O pesquisador e autor do livro Plantas Sapiens nos desafia a pensar com empatia para expandir nossas formas de compreender e perceber o mundo
Aprendemos desde a infância que os animais, especialmente os da nossa própria espécie, são seres privilegiados, pois possuem um cérebro, ou seja, um sistema nervoso central. Com isso olhamos para os reinos vegetal e mineral com uma certa autocomplacência, como quem olha de cima para baixo e os vê como inferiores. Entretanto, a virada vegetal, que abarcada desde a fisiologia e filosofia das plantas, passando pela dimensão estética como a poesia, desafia-nos a pensar bom base em outros paradigmas. “Estudar as plantas, eu acho, nos dá uma dose de humildade. Permite-nos ser mais humildes e perceber a riqueza e a variedade de formas que a vida pode assumir, além de nossas fronteiras antropocêntricas. Estudar plantas é um bom ponto de partida para percebermos que não somos tão especiais assim”, aponta o professor e pesquisador espanhol Paco Calvo, em entrevista por videochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
“Compreender as plantas como sujeitos, como agentes, com seus próprios interesses, suas próprias intenções, e como agentes que interagem com o mundo para atingir seus fins, para alcançar seus objetivos. Isso é algo que a neurobiologia vegetal nos oferece, algo que não tínhamos antes”, acrescenta Calvo, autor de Planta sapiens: descubre la inteligencia secreta de las plantas (Barcelona: Seix Barral, 2023). “Portanto, todo o trabalho com plantas sugere que não é necessário ter neurônios, não é necessário ter um sistema nervoso central, não é necessário se mover, não é necessário ser um animal para ser inteligente, para ter uma mente. Mas o mais importante é que, uma vez que entendemos como as plantas conseguem fazer o que fazem à sua maneira, isso nos permite repensar se estávamos certos, porque nos convida a repensar a maneira como fazemos as coisas”, completa.
No fundo, pensarmos sobre o que seria um pensamento das plantas, ou tecnicamente falando um sistema fitonervoso, é um convite para um despertar sobre nossa consciência e condição humana. “A questão pertinente, relevante e mais filosófica é o que significa emergir da anestesia. Quero dizer, quando você emerge da anestesia, ou quando uma planta emerge da anestesia, o que ela recupera? Recupera algo que você havia perdido temporariamente? Recupera sua experiência subjetiva, sua capacidade de viver? Bem, acho que essa é a questão que o livro explora. A questão relevante é se podemos emergir da anestesia — da anestesia cultural, midiática e política — e nos tornarmos conscientes do que nos rodeia”, ressalta.
Paco Calvo (Foto: Universidade de Múrcia)
Paco Calvo é professor catedrático de Filosofia da Ciência na Universidade de Murcia, na Espanha, onde dirige o Laboratório de Inteligência Mínima (MINT Lab), com foco no estudo da cognição mínima em plantas. Seu trabalho interdisciplinar combina conhecimentos de biologia, filosofia e ciência cognitiva para explorar o fascinante mundo do comportamento, da tomada de decisões e da resolução de problemas em plantas. É autor de Planta sapiens: descubre la inteligencia secreta de las plantas (Barcelona: Seix Barral, 2023).
IHU – Por que devemos olhar para as plantas? O que podemos aprender com elas?
Paco Calvo – Bem, não é que devemos simplesmente observar as plantas ou podermos estudá-las porque temos ferramentas que não tínhamos até recentemente. Por exemplo, em nosso laboratório fazemos fotos em time-lapse e isso nos permite estudar o comportamento das plantas. Agora pense em Darwin no século XIX. Essa ferramenta não estava disponível. Então, agora, temos muitas técnicas para monitorar a atividade das plantas, como a eletrofisiologia. Temos técnicas de inteligência artificial, aprendizado de máquina, técnicas de computação muito sofisticadas e tudo isso nos faz perceber outras coisas neste “momento é oportuno”. O “the time is right”, como se diz em inglês. É o momento certo para trabalhar e tentar entender as plantas de uma maneira que até agora era impossível.
