Emmy de 1953 de melhor personalidade da televisão do ano. "Chegou a hora de prestar a devida homenagem aos meus quatro autores", diz ele com a astúcia calculada com que prepara as suas falas: "São Mateus, Marcos, Lucas e João". Por mais de vinte anos, o sucesso de Fulton Sheen foi crescendo. Desde a década de 1930, ele se consolidou com o programa de rádio "The Catholic Hour", da NBC, transmitido nas noites de domingo. No domingo de Páscoa, em 1940, celebrou sua primeira missa na televisão. A partir de 1952, sua consagração televisiva ocorreu com o programa "Life Is Worth Living" (A vida vale a pena ser vivida), transmitido em horário nobre às terças-feiras, primeiro na DuMont e depois na ABC. O prêmio de 1953 foi seguido por mais duas indicações ao Emmy em 1954 e 1957, o último ano de um programa com 30 milhões de telespectadores, ainda hoje considerado o programa de televisão católico mais assistido.

Sua atividade televisiva continuou com diversos formatos nas décadas de 1960 e 1970. Quase meio século após sua morte, o pioneiro católico da comunicação recebe agora uma premiação mais prestigiosa que o Emmy, pelo menos para a Igreja de Roma: já venerável desde 2012, Fulton Sheen será beatificado no próximo 24 de setembro. As dúvidas sobre seu envolvimento no acobertamento de casos de abuso sexual, que por algum tempo paralisaram o processo, foram dissipadas. O futuro beato personifica a história do rádio e da televisão nos Estados Unidos: o peso do primeiro nas décadas de 1930 e 1940 e a explosão da segunda nas décadas de 1950 e 1960. Ele personifica o meio e o poder do meio, assim como personifica a força da religião que explora o meio e o poder do meio que transmite a religião.

Nos anos do rádio, é a voz de Fulton Sheen que cativa, sua narrativa que hipnotiza. Depois, nos anos da televisão, chegam o olhar, os movimentos, a cena. A batina episcopal, à qual tem direito desde 1951, destaca-se contra o preto e branco antes de se iluminar graças as cores. O Bispo Sheen cativa o público com suas histórias, as piadas e as risadas da plateia no estúdio, o sorriso e a simplicidade, a letra grande com que preenche o quadro-negro, as homenagens aos assistentes nunca filmados que ele chama de "anjos". Mas em seguida sacode a plateia e se torna sério, dramático. Ele vira o perfil, faz uma pausa e encara a câmera enquanto ela se aproxima. Como no episódio de 1954 em que fala de Jesus diante da adúltera: ele faz a tela tremer quando pergunta solenemente: "Onde estão aqueles que te acusam?", afirma: "Nem eu te acuso" e se despede: "Vai, não peques mais".

Sheen conduz o catolicismo para uma nova era. Desaparece a religião étnica, emigrada, suspeita, discriminada, desponta uma igreja autóctone, integrada, aceita, respeitada. Passa-se dos companheiros para o presidente J. F. Kennedy, o primeiro católico na Casa Branca. No rádio e na TV, os católicos se emancipam enquanto se americanizam. Sheen é certamente um usuário extraordinário do meio, um talento nato e um grande profissional, também é precursor dos televangelistas e, acima de tudo, veículo de um novo catolicismo. Como enfatiza Massimo Faggioli, entrevistado pelo jornal La Lettura, é o catolicismo que abandona o antissemitismo e a polêmica antiprotestante, que deixa falar os "autores" Mateus, Marcos, Lucas e João quando, na Roma pré-conciliar, a Escritura ainda era tabu, que adere à liberdade religiosa e à separação entre Igreja e Estado, que abraça o consumismo e o capitalismo. Professor de história e teologia no Trinity College de Dublin, após vinte anos nos Estados Unidos, Faggioli vê em Sheen um catolicismo agora capaz de encarnar uma genérica moralidade estadunidense, de abraçar o projeto inclusivo dos EUA e de mostrar "um rosto reconfortante que dialoga com os EUA da Guerra Fria".

Anticomunista, Sheen admirava o ditador espanhol Francisco Franco e, contra Sigmund Freud, se colocava ao lado dos pobres maus, "não ricos o bastante para serem psicanalisados e convencidos de que não eram pecadores". Sua resistência às convenções da modernidade e sua afinidade com a sociedade secularizada poderiam convergir, observa Faggioli, em um período de prosperidade econômica que tornava "mais fácil introduzir o catolicismo na cultura estadunidense". Se o meio é a mensagem, como Marshall McLuhan ensinava justamente naquela época, em 1964, o gênio da mídia e o evangelista dos consumidores são uma só coisa, como ilustram perfeitamente os comerciais de rádio e TV da Admiral que abrem e fecham os programas do bispo.

A beatificação de 24 de setembro questiona o sentido daquele período para os Estados Unidos de hoje, para os católicos de hoje, aqueles do primeiro papa EUA. A beatificação ocorre em um país profundamente dividido e em uma Igreja Católica empurrada para a direita pela radicalização antirreligiosa da esquerda.

Sheen, à sua maneira, unia e mobilizava. O partidarismo de seus sucessores, ao contrário, divide e paralisa. Os organizadores do evento de setembro, enquanto isso, estão programando um evento grandioso. Escolheram o Dome at America de St. Louis porque pode acomodar um grande público perto da Diocese de Peoria, Illinois, onde o bispo foi ordenado sacerdote e está sepultado.

O site dedicado explica como obter ingressos, como fazer a peregrinação e como obter uma relíquia. João Paulo II celebrou uma missa naquela mesma arena em 1999, diante de mais de 100 mil fiéis. Vinte anos antes, em outubro de 1979, um ano após ser eleito papa, ele abraçou publicamente Sheen na Catedral de São Patrício, em Nova York. O bispo de oitenta e quatro anos faleceria dois meses depois. Em um vídeo do YouTube, pode ser visto no púlpito de uma conferência, diante do microfone, falando sobre a vez em que procurava a prefeitura da Filadélfia e pediu informações. Um jovem pedestre lhe deu as indicações e perguntou o que ia fazer lá. O bispo respondeu que tinha que dar uma palestra sobre o caminho para o paraíso e o convidou para a conferência. O jovem respondeu: "Mas se nem consegue encontrar o caminho para a prefeitura!".

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