Patriarcado e crise de identidade masculina. Artigo de Flávio Lazzarin

Foto: Anya Juárez Tenorio | Pexels

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28 Março 2026

"Não mitificaremos o feminino como a metade santa de uma humanidade pecadora, - e nem um genérico feminismo imbuído de normais contradições, - mas nunca podemos esquecer que as mulheres são as vítimas sacrificiais de todas as civilizações, junto aos indígenas, aos escravizados, aos pobres, aos judeus, aos negros... Seres humanos que, desde tempos imemoriais até hoje, conhecem e sofrem em seus corpos e almas a violência dos poderosos e dos prepotentes de todas as classes", escreve Flavio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Eis o artigo.

Existem mulheres empoderadas que, com maestria, sabem persuadir nós homens a reconhecer como violenta e predatória aquela atração que reduz o outro a mero objeto e, nas circunstâncias escancaradamente capitalistas – à mera mercadoria.

Estas mulheres podem nos reeducar à beleza da encantadora sedução e do Eros, e a redescobrir a inegável necessidade do desejo, resgatando-o dos escombros patriarcais do moralismo, dos equívocos sobre castidade, do dualismo pernicioso que classifica as mulheres em duas figuras-chave: os anjos e as putas. Santas as mulheres do lar, mãe, irmã, esposa e filhas; putas todas as outras, disponíveis a um diferente padrão de submissão à dominação masculina. Putas também aquelas que não sabem ou não querem lidar com o preço. Preço que, porém, nunca corresponde ao valor da venda do corpo, mas que é, simplesmente, o preço pago pelo impagável equívoco desumano do ‘macho’.

Contudo, pensar as mulheres como meros anjos parece uma forma bem católica de remoção, via sublimação. Uma forma, ainda patriarcal, estereotipada, de não as reconhecer como pessoas com as sombras, as confusões, erros e equívocos, que nos fazem humanos. Uma atitude que não se liberta da lógica binária perversa “santa/puta”. E não as reconhece simplesmente como mulheres.

É nestas mentalidades que se esconde o vício do moralismo que vê toda sexualidade marcada pelo pecado, e que reduz a castidade à exclusão da prática do sexo e à ocultação do desejo, quando, ao contrário, está ao nosso alcance a rara possibilidade de sintonias verdadeiras, livres comunicações e reciprocidades. Oxalá possamos lutar juntos conjugando todas as dimensões do amor: Ágape, Eros, Philia. Que o Ágape jesuano e cristológico, amor gratuito, oblativo, que não comporta reciprocidade, possa animar e transfigurar os nossos corpos e desejos em sacramentos de vida. Em corpos que sabem escutar, esperar, se alegrar, respeitar, sofrer, morrer e, sem se possuírem se doam um ao outro. Que essa divina oblação possa sustentar o amor fraternal e sororal, feito de diálogo, comunhão, mutirões, lutas em defesa da vida.

As mulheres insubmissas nos dizem de relações de gênero que, no nosso tempo, estão em permanente ebulição, pressão, conflito e negociação entre modelos tradicionais, - parcialmente obsoletos, mas ainda resistentes não somente nos setores conservadores e neofascistas da sociedade e das igrejas - e modelos alternativos, em processo de construção, embora, frágil e precário.

É necessário, porém, encarar uma trágica urgência: as mulheres não nos interpelam somente como protagonistas empoderadas na defesa de direitos, mas apelam à nossa humanidade quando, cada vez mais, resultam vítimas da prepotência e violência masculina na família, na sociedade, nas igrejas. E o preconceito masculino não se limita ao feminicídio, mas exerce violência contra todas as sexualidades não heterossexuais, estigmatizadas como diferentes, anormais, negativas. Além disto, estatísticas sobre violências cometidas contra mulheres revelam que as mulheres negras são a maioria das vítimas e descortinam, tragicamente, que classismo, racismo e sexismo na sociedade brasileira são constitutivos, umbilical e estruturalmente ligados.

Como, porém, não encarar e acatar a principal provocação que as mulheres revolucionárias oferecem a nós homens quando, ao superarem a sua identidade submissa e dependente, nos convidam a um processo de redefiniçao da nossa própria identidade. A autêntica batalha feminista não tem como objetivo a nossa eliminação, ou a mera inversão do paradigma de dominação. É, pelo contrário, um convite à radical mudança, à busca de um novo paradigma de relações humanas.

Um árduo desafio, porque Jesus de Nazaré, dois mil anos atrás, e o próprio apóstolo Paulo (Gal. 3,28) preconizavam a possibilidade de uma igualdade e de uma fraternidade e sororidade universal. E até hoje, raros são os homens e as mulheres que levaram a sério esse sonho-profecia.

Ivone Gebara faz uma vida que continua profetizando esta verdade tão difícil para os homens: “A primeira questão da crise do masculino é que, ao mudarmos, nós, a nossa identidade submissa e dependente, ao deixarmos, nós, mulheres, de nos identificarmos como seres para e, nesse sentido, seres para os homens, para a família patriarcal, nós já estamos, ao afirmar nossa nova identidade, nossa busca de identidade, insistindo para que os homens entrem nesse processo de redefinição de sua identidade. O sexo forte, o sexo masculino, o gênero forte, masculino, só é forte e dominador na medida em que nós aceitarmos a dominação. E como nós não estamos mais aceitando o paradigma da dominação, eles estão em crise. Hoje em dia, a crise do masculino se situa numa espécie de falta de nova identidade do masculino. Isso tanto do ponto de vista das relações sociais quanto do interior das igrejas.”

Se a modernidade pós-industrial e urbana é o processo econômico e cultural que abala o paradigma patriarcal do “homem provedor/mulher doméstica”, o feminismo crítico é o processo político da gestão deste processo.

A crise indiscutível e irreversível da dominação patriarcal é um aspecto que define estas últimas décadas. Parece-me, contudo, que quem acompanha só especularmente, sem iniciativas marcantes esta crise, somos nós homens. Continuamos confusos, sem saber encontrar estratégias para lidar com as mudanças e as mutações, e incapazes de contribuir para a construção de novos caminhos.

Não mitificaremos o feminino como a metade santa de uma humanidade pecadora, - e nem um genérico feminismo imbuído de normais contradições, - mas nunca podemos esquecer que as mulheres são as vítimas sacrificiais de todas as civilizações, junto aos indígenas, aos escravizados, aos pobres, aos judeus, aos negros... Seres humanos que, desde tempos imemoriais até hoje, conhecem e sofrem em seus corpos e almas a violência dos poderosos e dos prepotentes de todas as classes. Elas nos convencem de que não podem existir lutas anticapitalistas, anticoloniais, antiestatais, sem lutas contra as velhas e as novas formas de patriarcado e de machismo de cunho colonialista e neofascista.

Assim não será um código de ética ou um manual de teologia moral que poderá mudar as nossas atitudes, mas somente a nossa disponibilidade aberta, despida de preconceitos para nos encontrar e relacionar, empaticamente, e mergulhar sem medo na difícil e inevitável trama dos conflitos de classe, de gênero e de etnia.

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