A mais recente mudança de posição de Trump sobre o Irã: mediadores misteriosos, contatos preliminares e acordos não especificados

Foto: Molly Riley/White House/Flickr

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25 Março 2026

“Nenhum dos lados tem capacidade para fazer o outro mudar de posição”, alertou o ex-secretário de Defesa republicano Jim Mattis, em meio à incerteza sobre o resultado das negociações.

A informação é de Macarena Vidal Liy, publicada por El País, 24-03-2026.

Na noite de domingo, Donald Trump estava prestes a atacar as usinas nucleares do Irã, conforme ameaçara caso Teerã não abrisse o Estreito de Ormuz. Na segunda-feira, essa passagem marítima estratégica permanecia praticamente fechada. Mas o presidente americano anunciou que agora se concentraria na diplomacia e em negociações com um misterioso político iraniano. "Eles querem fechar um acordo, e nós vamos fazer com que isso aconteça", prometeu, após conceder uma prorrogação de cinco dias ao seu ultimato. "Há uma possibilidade muito real." A pressão de seus aliados do Golfo e os temores de um colapso do mercado o levaram à mais recente de uma série de mudanças abruptas em relação à guerra — ora beligerante, ora prevendo uma paz iminente — em 24 dias de sua ofensiva. Mas essa última mudança de postura não implica necessariamente em melhores perspectivas para o fim do conflito.

“Estamos numa situação muito complicada e não consigo identificar nenhuma opção viável, mesmo com um grupo de navios com cerca de 2.500 fuzileiros navais a bordo a caminho do Golfo” para se juntar à frota já posicionada lá, declarou o ex-secretário de Defesa de Trump, general reformado Jim Mattis. “Se tivéssemos três agentes racionais, poderíamos dizer que estamos num impasse ou que haverá uma escalada, porque nenhuma das partes envolvidas tem atualmente a capacidade de fazer a outra mudar de posição”, analisou ele nesta segunda-feira na conferência de energia CERAWeek, em Houston.

O que Trump descreve como conversas parecem ser, ao que tudo indica, meros contatos preliminares, trocas de mensagens por meio de intermediários, e com um resultado em que poucos — além do ocupante da Casa Branca — ousam apostar contra o tempo.

Também não está claro até que ponto ele próprio confia na via diplomática. Segundo o New York Times, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman está pressionando Trump para que continue a guerra contra o Irã, argumentando que a ofensiva EUA-Israel representa uma “oportunidade histórica” para remodelar completamente o Oriente Médio. O jornal relata que o líder saudita argumenta que o Irã representa uma ameaça de longo prazo para os países do Golfo, ameaça essa que só pode ser eliminada por meio de uma mudança de regime.

Mas esses contatos iniciais são o primeiro caminho concreto que o Partido Republicano está abrindo para pôr fim a um conflito que, com o Estreito de Ormuz fechado, está se tornando muito mais complicado.

Diversos países — Turquia, Egito e Paquistão, uma das poucas nações do Indo-Pacífico com boas relações tanto com Washington quanto com Teerã — estão tentando diminuir a distância entre os dois adversários. O chefe de gabinete do PaquistãoAsim Munir, conversou com Trump no domingo. Enquanto isso, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, conversou com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, na segunda-feira. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, revelou que havia conversado com Trump sobre a situação no Golfo na terça-feira. O presidente americano compartilhou nas redes sociais uma mensagem de Sharif oferecendo a Índia como palco "para facilitar conversas significativas e conclusivas para um acordo abrangente" que ponha fim ao conflito.

Segundo o portal de notícias Axios, o vice-presidente JD Vance conversou com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sobre os componentes de um possível acordo. O presidente Trump afirmou que os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner estão em contato com uma figura iraniana não identificada desde sábado. Veículos de imprensa dos EUA afirmam que o interlocutor é o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, alegação que ele negou nas redes sociais.

Em busca de um novo líder

Segundo a publicação online Politico, Washington está analisando Qalibaf como um possível novo líder iraniano, na esperança de finalmente encontrar uma figura que possa desempenhar na República Islâmica o mesmo papel que Delcy Rodríguez desempenhou na Venezuela: um representante do regime que aceite as ordens dos Estados Unidos em troca de assumir o poder e garantir que o restante das estruturas de comando permaneça intacto.

