Carta de Porto Alegre afirma unidade internacional contra o fascismo e o imperialismo

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02 Abril 2026

“Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e nos organismos internacionais.”

A reportagem é de Fabiana Reinholz, publicada por Brasil de Fato, 30-03-2026.

O trecho acima é da Carta de Porto Alegre: Unidade contra o Fascismo e pela Soberania dos Povos, lida ao final da 1ª Conferência Internacional Antifascista, realizada na capital gaúcha entre os dias 26 a 29 de março.

O documento afirma que a defesa de um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro. “Destacamos a importância da Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.”

Sediada em Porto Alegre, berço do Fórum Social Mundial, a conferência reuniu mais de 4 mil pessoas de cerca de 40 países, entre ativistas históricos e jovens, em quatro dias de debates, mobilizações e atividades autogestionadas.

Conferência se fortalece após adiamento e ganha novo significado político

Integrante do comitê de organização, a presidenta do Psol-RS e integrante da Global Sumud Flotilha, Gabi Tolotti, relembrou que o encontro estava previsto para 2024, mas foi adiado devido às enchentes no Rio Grande do Sul.

A coordenadora explica que o evento era para ter acontecido em 2024, acabou sendo cancelada por conta de uma enchente. “E naquela época a gente já falava: a enchente é fruto do negacionismo climático e a conferência se reafirma em cima disso.”

Tolotti também frisou que o cenário internacional reforçou a necessidade do encontro. “Com o Trump sequestrando e bombardeando países e atacando a soberania dos povos no início do ano, a conferência se ressignifica e reafirma sua necessidade, em uma relação dialética.”

Ao falar sobre a programação, a coordenadora destacou a marcha realizada na quinta-feira (26), que conforme apontou, mostrou a potência da conferência nas ruas. E também as 150 atividade autogestionadas, realizadas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre sexta e sábado. “Todas as conferências foram muito positivas, com um debate político excelente, uma diversidade de organizações, de pensamentos políticos, reafirmando a necessidade de combater o fascismo, lutar contra a extrema direita e pela soberania.”

Memória do Fórum Social Mundial e articulação internacional

O último dia, assim como os anteriores, resgatou os 25 anos do Fórum Social Mundial e projetou caminhos para o futuro. “Porto Alegre é berço de grandes movimentos internacionais, uma herança que carregamos desde o Fórum Social Mundial e que, desde 2024, se expressa também na unidade com os companheiros que estão do mesmo lado da trincheira”, afirmou Tolotti.

Com a participação de Damian Hazard e Liége Rocha, integrantes do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, a 11ª Conferência, intitulada Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas, apontou para uma continuidade política, segundo a coordenadora. “A mesa foi importante para resgatar essa trajetória, mas principalmente para projetar o futuro das nossas articulações, que resultaram na Carta de Porto Alegre, reunindo nossos acordos e uma síntese política da conferência”, destacou.

Indagada sobre as mobilizações recentes, como os protestos “No Kings”, nos Estados Unidos, contra o autoritarismo e a política de guerra de Donald Trump, e as marchas na Argentina, que levaram milhares às ruas no último dia 24, em memória aos 50 anos da ditadura, ela situou o momento internacional como um cenário de disputa. “As ideias fascistas avançam, mas a classe trabalhadora no mundo inteiro resiste. Foi impressionante a mobilização nos Estados Unidos e na Argentina. Isso mostra que, mesmo no coração do capitalismo, há uma resistência fortíssima. Não vai ser fácil para eles”, afirmou.

Ao final, reforçou o sentido político da mobilização: “Só a luta muda a vida. Não existe nenhum direito do trabalhador, nenhum avanço social que não tenha sido conquistado com muita luta e pressão social”.

Internacionalização da extrema direita

A dimensão internacional do avanço da extrema direita também foi destacada por participantes estrangeiros. O indiano Sushovan Dhar, membro de um sindicato e redator de uma revista da esquerda alternativa, chamou atenção para a articulação global desses setores.

Segundo ele, “é muito importante ter uma conferência contra o fascismo e o imperialismo, uma conferência internacional, porque nos últimos anos há uma internacionalização da extrema direita, que antes estava mais limitada à Europa e aos Estados Unidos, mas hoje há uma relação muito estreita, muito estreita, entre os líderes da extrema direita, como Narendra Damodardas Modi (primeiro-ministro da Índia), Bolsonaro, Erdogan (presidente da Turquia) e Rodrigo Duterte (ex-presidente Filipino).”

Ao comentar a situação na Índia, descreveu um cenário prolongado. “A situação na Índia é muito difícil, porque há um governo fascista há 12 anos. A Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é uma organização de 100 anos, é uma organização fascista muito forte, com um projeto civilizacional”, disse.