Então, por que deveríamos estudá-las? Uma coisa é a questão prática de termos as ferramentas que tornam isso possível. A outra é a questão de como e por que deveríamos estudá-las, de certa forma independentemente das ferramentas que possuímos. E isso é importante porque, pense bem, uma das coisas que discuto em meu livro Planta sapiens: Descubre la inteligencia secreta de las plantas, é que precisamos repensar o papel que os humanos desempenham na Terra. Não somos uma espécie privilegiada — estou me referindo ao homo sapiens, não temos nenhuma patente exclusiva sobre a inteligência. Portanto, estudar as plantas, eu acho, nos dá uma dose de humildade. Permite-nos ser mais humildes e perceber a riqueza e a variedade de formas que a vida pode assumir, além de nossas fronteiras antropocêntricas. Estudar as plantas é um bom ponto de partida para percebermos que não somos tão especiais assim.
IHU – Do que se trata a ideia da neurobiologia das plantas e como você a descobriu?
Paco Calvo – Sim, veja bem, a neurobiologia vegetal é um campo de estudo fascinante porque se concentra na compreensão das plantas, não a partir da perspectiva da fisiologia vegetal. Afinal, a fisiologia vegetal já explica boa parte do funcionamento das plantas, certo? Como fisiologista vegetal, posso aprender sobre fotossíntese, respiração celular, como o estômago de uma planta se abre e fecha — todo o trabalho da fisiologia já está lá.
Na verdade, podemos até saber que as plantas desencadeiam a fotoconcentração, assim como os neurônios. Ou seja, a eletrofisiologia já está presente. O que a neurobiologia vegetal, como campo de estudo, acrescenta é uma abordagem para a compreensão das plantas a partir da perspectiva da ciência cognitiva, o estudo da cognição, o estudo da mente, da inteligência. Na neurobiologia vegetal, por exemplo, pensamos no sistema fisiológico de uma planta não de uma perspectiva estritamente fisiológica, mas entendendo a planta como um sistema de processamento de informações.
Quando falamos de processamento de informações em animais, pensamos em um animal. Se eu estudo um rato de laboratório, um animal, não penso — se estudo o rato fisiologicamente, posso me concentrar no sistema circulatório, no sistema respiratório, no sistema musculoesquelético — mas nos esquecemos de pensar no rato como um agente, como um sujeito que processa informações para atingir fins, para alcançar objetivos. Essa perspectiva, aplicada às plantas, é o que a neurobiologia vegetal nos proporciona.
Compreender as plantas como sujeitos, como agentes, com seus próprios interesses, suas próprias intenções, e como agentes que interagem com o mundo para atingir seus fins, para alcançar seus objetivos. Isso é algo que a neurobiologia vegetal nos oferece, algo que não tínhamos antes.
IHU – Por que, em uma via retroflexa, é importante pensar sobre nossas mentes através de outras formas de compreensão e não apenas de uma perspectiva antropocêntrica?
Paco Calvo – Veja bem, como eu disse no início, isso nos permite perceber que não somos tão especiais assim. Mas, atenção, não é que as plantas — para mim, este é o ponto importante — façam as coisas de forma diferente, de maneira descentralizada, por exemplo. As plantas são sistemas que funcionam na dinâmica de "dividir para conquistar".
As plantas são sistemas altamente descentralizados. Elas não têm órgãos vitais localizados em um ponto específico e é por isso que conseguem viver e sobreviver, mesmo estando enraizadas e sem poder se mover. Existe uma perspectiva interessante e isso é algo que discuto em Plantas Sapiens.
Uma delas é entender as plantas, como já mencionamos, como sistemas agentes que processam informações. Mas há outra mensagem, ainda mais importante: ao entendermos as plantas, podemos repensar a nós mesmos. Porque talvez o que possamos aprender é que nós, como Homo sapiens, também somos mais descentralizados do que pensávamos. E percebemos isso porque temos a ilusão de que há alguém no controle (nossa consciência), mas pense na microbiota intestinal – pensando no eixo intestino-cérebro – que é um exemplo claro desse estado descentralizado.
