02 Abril 2026
A decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de restabelecer testes genéticos de "feminilidade" para os Jogos de Los Angeles em 2028 reabre uma das disputas mais sensíveis do esporte mundial e provoca reação imediata de atletas, cientistas e governos. Símbolo dessa controvérsia, a bicampeã olímpica sul-africana Caster Semenya classificou neste domingo (29) a medida como “desrespeito às mulheres”, e criticou o fato da mudança ocorrer sob liderança feminina.
A informação é publicada por Rfi, 29-03-2026.
O novo critério exclui atletas transgênero e parte das intersexo, revive práticas abandonadas há décadas e se alinha a pressões políticas, especialmente dos Estados Unidos, em meio a um debate que mistura ciência, direitos e identidade.
A decisão tem impacto direto sobre atletas transgênero e também sobre competidoras com diferenças de desenvolvimento sexual (DSD), grupo no qual se enquadra a sul-africana Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800 metros e uma das vozes mais críticas da política.
Em Cidade do Cabo, Semenya classificou a medida como “uma falta de respeito às mulheres” e questionou a necessidade de comprovar o gênero para competir.
Semenya disse que a decisão atinge de forma desproporcional mulheres do Sul Global, sobretudo africanas. Para ela, exigir testes para “provar” o gênero equivale a questionar o direito das mulheres de competir, ampliando desigualdades já existentes no esporte de alto rendimento.
"Justiça esportiva"?
O COI sustenta que a mudança busca preservar a “justiça esportiva”, argumentando que características biológicas associadas ao desenvolvimento masculino podem gerar vantagem competitiva em determinadas modalidades. A entidade também afirma que a regra não afeta o esporte de base, apenas competições de elite, e que haverá exceções restritas para condições médicas específicas.
A decisão ocorre em meio a forte pressão política nos Estados Unidos, país-sede das Olimpíadas de 2028. O governo de Donald Trump, que retornou à Casa Branca em 2025, já havia proibido por decreto a participação de atletas trans em competições femininas, criando um alinhamento indireto com a nova diretriz olímpica.
A nova regra determina que apenas atletas classificadas como “biologicamente femininas” poderão competir, com verificação baseada em um teste único para detectar a presença do gene SRY, associado ao cromossomo Y. O COI afirma que o procedimento seria simples e feito uma única vez na carreira da atleta. A medida retoma um modelo de verificação genética usado entre 1968 e 1996, abandonado após críticas da comunidade científica e do próprio movimento olímpico por falhas metodológicas, impactos psicológicos e falta de consenso médico.
“Por que eu deveria provar que sou mulher?”
A reação internacional foi imediata. Mais de 80 organizações de direitos humanos e esporte pediram a suspensão da medida, alertando para riscos de discriminação, violação de privacidade e retrocesso histórico. Especialistas da ONU classificaram o modelo como potencialmente “invasivo e discriminatório”, enquanto autoridades europeias também manifestaram preocupação com os impactos éticos e jurídicos.
A ministra do Esporte da França, Marina Ferrari, chamou a decisão de “um passo atrás”, lembrando que testes cromossômicos semelhantes já haviam sido abandonados justamente por suas limitações científicas e pelo estigma causado às atletas. Pesquisadores também apontam que a presença do gene SRY não determina, por si só, vantagem esportiva, já que fatores hormonais, genéticos e fisiológicos são complexos e variados.
O debate se intensificou após os Jogos de Paris-2024, quando vitórias de atletas como a argelina Imane Khelif e a taiwanesa Lin Yu-ting foram alvo de controvérsias públicas e acusações sem consenso científico.
No centro da disputa, o COI tenta equilibrar pressões políticas crescentes, demandas por “justiça competitiva” e críticas de que estaria institucionalizando um sistema global de vigilância sobre corpos femininos — um dos temas mais sensíveis do esporte contemporâneo.
“Isso já fracassou antes”, afirmou Semenya. “Por que eu deveria provar que sou mulher?”
No centro da controvérsia está um impasse ainda sem solução: como equilibrar inclusão, justiça competitiva e critérios científicos em um cenário cada vez mais pressionado por disputas políticas e culturais.
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