Para ele, o enfrentamento exige um projeto alternativo. “Nós precisamos ter um projeto contra a civilização da extrema direita, quer dizer, falar dos direitos humanos, dos direitos dos camponeses, dos trabalhadores, das mulheres, de todos, todos, todos que são explorados no mundo”, concluiu.

Bordados que denunciam e resistem

A conferência também abrigou a feira Bela Chiao, reunindo iniciativas de diferentes segmentos da economia solidária. Presente ao evento, a bordadeira e fundadora do coletivo Linhas de Poa, Marilene Veiga de Oliveira, destacou a importância do espaço no contexto atual.

Para ela, “a conferência é indispensável porque o fascismo está brotando em vários lugares, seja nas escolas, seja nos bairros. A gente encontra fascistas, inclusive, nas periferias”.

Nesse cenário, ela também chamou atenção para os impactos sobre as mulheres. “Nós, mulheres, somos as principais vítimas de tudo isso, porque no fascismo ocupamos um lugar secundário ou até terciário. Para eles, nossas vidas não têm importância.”

Na feira, Oliveira apresentou bordados com temáticas políticas e sociais, como a causa da Palestina livre, o bloqueio a Cuba, frases feministas e denúncias sobre os 23 feminicídios registrados em 2026 até o momento, além de referências a casos como o da jovem indígena Daiana Gria Sales.

Ela também explicou o caráter coletivo do processo de produção. “A gente decide as lutas junto com outros grupos do Brasil todo, conversa sobre os problemas de cada estado e, a partir daí, define as nossas pautas. Os bordados são riscados, distribuídos e feitos coletivamente: se uma pessoa desenha, outra borda, e assim vai.”

Arte como denúncia e memória das violências

A atuadora da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, Tânia Farias ressaltou a importância da memória histórica. “A ditadura é um passado muito recente, e no Brasil parece que não vingou, vingou o esquecimento, como uma semente regada pela extrema direita.”

Ela relacionou passado e presente. “A história volta como um fantasma. Se a gente tivesse mantido o olhar atento para o passado, analisando ele à luz do presente o tempo inteiro, talvez a gente não tivesse permitido esse avanço do fascismo.”

Para a atuadora, revisitar esse período é um compromisso político. “Tratar do passado é manter o compromisso com o futuro e atuar ativamente no presente. O passado tem muitas notícias para nos dar sobre o presente.”

Ela também ressaltou a violência histórica na América Latina. “É uma grande vergonha que as pessoas não tenham tido o direito de enterrar seus mortos. É uma coisa perversa que esses governos autoritários e fascistas espalharam.”

Mobilização nas ruas como resposta ao avanço fascista

Para Farias, a resposta ao avanço da extrema direita passa pela mobilização popular. “A gente tem que estar na rua. Não há tempo para o silêncio. A gente tem que usar toda a nossa voz e o nosso corpo para derrubar o fascismo.”

Ela também comentou o cenário internacional. “Estamos vendo em tempo real o que acontece em Gaza. Crianças sendo mortas de fome ou bombardeadas. E o silêncio ainda é de doer.”

Ao criticar contradições das potências, afirmou: “Como podem se dizer defensores da democracia elegendo um fascista como o Trump? É um grande paradoxo”. Ela concluiu destacando a necessidade de ampliar a participação popular. “Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular.”

A próxima edição da Conferência acontecerá na Argentina, segunda maior delegação da edição atual.

Eis a carta.

Reunidos em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta países países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva.

Nessa mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Milei; houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando uma vez mais Trump como inimigo da humanidade.

O sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada decadência economica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua recolonização.

Em cada país, as ameaças fascistas e neoliberais assumem formas particulares, mas têm pontos em comum: a eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos trabalhistas, a explosão do desemprego estrutural, o desmantelamento da previdência social, a repressão às entidades sindicais e populares, a privatização dos serviços públicos, políticas de “austeridade” que eliminam todo e qualquer investimento social, o negacionismo científico e climático, a expropriação dos camponeses em benefício da agroindústria, o deslocamento forçado das populações originárias para promover o extrativismo desenfreado, políticas migratórias ultra-restritivas e enorme aumento de despesas militares.

A extrema direita e as forças neofascistas desenvolvem uma ampla ofensiva, que instrumentaliza o descontentamento com as consequências desastrosas do neoliberalismo para acelerar essas políticas. Para isso, à semelhança do fascismo clássico, procuram direcionar esse descontentamento contra os grupos oprimidos e despossuídos: migrantes, mulheres, pessoas LGBTQ+, beneficiários de programas de inclusão, pessoas racializadas e minorias nacionais ou religiosas. O nacionalismo exacerbado, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a LGBTQI+fobia, a incitação ao ódio e a banalização da crueldade acompanham o avanço da extrema direita em cada etapa, de acordo com as pecularidades de cada país.