Portanto, todo o trabalho com plantas sugere que não é necessário ter neurônios, não é necessário ter um sistema nervoso central, não é necessário se mover, não é necessário ser um animal para ser inteligente, para ter uma mente. Mas o mais importante é que, uma vez que entendemos como as plantas conseguem fazer o que fazem à sua maneira, isso nos permite repensar se estávamos certos, porque nos convida a repensar a maneira como fazemos as coisas. Em outras palavras, podemos aprender sobre plantas aquáticas, sobre a inteligência das plantas, mas também repensar o arcabouço teórico para melhor compreender no que consiste nossa própria inteligência.
IHU – E como essa perspectiva desafia o naturalismo, isto é, a forma ontológica característica do pensamento moderno?
Paco Calvo – Bem, eu diria que ela desafia uma ontologia reducionista. Ou seja, uma visão ontológica, como um modelo de boneca russa, uma boneca dentro da outra, certo? Imagine que temos uma compreensão reducionista e mecanicista da biologia molecular. Por exemplo, você é composto de órgãos, esses órgãos são compostos de tecidos, esses tecidos são compostos de células, essas células são compostas de moléculas, essas moléculas são compostas de átomos, esses átomos são compostos de partículas subatômicas. O que ocorre mais comumente é que essa visão ontológica, baseada em um modelo mecanicista, cria a ilusão de que compreendemos o “mecanismo” por completo, mas quando desmontamos vemos do que ele é realmente feito.
Acredito que uma visão ecológica que considera a planta de forma holística, permite-nos repensar até que ponto a ontologia que a ciência moderna nos permitiu construir, embora tenha feito grandes progressos, não nos fornece 100% do que precisamos. Porque em biologia molecular — quando falamos de biologia molecular e celular, quando falamos de bioquímica, quando falamos de fisiologia — somos capazes de compreender um mecanismo, mas o separamos de seu contexto econômico. E somente questionando essa ontologia reducionista podemos nos compreender e às plantas como agentes integrais de um ambiente ecológico.
Foi isso que James Lovelock disse quando falou sobre a Teoria de Gaia, no nível da biosfera: há uma coisa sobre a qual a biologia molecular nos permite saber cada vez mais, e cada vez menos. Sabemos cada vez mais sobre sobre cada detalhe, mas cada vez menos sobre o todo. Em outras palavras, você pode colocar tecido vegetal em uma placa de Petri, observá-lo ao microscópio e obter um vasto conhecimento sobre os detalhes moleculares, mas perder o fenômeno em si porque ao ver a placa, deixa de ver o tecido em seu ambiente.
IHU – Nesse sentido, como as plantas nos convidam a ver o mundo além do nosso próprio umbigo?
Paco Calvo – Considere que, se enxergarmos as plantas como agentes com comportamento adaptativo, flexível, antecipatório e orientado a objetivos, entendemos que esses são todos critérios que para qualquer organismo vivo seja considerado inteligente. Perceba, esses critérios não exigem que você pertença ao reino animal, que tenha neurônios ou que se mova. As plantas, veja bem, permitem-nos entender o que compartilhamos na árvore da vida. Não somos membros do reino animal, mas sim de qualquer forma de vida.
Se você pensar bem, isso vai além de ser uma planta. Pode ser, até mesmo, uma bactéria, um organismo unicelular. Se algo tem comportamento adaptativo, flexível, antecipatório e orientado a objetivos, podemos dizer que é um organismo inteligente.
Então, o que descobrimos é uma chave mestra (uma chave de leitura) que nos permite abrir qualquer ramo da árvore da vida. E ao abrir qualquer ramo da árvore da vida, observando o que são os universais. Há algo que todos compartilhamos que transcende, que vai além de pertencer a um reino. Não tem nada a ver com pertencer ao reino animal ou ao reino vegetal. Para mim, o fundamental é que, ao observarmos o que compartilhamos em toda a árvore da vida, o simples fato de estarmos vivos nos permite transcender fronteiras, sobretudo entre os reinos.
