31 Março 2026
"Quando olho para a Lua, não quero ver um mundo em conflito; quero continuar sentindo a admiração e o deslumbramento compartilhados que nos conectam através das culturas", escreve Jorge Hernández Bernal, astrofísico da Universidade Sorbonne, em artigo publicado por El Diario, 30-03-2026.
Eis o artigo.
Meu nome é Jorge Hernández Bernal, sou astrofísico e cresci sonhando com o espaço. Tive o privilégio de construir minha carreira no gratificante e empolgante campo da exploração espacial. Todos os dias me emociono ao pesquisar as nuvens de Marte e planejar novas observações com os satélites europeus, algo de que me orgulho imensamente. No entanto, não consigo sentir esse retorno à Lua como se fosse meu. Suponho que, quando um ser humano finalmente pisar na Lua novamente, eu assistirei ao vivo, mas a empolgação que sinto será ofuscada pelo nó no estômago causado pela realidade atual deste mundo e pela distopia que corremos o risco de exportar para o espaço.
A maioria de nós que estamos vivos hoje nem tinha nascido quando Neil Armstrong deu seus primeiros passos na Lua. Essa história épica ressoou em nosso imaginário coletivo ao longo de nossas vidas, enquanto nos perguntávamos quando vivenciaríamos algo semelhante novamente. Esse momento está se aproximando, mas muitos de nós estamos vivenciando esses eventos com uma complexa mistura de emoções conflitantes.
Explorar o espaço é emocionante, mas quem está retornando à Lua? Em que circunstâncias? O que esse retorno representa? Não posso ignorar o fato de que é a Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, que lidera o programa Artemis, no qual esse retorno à Lua está inserido, e que este país realiza deportações em massa de imigrantes. Este é o mesmo país que, por décadas, promoveu e apoiou ditaduras militares onde quer que elas servissem aos seus interesses, que impõe sanções contra juízes do Tribunal Penal Internacional e contra a Relatora Especial da ONU para a Questão Palestina... E as missões espaciais sempre tiveram um componente de propaganda.
É interessante lembrar que, apesar de seu enorme sucesso tecnológico e simbólico, o programa Apollo da NASA não obteve apoio unânime nos Estados Unidos. No final da década de 1960, em meio à Guerra do Vietnã e ao aumento das tensões sociais, setores da população — especialmente os movimentos pelos direitos civis e as comunidades afro-americanas — criticaram o contraste entre o enorme gasto para enviar humanos à Lua e a persistência da pobreza, da desigualdade e da discriminação dentro do próprio país. Figuras como Ralph Abernathy, um colaborador próximo de Martin Luther King Jr., chegaram a protestar em Cabo Canaveral em 1969, coincidindo com o lançamento da Apollo 11, para denunciar o fato de que os recursos públicos deveriam ser priorizados para necessidades sociais urgentes. Assim, o programa Apollo também se tornou um símbolo das contradições da época: uma conquista científica extraordinária em meio a profundas divisões sociais, uma contradição pungentemente refletida no poema de Gil Scott-Heron, "Whitey in the Moon".
O espaço não deveria ser o Velho Oeste
O programa espacial tripulado dos Estados Unidos tem sido marcado por instabilidade nas últimas décadas. Essa situação tornou-se ainda mais evidente desde a posse de Trump, em um aparente conflito de poder no qual oligarcas como Elon Musk e Jeff Bezos exercem considerável influência. A única certeza é que o governo Trump está determinado a enviar humanos à superfície lunar rapidamente, impulsionado pelo desejo de superar a China, que anunciou sua meta de missão para 2030.
Mas o que mais me preocupa não é a conquista simbólica que o governo Trump busca, mas a maneira como os Estados Unidos pretendem impor uma ordem internacional no espaço que põe em risco a conservação do meio ambiente e nos leva a conflitos.
O direito espacial internacional baseia-se em cinco grandes tratados desenvolvidos no âmbito da ONU nas décadas de 1960 e 1970 por meio de diálogo multilateral, no qual todos os Estados-membros tiveram a oportunidade de participar. Em 2020, os Estados Unidos promoveram os "Acordos Artemis", que não foram discutidos no âmbito da ONU, mas ditados exclusivamente pelos Estados Unidos. Esse desrespeito ao multilateralismo não é novidade. Obviamente, a China não assinou esses acordos e suas próprias missões à Lua não operarão sob essa estrutura jurídica que os Estados Unidos pretendem impor sem negociação.
O conteúdo desses acordos Artemis tem, na minha opinião, alguns aspectos positivos. Mas considero muito preocupante que legitimem a extração de recursos espaciais sem qualquer supervisão internacional. Os Acordos da Lua de 1976 tentaram estabelecer que a exploração de recursos no espaço deveria ser organizada por meio de uma estrutura internacional que garantisse a exploração racional e a partilha equitativa dos benefícios resultantes. Esse tratado não foi aceito por muitos países, e o governo Obama o contradisse definitivamente em 2015, ao autorizar seus cidadãos a comercializar livremente recursos extraídos do espaço. Um negócio acessível a pouquíssimos "cidadãos".
Em relação à exploração descontrolada de recursos, um conflito territorial é previsível. Uma potência que busque estabelecer uma base permanente na Lua preferirá fazê-lo em locais muito específicos no Polo Sul, onde existem reservas de água e é possível obter energia solar quase constantemente. Essa situação poderia levar muito em breve a uma corrida entre os Estados Unidos e a China para ocupar esses locais estratégicos. Os funcionários da NASA estão proibidos de se comunicar com seus colegas chineses, uma regra que também se aplica a cientistas e leva a situações absurdas. A NASA precisaria de autorização do Congresso para coordenar ações com sua contraparte chinesa, e não parece haver nenhuma intenção de organizar tal coordenação.
Os ingredientes para transformar o espaço, e a Lua em particular, no Velho Oeste estão todos presentes. Eu não compreendi verdadeiramente o conceito de "exploração espacial" até ler sobre a história da expansão territorial dos Estados Unidos no Pacífico. Essa expansão foi baseada na ideologia supremacista conhecida como "Destino Manifesto", à qual Trump se referiu abertamente em seu discurso de posse para seu segundo mandato, em relação ao envio de astronautas a Marte. Embora muitos hoje tentem ignorar, o Destino Manifesto levou ao genocídio dos povos indígenas e ao enriquecimento ilícito dos colonizadores.
Os grandes esquecidos
O que fazemos no espaço deve ser submetido a um escrutínio maior por parte da sociedade civil, especialmente no contexto da crise climática e ecológica. Não tenho certeza de até que ponto devemos ou não investir recursos no envio de humanos à Lua. Do que tenho certeza é que, se determinarmos que esse é um objetivo desejável, poderemos alcançá-lo por meio de uma cooperação internacional honesta e por uma fração dos gastos militares, que estão aumentando perigosamente.
Imagino um futuro de harmonia entre os seres humanos e de gestão responsável do ecossistema que nos sustenta, onde o uso sábio do espaço se torna uma fonte de bem-estar compartilhado e inspiração para toda a humanidade. Em um mundo complexo e interdependente, onde a superexploração irracional de recursos e a desigualdade extrema ameaçam nossa sobrevivência, não acredito que haja um caminho para nossa espécie aventurar-se com sucesso pelo cosmos sem paz e compreensão entre os povos. Quando olho para a Lua, não quero ver um mundo em conflito; quero continuar sentindo a admiração e o deslumbramento compartilhados que nos conectam através das culturas.
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