07 Março 2026
“A fidelidade ao Evangelho exige que as mulheres desfrutem dos mesmos direitos e privilégios que os homens no seio da Igreja Católica”.
O artigo é de Rafael Narbona, publicada por Religión Digital, 18-02-2026.
Rafael Narbona é escritor, crítico literário e professor de filosofia. Há mais de duas décadas colabora com o El Cultural e há vinte anos publica regularmente na Revista de Libros.
Eis o artigo.
Há muito tempo, abrigo a firme convicção de que as mulheres são a maior esperança da mudança radical de que a Igreja Católica necessita. As normas vigentes impostas pelo Vaticano colidem de forma intolerável com a sensibilidade das sociedades livres e democráticas. Não há nenhuma forma de justificar a exclusão das mulheres do sacerdócio ou do diaconato. Há dois séculos, a Igreja Católica caminha rumo à irrelevância ou, pior ainda, à sua definitiva degradação como instituição.
Se o integrismo alcançar seu objetivo de frear as reformas e retroceder a fórmulas pré-conciliares, como a liturgia em latim e de costas para os fiéis, a Igreja Católica se converterá em espaço de encontro das tendências mais reacionárias do nosso tempo: machismo, homofobia, xenofobia, especismo, autoritarismo, etnocentrismo. O sonho dos integristas católicos é transformar as sociedades democráticas em teocracias opressivas. Sob essa perspectiva distópica, as palavras do teólogo Alfred Loisy, em seu ensaio A Igreja e o Evangelho, publicado em 1902 e incluído no Índice de Livros Proibidos, revelar-se-iam proféticas: “Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja”.
Revolta de mulheres na Igreja
No prólogo de Revolta de mulheres na Igreja. Erguemos a voz, a professora e jornalista Lucetta Scaraffia recorda que Jesus não apenas acolheu mulheres como discípulas, mas muitas vezes as colocou como exemplo e modelo a ser imitado diante dos escribas e dos membros do Sinédrio. De fato, confiou a elas uma das tarefas essenciais de sua mensagem: o anúncio da ressurreição. No entanto, posteriormente a Igreja Católica passou a lhes reconhecer apenas uma missão: servir e obedecer. Para os fundamentalistas, a ideia de que possam ser ordenadas sacerdotes constitui uma gravíssima afronta à tradição.
Não há tal afronta. A fidelidade ao Evangelho exige que as mulheres desfrutem dos mesmos direitos e privilégios que os homens no seio da Igreja Católica. Essa reivindicação ofende apenas o poder clerical, resistente a qualquer questionamento do modelo patriarcal. O Papa Francisco não alterou nada essencial. Limitou-se a abrir um pouco a instituição, atribuindo cargos importantes a um pequeno número de mulheres. Com lucidez, Lucetta Scaraffia assinala que é inútil esperar a nomeação de um Papa disposto a implementar algo tão revolucionário quanto a incorporação das mulheres ao sacerdócio. De fato, Leão XIV rejeitou, em dezembro de 2025, a ordenação de mulheres como diáconos, ratificando o estabelecido por João Paulo II em 1994. Isso sim, ressaltou que não se tratava de uma decisão definitiva à luz da teologia atual.
O cristianismo surgiu como uma comunidade horizontal, mas, ao se tornar a religião do Império Romano, adotou uma estrutura vertical que manteve até os dias atuais. Por isso, as mudanças só podem vir de baixo, imitando a forma de proceder de Jesus e seus discípulos: um grupo nômade, sem teto, poder ou recursos, mas com grande fortaleza interior. A eliminação das injustas discriminações que afetam as mulheres na Igreja Católica representaria uma “oportunidade de conversão para a comunidade eclesial”, como aponta o movimento Revuelta de Mujeres, isto é, a superação de um pecado — a violação de direitos fundamentais — e um retorno ao espírito original do Evangelho.
Revolta de mulheres
Jon Sobrino escreveu que “fora dos pobres, não há salvação”. Creio que no conceito de pobreza é preciso incluir todos os grupos discriminados, como as mulheres ou as pessoas LGBTI, pois a segregação é uma forma de precarizar vidas. Ao abrir as portas a esses grupos, a Igreja se salvaria, mostrando fidelidade ao ideal inclusivo do Evangelho. O sinal do Reino é a mesa compartilhada, não um muro intransponível. Acolher, abraçar, igualar, solidarizar-se com o mais vulnerável, dar esperança aos que já não esperam nada: essa é a essência do Evangelho. As condenações e as exclusões são anticristãs.