IHU – Os povos indígenas ao redor do mundo geralmente têm uma relação mais próxima com o mundo vegetal do que nós, os chamados civilizados. Por que é relevante aprendermos sobre outras cosmologias, e não apenas a ocidental?
Paco Calvo – Bem, é absolutamente relevante. Porque, em vez de olhar para uma placa de Petri com um microscópio, o conhecimento indígena tradicional nos dá a capacidade de ver todo o contexto, toda a estrutura. Não estamos olhando para uma boneca russa para ver o que há dentro, mas sim buscando as inter-relações. Todo o conhecimento que a sabedoria relacional proporciona é um conhecimento que se soma, ou seja, é um conhecimento complexo.
Não se trata de uma substituição; não se trata de dizer que um tipo de conhecimento substitui o outro, mas sim que eles são complementares, que nos dão uma visão complementar. O importante é somar. Se as encararmos como cosmologias rivais, estaremos nos prejudicando, pois elas devem ser entendidas como cosmologias complementares.
IHU – Como é possível pensar sem um cérebro?
Paco Calvo – Imagine que você fosse outra forma de vida, certo? Você não é um indivíduo da espécie Homo sapiens. Você faz o que faz. Pense, agora, na humanidade como outro substrato, outra materialidade. E se conversássemos entre nós sobre essa outra espécie e disséssemos: "Homo sapiens, como vocês conseguem pensar com um cérebro?" Entende? Propor o desafio de explicar como uma planta pensa sem um cérebro, nos faz esquecer que a forma como pensamos com um cérebro continua sendo um mistério.
Pensar que existe um mistério, um desafio em explicar que as plantas podem ter suas próprias mentes, nos faz esquecer que também é para nós um mistério como nosso próprio cérebro nos permite pensar. Nós também não entendemos. Em outras palavras, é igualmente misterioso. Temos a ilusão de que temos mais conhecimento no caso humano, mas não temos. Continua sendo um mistério absoluto. Como surge a consciência, como surge a subjetividade, como surgem nossas experiências? Não temos ideia de como elas emergem da matéria.
IHU – O que são os sistemas fitonervosos?
Paco Calvo – Quando falamos do sistema fitonervoso em plantas, estamos nos referindo à sinalização eletroquímica, especificamente ao sistema vascular. O sistema vascular da planta, o xilema e o floema, são os tubos pelos quais circulam os açúcares da fotossíntese (floema), os nutrientes ou água que viajam das raízes para as áreas sombreadas pelo xilema.
Esses condutos têm sido tradicionalmente compreendidos na fisiologia como se fossem as rodovias pelas quais solutos, nutrientes, água e açúcares são transportados. No entanto, da perspectiva da neurobiologia vegetal, entendemos esse sistema (o sistema vascular), como um sistema fitonervoso, na medida em que é um sistema de processamento de informações bioelétricas. Portanto, nas plantas, existem fluxos de informação que assumem a forma de transmissão de impulsos elétricos, assim como no sistema nervoso de um animal.
Assim como nossos neurônios disparam potenciais de ação — um potencial de ação em um neurônio é um tipo de impulso elétrico —, o mesmo acontece nas plantas. Existem potenciais de ação e, na verdade, existem vários tipos de potenciais elétricos. Os potenciais elétricos nas plantas podem ser potenciais de ação, potenciais de variação ou potenciais sistêmicos. Esses são diferentes tipos de impulsos elétricos que trabalham juntos para comunicar mensagens por toda a planta. Esse é o sistema fitonervoso da planta.
IHU – Há um conceito muito interessante no seu livro, que é a ideia de cognição ecológica. Como funciona?
