Em busca da leveza perdida. Graça de Paolo Sorrentino. Artigo de José Geraldo Couto

Cena do filme "A Graça" (Foto: Reprodução)

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28 Março 2026

Graça retrata um presidente italiano com dois dilemas: sacionar a lei da eutanásia e dar ou não certos indultos. A solidão do poder e o drama de consciência são temas que percorrem o filme num ambiente em que a descontração parece pecado.

O comentário é de José Geraldo Couto, crítico de cinema, publicado por Blog do Cinema do IMS, e reproduzida por Outras Palavras, 26-03-2026.

Eis o comentário.

Graça, título do novo longa-metragem de Paolo Sorrentino, é uma palavra de múltiplos sentidos. No filme, sua acepção imediata é de indulto ou perdão – a graça que pode ou não ser concedida a determinados prisioneiros pelo presidente da república italiana, Mariano De Santis (Toni Servillo), em seus últimos meses de mandato.

Mas “graça” pode também, segundo o Houaiss, denotar “elegância e leveza de formas, do porte e/ou dos movimentos”, além de “comicidade, brincadeira, divertimento”. É aí que a coisa fica interessante. Se, na superfície do enredo, o presidente De Santis está às voltas com o dilema de conceder ou não o indulto, seu drama íntimo tem a ver com a busca de leveza e paz de espírito.

Autoanálise

Também o diretor Sorrentino parece buscar, com certo esforço, essa graça. Seu cinema, que me perdoem os admiradores acalorados, costuma ser um tanto afetado, arcando com todo o peso da intenção de ser belo e profundo. Seus enquadramentos são solenes, seus movimentos de câmera pesam toneladas e a tela quase sempre é povoada por uma ostensiva beleza cênica pré-cinematográfica. Em A graça ele talvez tenha encontrado o tema e a situação favoráveis a uma problematização desse estilo, numa espécie de autoanálise.

A oposição peso/leveza está em cena das primeiras às últimas imagens. Tudo começa no céu, com nuvens, pássaros e jatos produzindo fumaça com as cores da bandeira da Itália, mas logo a câmera desce para o imponente e massudo Palazzo del Quirinale, residência oficial do presidente. E a última cena, antes dos créditos e da piadinha final, é uma imagem alegórica da ausência de gravidade numa cápsula espacial.

Essa oposição é tematizada na superfície da história. Tido como um dos grandes juristas da Itália, o presidente De Santis, homem de rígidos princípios católicos e ilibada conduta republicana, descobre que seu apelido entre os servidores é “concreto armado”. Todo o seu esforço será no sentido de fazer-se leve, apaziguando sua consciência em relação aos atos oficiais que lhe resta praticar e à memória da esposa morta, que o teria traído com um amigo.

O que de alguma forma facilita esse jogo do peso à leveza é a própria ambientação do filme – no suntuoso Quirinale –, bem como a solenidade que cerca o cargo presidencial. Todos, com exceção da filha (Anna Ferzetti) e de uma velha amiga (Milvia Marigliano), comportam-se como se estivessem num evento oficial ou numa representação teatral. Só nas escapadas para fumar escondido da filha, De Santis parece ter um momento de descontração e de tímida transgressão.

Drama de consciência

Na prática, os temas que o presidente deve enfrentar em seus meses finais no cargo são dois: sancionar ou não a lei da eutanásia aprovada no congresso e indultar ou não um homem e uma mulher, cada um deles condenado por assassinar o cônjuge. O drama de consciência implicado por essas decisões foi, a meu ver, melhor tratado em filmes como A bela que dorme, de Marco Bellocchio (coincidentemente estrelado pelo mesmo Toni Servillo), e por Amor, de Michael Haneke, ambos de 2012.

Outros assuntos que atravessam o filme – a solidão do poder, a melancolia do envelhecimento, a automistificação dos indivíduos – foram abordados mais a fundo pelo próprio Sorrentino em obras como O divo, Juventude e Silvio e os outros. O que torna A graça mais interessante, a meu ver, é colocar em questão, subterraneamente, o próprio cinema do diretor.

Um exemplo flagrante da dificuldade de Sorrentino com a leveza e a comicidade implicadas na palavra “graça” é a cena em que De Santis recebe a visita oficial do presidente português.

O homem tem que atravessar sozinho o pátio interno do palácio, coisa de uns trinta metros, até se encontrar com seu anfitrião. O problema é que começa a chover logo no início da caminhada. Aquilo que nas mãos de um Mario Monicelli ou um Dino Risi produziria gargalhadas se frustra aqui pelo excesso: a câmera lenta, os closes nos rostos apreensivos, as trapalhadas dos assessores, a queda do presidente, o tapete vermelho que se ergue para envolvê-lo. Essa estética da hipérbole e do acúmulo acaba por produzir uma cena interminável que tem pouca ou nenhuma… graça. Isso para não falar da caricatura um tanto desrespeitosa, quiçá xenófoba, do líder português como um velho caquético, caipira e desajeitado.

Talvez o parágrafo acima seja injusto e discutível – afinal, o humor é uma coisa muito subjetiva, e mexe com questões inconscientes de cada espectador –, mas o fato é que A graça parece indicar que o próprio Sorrentino procura questionar e renovar seu estilo. Tomara. Talento e recursos não lhe faltam.

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