Escutar o grito dos pobres e da terra. Do Sínodo, um desafio que chama a todos

Foto: Vatican Media

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27 Março 2026

Como se sabe, dez Grupos de Estudos foram criados pelo Papa Francisco para aprofundar questões e temas que emergiram durante o Sínodo sobre a Sinodalidade. Esse processo foi retomado por Leão XIV, que solicitou que os textos entregues à Secretaria do Sínodo fossem tornados públicos em um 'espírito de transparência'.

O artigo é de Lorenzo Rosoli, publicado por Avvenire, 25-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Lorenzo Rosoli, formado em Ciências Políticas, cubro informações religiosas e questões culturais e sociais. Desde 2011, dedico-me (entre outras coisas) à trajetória e à vida da Arquidiocese de Milão. Nasci em 1968: como o Avvenire. E sou de Brescia: como Paulo VI, o Papa que fundou o Avvenire. Este jornal, para o qual comecei a trabalhar em 1998, faz, portanto, parte do meu destino...

Eis o artigo. 

Escutar o grito dos pobres e o grito da terra — e escutá-los em sua profunda interconexão — não é uma opção pastoral entre outras: é um elemento constitutivo da missão eclesial. É um caminho necessário para a proclamação do Evangelho, como Igreja moldada pelo amor a Deus e ao próximo e pelo exemplo do Bom Samaritano. Uma Igreja que reconhece os pobres, os vulneráveis, os marginalizados, os que sofrem — e, com eles, toda a criação, em seu esplendor e suas feridas — como autênticos lugares teológicos. E, portanto, apoia uma teologia que nasce da escuta dos pobres e da criação. E lança propostas como a criação de um "Observatório eclesial da deficiência" — um organismo internacional que serve de modelo para entidades semelhantes em nível diocesano, nacional e regional. E difunde boas práticas como a inclusão, em órgãos participativos, de pessoas vulneráveis, mulheres ou pessoas vindas de territórios atingidos por guerras e mudanças climáticas. É o que consta no Relatório Final do Grupo de Estudos nº 2, "Escutar o grito dos pobres e da terra", publicado pela Secretaria Geral do Sínodo, juntamente com o Relatório da Comissão SCEAM (Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar) sobre "O desafio pastoral da poligamia".

Como se sabe, dez Grupos de Estudos foram criados pelo Papa Francisco para aprofundar questões e temas que emergiram durante o Sínodo sobre a Sinodalidade. Esse processo foi retomado por Leão XIV, que solicitou que os textos entregues à Secretaria do Sínodo fossem tornados públicos em um "espírito de transparência". Os Grupos, tendo apresentado seus relatórios, dessa forma concluem seu mandato e são considerados dissolvidos. Até o momento, três Grupos apresentaram seus relatórios à Secretaria do Sínodo: o Grupo 3 sobre a missão no ambiente digital; o Grupo 4 sobre a revisão da Ratio para a formação de sacerdotes; e o Grupo 5 sobre a participação das mulheres na vida da Igreja.

Agora, é divulgado o texto do Grupo 2: inicia-se com uma introdução do Cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, e, em cerca de quarenta páginas, apresenta o caminho e o método, articula respostas e recomendações sobre como promover uma Igreja cada vez mais capaz de escutar esse duplo grito. "Escutar o grito dos pobres e da terra significa seguir a Cristo, porque 'tudo o que fizestes a um desses meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes' (Mt 25,40)", escreve Czerny. "Além disso, esses gritos são dirigidos a todos os cristãos, inclusive àqueles que se sentem pobres ou são percebidos como tais pelos outros. Eles também são chamados a se perguntar: 'Como posso escutar melhor o grito dos pobres/da terra?'" Isso porque os cristãos olham para os pobres "não apenas em termos do que lhes falta, mas como 'portadores de esperança' e 'construtores de um destino comum'", enfatiza o cardeal. “Os pobres devem participar ativamente, como protagonistas, das respostas cristãs aos seus gritos e aos da terra”.

Dessa forma, o relatório recomenda a inclusão de pessoas pobres e vulneráveis em órgãos participativos, bem como a nomeação de teólogos de comunidades pobres — com vistas ao seu envolvimento na elaboração de documentos magisteriais — e a facilitação do acesso à formação teológica para leigos — como mulheres de comunidades marginalizadas. As recomendações, elaboradas graças a um articulado processo de escuta e discernimento, estruturam-se em torno de cinco questões fundamentais: os meios existentes e os novos para a escuta; a conexão entre a comunidade cristã e o serviço da caridade, da justiça, do desenvolvimento e da ecologia integral; as iniciativas de rede e defesa de direitos; a promoção de uma pesquisa teológica que saiba escutar a experiência dos pobres e as feridas da terra; e a formação para a escuta dos pobres e da terra.

As recomendações variam desde o incentivo a utilizar a nova Missa para o Cuidado da Criação até a criação de plataformas online para o compartilhamento de boas práticas (como a Laudato si' Action Platform), da formação na doutrina social da Igreja para aqueles que empenhados no ministério e na defesa social, até a promoção de programas de formação para leigos, religiosos e seminaristas capazes de integrar o encontro direto com as periferias existenciais. A competência na escuta deve ser entendida como disciplina espiritual (e não apenas técnica) e análise social. Em suma, aquela que se pretende promover é uma visão de uma Igreja sinodal que não se limite a construir "estruturas para a escuta", mas que é ela própria um instrumento de escuta, tornando cada um de seus membros uma presença missionária junto aos pobres, aos frágeis e aos vulneráveis.

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