Sinodalidade à prova. Artigo de Severino Dianich

Sínodo sobre a sinodalidade, em 2023 (Foto: Reprodução | Youtube Vatican Media)

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28 Março 2026

"Onde não há experiência vivida, não se pode nem sequer vislumbrar os sinais dos carismas que o Espírito concede aos fiéis para enfrentarem os problemas concretos da existência à sua luz", escreve Severino Dianich, em artigo publicado por Settimana News, 26-03-2026.

Severino Dianich é doutor em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, com uma tese sobre a “Opção fundamental no pensamento de São Tomás de Aquino”. Em sua carreira acadêmica aprofundou sua investigação teológica especialmente no campo da Eclesiologia e também no da relação entre teologia e arte.

Eis o artigo.

Li nas notícias: "Papa Leão XIV convoca bispos do mundo para uma cúpula sobre a família", e pensei: "Será o teste definitivo para ver se o Papa pretende levar a sério, ou não, os esforços daqueles milhões de fiéis em todo o mundo que, ao longo do Caminho Sinodal de 2023-2024, se reuniram repetidamente nos níveis local, nacional e continental para desenvolver a ideia de sinodalidade e promover sua prática constante na Igreja."

Vida familiar com base no tema

A oportunidade de uma revisão é a mais auspiciosa que se possa imaginar. Se há uma experiência que os pastores da Igreja não têm, por terem feito voto de celibato, e para a qual não desfrutam dos dons correspondentes do Espírito, é precisamente a da vida familiar.

Se existe, portanto, uma questão pastoral para a qual o discernimento e as decisões a serem tomadas devem ser feitas de maneira sinodal, é aquela para a qual o Papa está convocando os presidentes das Conferências Episcopais para outubro próximo.

O fato é que bispos, padres, frades e freiras, na maioria dos casos, não vivenciaram a experiência daqueles que buscam um parceiro porque desejam se casar, de se verem às voltas com o difícil discernimento da decisão a tomar, de terem que enfrentar a complexa tarefa de unir a outra pessoa todos os aspectos, mesmo os mais íntimos, de sua existência, com as alegrias e as dificuldades, mas frequentemente também com os dramas que a criação dos filhos acarreta, e assim por diante.

Onde não há experiência vivida, não se pode nem sequer vislumbrar os sinais dos carismas que o Espírito concede aos fiéis para enfrentarem os problemas concretos da existência à sua luz.

Se existe, portanto, um problema que os bispos pretendem explorar mais a fundo, e para o qual queiram propor aos fiéis orientações para viver uma vida cristã feliz de acordo com o Evangelho, e para o qual devem reconhecer que eles próprios não possuem os carismas com que o Espírito Santo enriquece os fiéis que se casam e cuidam dos filhos, é precisamente o problema da vida familiar.

Foi oficialmente declarado que esta não é uma assembleia do Sínodo dos Bispos. Seria útil, no entanto, referir-se especificamente às duas assembleias sinodais realizadas em 2023 e 2024, que continuam sendo um modelo de verdadeira prática sinodal.

Nessas duas assembleias, pela primeira vez, a menos que se prove o contrário, na história da Igreja, 70 fiéis não bispos, incluindo padres e leigos, homens e mulheres, sentaram-se ao lado dos 264 bispos, nas mesmas mesas, com o mesmo direito a voto. Pessoalmente, não sou muito inclinado à reverência que os católicos costumam demonstrar diante de bispos e cardeais, mas devo admitir que, durante o Sínodo, foi um choque me ver sentado ombro a ombro com o Cardeal Parolin, com o Cardeal Müller à minha frente, com quem pude dialogar em pé de igualdade e chegar, por meio da votação, a uma resolução comum para as questões levantadas, levando em conta as maiorias e minorias expressas.

Neste caso, podemos afirmar seriamente, e não com a mesma superficialidade com que se costuma dizer de muitos outros acontecimentos, que se tratou de um evento histórico.

As famílias precisam ter voz ativa

Enquanto eu formulava mentalmente a melhor maneira de abordar a reunião dos bispos marcada para outubro próximo, vi um texto aparecer online, dirigido diretamente ao Papa, no site da Catholic Church Reform International: "Em um sínodo sobre a família, as famílias devem ter o direito a um voto deliberativo. Não há sinodalidade se os bispos se reunirem sem o povo. As famílias devem estar presentes e ter voz nas discussões sobre o ministério familiar."

Esperamos, portanto, que as mesas-redondas a que nos habituámos voltem a aparecer na Sala Paulo VI em outubro, em número suficiente para acomodar, juntamente com os 115 bispos, pelo menos o mesmo número de fiéis leigos casados, um certo número de noivos e um número significativo de divorciados. Isto porque o Sínodo não se reúne para se congratular com os sucessos do ministério familiar, mas para discernir "os passos a dar para proclamar o Evangelho às famílias de hoje".

Não se trata de substituir o magistério episcopal, fundado no sacramento, mas de determinar as áreas em que sua autoridade é exercida. Se o Espírito do Senhor desejou um ministério dotado de autoridade, foi para assegurar a preservação fiel, pela Igreja, da autêntica pregação dos Apóstolos e a preservação da unidade da Igreja que dela deriva diretamente.

Disso se torna possível e apropriado que a prática sinodal na qual, de tempos em tempos, os fiéis dotados dos carismas pertinentes à res de qua agitur sejam decisivos, e onde os ministros ordenados sejam os garantes da autenticidade da fé para salvaguardar, na pluralidade dos juízos emergentes, a comunhão na comunidade.

Dada a base transcendente da autoridade na Igreja, muitas vezes perdemos de vista seus limites. A autoridade irrestrita, em qualquer esfera da vida social, nada mais é do que um monstro, pairando sobre a convivência humana. Agostinho disse, certa vez: "Eu não acreditaria no Evangelho se a autoridade da Igreja Católica não me conduzisse a ele", mas, uma vez alcançado o Evangelho, este se torna o juiz da autoridade da Igreja: "Não devemos nos submeter à autoridade por si mesma, mas pela verdade".

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