09 Abril 2026
Um ano antes de morrer, Francisco deu a Thomas Leoncini, psicólogo, "algo para depois, para quando eu não estiver mais aqui": um pequeno texto, uma fábula, um poema. Sobre a dor, sobre como enfrentá-la. Agora virou um livro com ilustrações de Alessandro Sanna.
O artigo é de Annachiara Sacchi, jornalista, publicado por La Lettura, 05-04-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Primavera de 2024, Cidade do Vaticano, Santa Marta. "Aqui está, algo para mais tarde, para quando eu não estiver mais aqui", diz o Papa Francisco, entregando-lhe umas folhas manuscritas, em italiano, sem ilustrações, mas já com o título Le tre farfalle del lago (As Três Borboletas do Lago), com a autorização para tratar delas "depois". Desde então, os dois amigos, distantes em idade, mas próximos por afinidade, continuam a se ver, mas não falam mais da "coisa". "Ele estava bem." Um ano depois, em 21 de abril de 2025, Jorge Mario Bergoglio falece. E Thomas Leoncini, "guardião temporário de uma semente que não me pertence", espera. Quase sobrecarregado pela responsabilidade que recebeu, atordoado pela perda, ele leva alguns meses para concluir sua tarefa ("Mantive-a escondida por um tempo") e finalmente publicar a "coisa para depois", que é uma história e um poema: a voz do Papa enquanto "se pousa como uma mão no ombro. Um abraço para aqueles que ficarão, como um sinal de que o amor nunca morre".
Um curto poema, uma fábula em versos. Com ilustrações de Alessandro Sanna. Podem ler um trecho aqui, antecipado por la Lettura neste Domingo de Páscoa. Thomas Leoncini (1985), escritor e psicólogo, autor com Zygmunt Bauman de Nascidos em tempos líquidos (Zahar, 2025) e Deus é Jovem com Bergoglio (Planeta, 2018), editou o livro para a Rizzoli. Ele conta: "O Papa Francisco adorava a poesia do argentino Francisco Luis Bernárdez, especialmente o soneto que termina assim: 'Porque, afinal, entendi que tudo o que a árvore tem de florido, vive do que está nela sepultado'. Ele amava os poetas de todo o mundo, incluindo os italianos. E os orientais que, como ele observava, sabem ver poesia onde não existe". Há um tom infantil nas palavras que o Papa entregou ao seu jovem amigo (quando perguntado se eles se tratavam informalmente, ele quase fica sem graça: "Sim"). Leoncini observa: "Sua memória o levava de volta à Buenos Aires de sua infância; ele costumava dizer que as crianças têm a capacidade de reconhecer a poesia com mais facilidade do que os adultos."
Ao escrever As Três Borboletas do Lago parecia ter retornado àquela dimensão, admite Leoncini sereno. "E, de fato, quando conversamos sobre 'a coisa', disse que a havia imaginado como um carinho para os pequenos."
Um livro para as crianças. Leoncini, que conheceu o Papa em 2017 e foi nomeado membro do Sínodo dos Jovens em 2018, revela: "Eu me permiti discordar. O texto fala a todos, eu lhe disse. As Três Borboletas do Lago é um presente, e acredito firmemente que pode ajudar qualquer pessoa que esteja passando por um momento difícil, a perda de um ente querido, uma doença."
Um legado. Um conto de fadas que se torna uma "presença viva". Feita de páginas onde encontrar não apenas o Papa, mas também um pai e um avô. E um consolo. Na introdução do livro, Leoncini relata a gênese da obra. "Francisco não queria um texto teológico nem uma explicação, porque não gostava de abstrações quando se tratava de dor. Ele sabia que, diante da morte, as fórmulas não bastam."
A poesia, ao contrário, sabe tocar os corações. "Combinamos em acompanhar as palavras com imagens. O texto é exatamente como ele me entregou; é dele, dele, dele. Faz você sentir um calor que nunca nos abandona." Um momento de humildade: "Minha introdução apenas o irriga, e nada mais." "É como se ele quisesse nos dizer: ainda estou aqui."
As Três Borboletas do Lago é, acima de tudo, uma mensagem de esperança para os tempos difíceis que estamos vivendo. Em um mundo armado, dilacerado pela guerra, contra o qual o Papa Leão XIV proferiu duras palavras. "O Santo Padre está dando continuidade a todo o trabalho de Bergoglio, não vejo nenhuma descontinuidade", conclui Leoncini. "Depositamos muita confiança em Leão."
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