30 Março 2026
Os rastros de submunições de fragmentação, proibidas pelo direito internacional, tornaram-se uma visão comum no céu noturno de Israel.
A reportagem é de Lorenzo Tondo, publicada por El Diario, 29-03-2026. A tradução é de Francisco de Zárate.
A conta do Twitter do aiatolá Ali Khamenei, administrada por sua equipe após o assassinato do líder supremo do Irã em um ataque aéreo israelense em 28 de fevereiro, publicou uma mensagem claramente propagandística em 5 de março: um grande míssil brilhante descrevendo um arco no céu acima de uma cidade em chamas. "O momento de Khorramshahr está no horizonte", dizia a legenda, referindo-se ao míssil balístico mais avançado do Irã, capaz de transportar uma ogiva de fragmentação com até 80 projéteis.
Desde então, o Khorramshahr tornou-se muito importante nas avaliações israelenses de ameaças contra o país, cujo sistema de defesa antimíssil de múltiplas camadas é considerado o mais sofisticado do planeta.
O ataque mais recente com munição de fragmentação ocorreu no último domingo. Quinze pessoas ficaram feridas quando um míssil balístico iraniano atingiu o centro de Israel. Aproximadamente metade dos mísseis lançados pelo Irã desde o início desta escalada recente carregavam ogivas de fragmentação, segundo as Forças de Defesa de Israel.
Após estudar o impacto de dezenas de ataques iranianos e coletar depoimentos de autoridades israelenses, o The Guardian identificou pelo menos 19 mísseis balísticos com ogivas de fragmentação que penetraram o espaço aéreo israelense e atingiram áreas urbanas desde o início da guerra com o Irã. O resultado foi a morte de pelo menos nove pessoas e dezenas de feridos. Esses ataques representam uma mudança nas táticas iranianas, sugerindo que o Irã descobriu uma vulnerabilidade nas defesas aéreas israelenses.
As munições de fragmentação iranianas, que lançam dezenas de submunições no ar, têm testado a avançada rede de defesa antimíssil de Israel desde o início da guerra. Isso inclui o Domo de Ferro, projetado para neutralizar ameaças de diferentes velocidades, alcances e altitudes. Essas submunições expuseram uma vulnerabilidade que os sistemas de interceptação, por si só, têm dificuldade em neutralizar.
Segundo Tal Inbar, especialista em mísseis e consultor de diversas empresas de defesa israelenses, “interceptar munições de fragmentação é substancialmente mais difícil do que deter mísseis de unidade única devido a diversas alterações técnicas em seu perfil de combate”. “Para ser eficaz, um interceptor deve atingir o veículo lançador antes que a dispersão ocorra”, explica ele.
As bombas de fragmentação são projetadas para lançar dezenas de bombas menores sobre grandes áreas. Essas submunições nem sempre explodem imediatamente, representando riscos subsequentes para a população civil. Quando há suspeita de que tenham caído, equipes militares precisam coordenar buscas para vasculhar grandes áreas antes que as unidades antibombas da polícia neutralizem quaisquer bombas não detonadas.
Segundo especialistas em armamento, as munições de fragmentação devem ser interceptadas o mais longe possível do alvo para limitar os danos, idealmente fora da atmosfera. Interceptá-las é praticamente impossível depois que as submunições se dispersam, mesmo com os sistemas de defesa antimíssil mais sofisticados.
Por definição, as munições de fragmentação são indiscriminadas, e o direito internacional humanitário proíbe seu uso em áreas povoadas. Embora a Convenção sobre Munições de Fragmentação de 2008 também as proíba, nem Israel nem o Irã a assinaram.
A Anistia Internacional acusou o Irã de uma “violação flagrante” do direito internacional pelo uso de bombas de fragmentação durante a guerra de 12 dias travada com Israel em junho de 2015. A ONG já havia acusado Israel de violações semelhantes pelo uso dessas armas no Líbano em 2006.
Israel reconheceu ter usado bombas de fragmentação no passado, mas afirma que o faz em conformidade com o direito internacional. Tel Aviv denunciou o uso de submunições contra uma área densamente povoada de Israel como "um crime de guerra cometido pelo regime iraniano".
Vídeos que circulam online desde o início de março mostram munições de fragmentação caindo sobre a região metropolitana de Tel Aviv. Dezenas de pontos brilhantes podem ser vistos riscando o céu noturno antes do impacto. Esses vídeos se tornaram, de certa forma, a imagem que define a guerra com o Irã para a população civil israelense.
Dois desses ataques resultaram na morte de um casal na casa dos 70 anos em Ramat Gan (a leste de Tel Aviv) e de um trabalhador tailandês de 30 anos em Adanim (região central de Israel) nas primeiras horas de 18 de março.
Segundo as autoridades israelenses, essas submunições não podem ser neutralizadas de forma completa e confiável, mesmo quando os mísseis balísticos são interceptados antes que a ogiva se fragmente e disperse sua carga útil.
As reservas do interceptor estão sendo consumidas.
Além de burlar o escudo antimíssil de Israel com bombas menores, as munições de fragmentação também poderiam ter um segundo objetivo: esgotar as reservas de interceptores, forçando Israel a gastar dezenas de mísseis para neutralizar cada nova ameaça.
Interceptar mísseis iranianos que transportam munições de fragmentação simplesmente não é economicamente viável, pois "exigiria o uso de interceptores caros para atingir cada submunição individualmente", explica Inbar.
Os estoques de interceptores de Israel continuam sendo um segredo bem guardado, mas crescem as especulações de que essas reservas possam estar se esgotando.
As forças armadas israelenses afirmam ter obtido controle quase total do espaço aéreo iraniano após destruir mais de 70% de seus lançadores de mísseis balísticos. Mas a verdade é que Teerã continua a penetrar o espaço aéreo israelense.
Mísseis balísticos iranianos feriram quase 200 pessoas neste fim de semana no sul de Israel, nas cidades de Arad e Dimona, depois que o sistema antimísseis falhou em interceptar pelo menos dois dos projéteis.
O uso crescente de munições de fragmentação e o incessante toque de sirenes, que obrigam os israelenses a correrem para se abrigar a qualquer hora, estão exacerbando a crescente sensação de exaustão na sociedade. Muitos já começaram a se perguntar silenciosamente quanto tempo a guerra vai durar e qual o seu propósito.
Uma investigação do The Guardian, publicada em 2025, revelou evidências do uso de munições de fragmentação israelenses durante a guerra contra o Hezbollah, que começou no Líbano em outubro de 2023. Analisadas por diversos especialistas em armamento, as imagens mostraram a presença de pelo menos dois tipos de armas israelenses ao sul do rio Litani. O The Guardian não conseguiu determinar em quais ataques os projéteis foram usados, pois os destroços foram encontrados posteriormente.
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