A vontade de acumular riqueza nas mãos do capital, a busca desenfreada pelo lucro máximo que sustenta as políticas da extrema direita, também se manifesta pela intensificação das agressões imperialistas para monopolizar recursos e explorar populações.

O imperialismo torna-se cada vez mais desenfreado, agressivo e belicista, atropela o Direito Internacional, a Carta da ONU e a autodeterminação dos povos, sanciona, ataca e bombardeia as nações que não se submetem aos seus ditames, sequestra e assassina seus Chefes de Estado.

Isso vai de par com a perpetuação de situações coloniais que no caso da Palestina assume a forma de um genocídio explicito em Gaza, orquestrado pelo Estado sionista de Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos, com a cumplicidade dos demais países imperialistas. Além disso, Israel acaba de invadir e bombardear de forma criminosa o Líbano e afirma que anexará o sul do país.

Lutamos contra todos imperialismos e apoiamos a luta dos povos por sua autodeterminação, por todos os meios necessários.

A extrema direita, além da cumplicidade com o governo genocida de Netanyahu, tece laços internacionais, realiza congressos, think tanks, declarações conjuntas, apoio mútuo nos processos eleitorais, colaboração e programas de propaganda e desinformação. Além do apoio direto (ou velado) das chamadas Big Techs, desestabilizando governos que resistem ao império e potencializando a propaganda reacionária nos meios digitais.

As forças que combatem a ascensão da extrema direita são diversas e apresentam diferentes análises, estratégias e táticas, programas e políticas de aliança. A experiência nos ensina que embora reconhecendo essas diferenças, é essencial articular de forma unitária a luta contra os nossos inimigos. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender as classes trabalhadoras, os camponeses, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQ+, as pessoas racializadas, as minorias nacionais ou religiosas oprimidas e os povos indígenas; a defender a natureza contra o capitalismo ecocida; a combater as agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; lutar pelo fim da OTAN e a apoiar a luta dos povos e governos que resistem. É urgente compartilhar análises, fortalecer laços e realizar ações concretas

Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e nos organismos internacionais.

Afirmamos a relevância do mundo do trabalho, propomos impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global contra as violências fascistas e a precarização neoliberal. A defesa de um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro.

Destacamos a importância Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.

Nunca como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária. Essa luta precisa ser articulada internacionalmente. A Conferência Antifascista e pela soberania dos povos compromete-se a continuar a luta sem descanso e como espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as agressões imperialista. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista.

Propomos:

O Comitê Internacional, articuladamente com o Comitê e nação local, fica responsável por: organizar o planejamento da próxima Conferência; propor critérios e iniciativas para inclusão de novas organizações.

Tendo em conta a existência de inúmeras organizações e associações voltadas à luta contra o fascismo e o imperialismo, propomos a constituição de uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e antiimperialistas, com o propósito de realizar uma 2ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.

Todas as organizações participantes desta Conferência, desde que não se manifestem em contrário são automaticamente, participes dessa carta.

Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, em data e formato a serem propostos pela delegação e organizações argentinas, em diálogo com o comitê internacional.

Apoiar uma conferência regional na América do Norte envolvendo organizações do México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.

Apoio a Flotilha Nova Global Sumud, que novamente busca romper o cerco e denunciar o genocidio de Gaza. A luta do povo Palestino - em Gaza e na Cisjordânia - é a causa da humanidade. Apoiamos a solidariedade ativa materializada em espaços e movimentos como o BDS.

Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos Estados Unidos, ameçada de agressão à sua soberania. Apoio à todas as iniciativas de solidariedade, como foram as recentes iniciativas de flotilha para a ilha.

Repúdio à invasão da Venezuela e ao sequestro e prisão do presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores e apoio à luta pela sua libertação.

Repúdio ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel. Respeito à autodeterminação do povo iraniano, fim das sanções unilaterais.

Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios sob ocupação colonial e imperialistas.

Denunciar a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.

Apoio à luta da Frente Polisário pela independência do Shara Ocidental, direito reconhecido pela ONU.

Apoio à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.

Apoio ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.

Apoio a Contra-cúpula do g7 na França e Suíça em junho de 2026.

Apoiar as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros ecossocialistas que estão se organizando.

Apoiar e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.

Derrotar os fascismos e o imperialismo é tarefa urgente de nossa época

Porto Alegre, 29 de março de 2026.

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