Revuelta de Mujeres é a culminação de várias décadas de luta feminista dentro do catolicismo. Não é a primeira associação desse tipo, mas atualmente é o rosto mais visível de um movimento que reivindica o acesso das mulheres ao diaconato e ao presbiterato. A Coordenadora de Mulheres Crentes Erguemos a Voz ocupa-se de manter viva uma rede que ganhou visibilidade relevante em torno de 8 de março de 2020, no contexto do Dia Internacional da Mulher. A imagem das mulheres alemãs do grupo Maria 2.0, com um pedaço de esparadrapo selando seus lábios e um ícone de Maria de Nazaré, mãe de Jesus, tornou-se símbolo desse movimento de protesto contra o imobilismo clerical. Até agora, a Revolta de Mulheres conseguiu apenas a escuta cordial de algum bispo e a indiferença ou rejeição da maioria.
A Igreja não deixou de perder apoios desde o século XIX. Primeiro, a classe trabalhadora lhe deu as costas por seu alinhamento com as elites econômicas. Depois, afastaram-se intelectuais, artistas e cientistas por sua beligerância contra a inovação e o pensamento crítico. Mais tarde, os jovens sentiram-se incompreendidos e incapazes de aceitar uma moral sexual ultrapassada e absurdamente repressiva. As feministas e as pessoas LGBTI nunca se entenderam muito bem com uma instituição que exalta o patriarcado e demoniza o amor homossexual. As mulheres são o último grupo que poderia romper massivamente com a Igreja por sentir que sua voz não é ouvida e que não se reconhece tudo o que poderiam oferecer como diáconas e presbíteras.
Maria Madalena, apóstola dos apóstolos
Deus não é um Homem nem uma Mulher, mas uma Realidade pessoal que vem ao nosso encontro sem estabelecer distinções de raça, sexo ou gênero. Em nome do Deus de Jesus, não se pode justificar nenhuma forma de submissão ou subordinação. O Evangelho apela à plenitude do ser humano. Celebra e dignifica sua diversidade. “Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3,28).
A Administração Trump proibiu o uso de certas palavras em comunicados oficiais, entre elas “diversidade” e “inclusão”. Os trumpistas se declaram “nacionalistas cristãos”, mas rejeitam a diversidade e a inclusão. Trata-se de uma atitude profundamente incongruente, pois Jesus santificou a diversidade ao abrir sua mensagem a todos. Sua intenção foi incluir, não excluir.
Daí que a mesa compartilhada seja uma das experiências mais genuinamente cristãs. Sempre acreditei que na Última Ceia não havia apenas doze homens, mas também mulheres como Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena e talvez as irmãs de Lázaro, Marta e Maria. Na Páscoa judaica (Pessach), as mulheres se sentavam com os homens durante o jantar (Séder). Ambos os sexos comiam pão ázimo, bebiam quatro taças de vinho e contavam a história do Êxodo. É verdade que as mulheres se encarregavam da preparação e do serviço, mas a celebração era uma festa familiar e comunitária, sem segregação de sexos. O cristianismo, movimento igualitário surgido no seio do judaísmo, não marginalizou nem relegou a mulher a um segundo plano.
Maria, uma jovem humilde de Nazaré, aldeia de duzentos habitantes, trouxe-nos a esperança. Foi a porta que se abriu para que a Boa-Nova pudesse irromper no mundo. E Maria Madalena e outras mulheres foram as primeiras a encontrar Jesus ressuscitado. Em certo sentido, a mulher é o Alfa e o Ômega da mensagem cristã. Infelizmente, o androcentrismo ocultou esse fato e transformou Deus em um ídolo, um fetiche, um Senhor a ser adorado servilmente, ajoelhando-se ou prostrando-se de braços em cruz.
Em Reflexões sobre Deus, a teóloga protestante, poeta e feminista Dorothee Sölle escreveu: “Por que os seres humanos adoram um Deus cuja qualidade é o poder, cujo interesse é a submissão e que teme a igualdade de direitos? […] Por que haveríamos de adorar e amar um Ser que não ultrapassa o nível moral da cultura atual […], mas ainda a desestabiliza?”. Talvez seja necessária a morte desse Ser, que não é o Deus de Jesus, para que as mulheres e outros grupos discriminados, como as pessoas LGBTI, ocupem algum dia o lugar que lhes corresponde em uma Igreja Católica cujo futuro contempla apenas duas alternativas: um integrismo estéril e antidemocrático ou uma sinodalidade radical e livre de dogmatismos excludentes.
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