Para Trump, encontrar uma saída para o impasse que ele mesmo criou ao ameaçar intensificar a guerra está se tornando cada vez mais atraente. Os custos estão aumentando, forçando o Pentágono a solicitar ao Congresso mais US$ 200 bilhões: o custo militar foi de US$ 16,5 bilhões nos primeiros 12 dias da guerra e está aumentando em US$ 500 milhões por dia, segundo cálculos do think tank CSIS. A guerra é profundamente impopular entre os americanos, e comentários como os do senador Lindsey Graham, aliado de Trump, não estão ajudando a melhorar a opinião pública: neste domingo, ele comparou a possibilidade de tomar a estratégica ilha iraniana de Kharg à Batalha de Iwo Jima, na Segunda Guerra Mundial, na qual cerca de 6.800 soldados americanos foram mortos e outros 20 mil ficaram feridos.

Apesar dos efeitos positivos do anúncio de segunda-feira, os mercados permanecem nervosos e os preços da gasolina continuam altos, algo que pode custar caro ao Partido Republicano nas eleições de meio de mandato de novembro, quando o controle do Congresso estará em jogo.

Seus aliados árabes no Oriente Médio o alertam sobre as graves consequências de uma escalada do conflito. Um Irã com sua infraestrutura básica devastada poderia levar anos para retornar à normalidade, custar dezenas ou centenas de milhões de dólares para ser reconstruído e se tornar permanentemente uma fonte de instabilidade na região.

“Há um enorme descontentamento entre os Estados do Golfo, que foram arrastados para esta situação sem consulta prévia, sem tempo para se prepararem melhor, e a ideia de que tinham diante de si um futuro estável, no qual as suas sociedades e investimentos prosperariam, foi posta em causa”, declarou Mattis no congresso de energia em Houston, na sequência do conflito.

Trump não pode declarar uma vitória unilateral e se retirar do conflito porque o Irã poderia continuar as hostilidades ou manter o controle sobre o Estreito de Ormuz. Essa possibilidade criaria enormes problemas para seus aliados no Golfo Pérsico, segundo Mattis.

“Para Trump recuar, ele precisa poder dizer que venceu e precisa acreditar nisso. Mas, à medida que essa guerra se arrasta e fica claro que é um desastre, sua capacidade de declarar vitória e se retirar diminui. Há uma janela de tempo muito curta para Trump encontrar uma saída para essa guerra, e isso significa que ele precisa estar disposto não apenas a dizer que conversou com os iranianos, mas também a colocar propostas na mesa, como o levantamento das sanções”, explica Trita Parsi, cofundador do Quincy Institute for Responsible Statecraft.

O que Trump tem em mente em suas negociações com o Irã, como ele mesmo indicou na segunda-feira, é um acordo de 15 pontos, semelhante em formato ao acordo de 20 pontos alcançado sobre Gaza em outubro passado. Entre esses pontos, o Irã "concordou em não possuir armas nucleares", declarou o presidente na segunda-feira. Uma minuta dessa proposta já foi entregue a Teerã por meio de mediadores, segundo a CBS.

Não está claro como a proposta dos EUA será recebida. Por ora, o Irã tem poucos incentivos para ceder sem concessões significativas. Sabe que controlar o Estreito de Ormuz lhe confere uma poderosa vantagem. E já começou a colher os frutos: na última sexta-feira, os Estados Unidos suspenderam parcialmente algumas sanções ao seu petróleo offshore.

“É claro que existe o risco de os iranianos serem espertos demais e não perceberem a hora de desistir e encerrar a guerra. Nenhum dos lados pode se dar ao luxo de humilhar o outro nesta guerra. Se o fizerem, só se afundarão ainda mais. Ambos os lados precisam ser capazes de construir algum tipo de narrativa que lhes permita terminar esta guerra. Nesse sentido, por mais improvável que pareça, o Irã e os Estados Unidos estão, de certa forma, no mesmo barco: ou afundam juntos ou remam juntos para a segurança”, destaca Parsi.

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