Paco Calvo – Veja bem, quando falamos sobre uma cosmologia não reducionista, de que mencionamos anteriormente, estamos nos referindo à cognição ecológica. Com isso queremos dizer que o relevante não é o que está dentro do crânio, do cérebro, o que é relevante não é o que está dentro do organismo, mas sim o organismo dentro do qual ele existe. Essa é a ecologia. Compreender a inteligência ou a cognição não é algo que se possa fazer olhando para dentro da cabeça. O que se deve fazer é observar a cabeça dentro da qual ela existe. A cabeça existe em um contexto ecológico.
Somente olhando para fora do crânio podemos compreender, podemos explicar o que um organismo faz. Essa é uma visão antirreducionista. Não se deve decompor o organismo em partes para entender como ele funciona, mas tratá-lo de forma holística e integral com o ambiente que o cerca.
Isso é cognição ecológica. Um tipo de cognição que presta atenção à interação com o ambiente ecológico. Bem, também existe uma ideia muito interessante sobre a libertação das plantas. Do que se trata? Bem, isso deriva de uma referência que fizemos anteriormente. Era ao livro de Peter Singer, Libertação Animal, onde, claro, existe todo um movimento bioético que busca dar atenção especial ao abuso animal.
Temos que repensar nossa estrutura ética porque não podemos continuar a tolerar danos ou sofrimento em nossas interações com outros animais. Cada vez mais a sociedade civil, as comunidades, estão preocupadas com a forma como tratamos outros animais. No entanto, não temos uma estrutura ética especificamente projetada para como interagimos com organismos que não sejam animais.
Então, se uma planta é um ser inteligente, se uma planta é um ser senciente, se as plantas têm sua própria maneira de se posicionar no mundo, então a questão é pertinente. A questão da libertação das plantas em paralelo com a libertação dos animais é pertinente, o que significa simplesmente que não precisamos fazer nada diferente do que já fazemos, mas precisamos ser capazes de aplicar a mesma abordagem. Por exemplo, se no caso de maus-tratos a animais nos perguntamos como interagir com os animais evitando seu sofrimento, então também podemos nos perguntar como interagir com nosso ambiente vegetal de uma forma que evite estresse desnecessário.
Aplicar princípios éticos a formas de vida não neuronais. É um grande desafio, não é?
IHU – Professor, essas são as questões que sua pesquisa aborda, mas seu e-mail no agendamento da entrevista me levou a fazer uma pergunta que está no aviso legal sobre a Faixa de Gaza. Quero lhe fazer a pergunta que o senhor propôs: como podemos nos dedicar a entender se as plantas pensam ou sentem se não conseguimos nem mesmo demonstrar empatia básica pelas pessoas que estão sendo massacradas diante de nossos olhos?
Paco Calvo – Bem, de fato, essa é a pergunta que me faço em meu e-mail e, infelizmente, é uma pergunta para a qual não há resposta. Há uma resposta pragmática e, claro, ela tem a ver com a necessidade de desenvolver empatia.
Acredito que a chave é a empatia, e qualquer abordagem científica que nos permita entender ou testar novas maneiras de desenvolver essa empatia deve resultar em um benefício geral, independentemente de o ser com quem desenvolvemos essa capacidade de empatia ser humano ou não. Em outras palavras, a capacidade de empatia é como o desenvolvimento físico. Se você se exercita, vai à academia, pratica esportes, seus músculos estão preparados para qualquer atividade, mesmo que você não a faça de fato. Você tem potencial para realizar coisas se estiver fisicamente em forma.
A capacidade de empatia é semelhante. Trata-se de desenvolver a musculatura mental, exercitar a mente para ser capaz de ter empatia por qualquer forma de vida. Se pudermos desenvolver uma compreensão mais humana que nos permita, por exemplo, perceber tudo o que compartilhamos, então acredito que isso será benéfico na hora de projetar e extrapolar essa compreensão em nossos relacionamentos.
É verdade que é difícil ser otimista hoje em dia com todos os problemas do mundo e ainda assim sou uma pessoa otimista por natureza. Sou otimista e acredito que sim, tudo o que fazemos individualmente pode fazer a diferença. Muitas vezes não sabemos como ou se será imediatamente eficaz, mas qualquer coisa que envolva investir energia em projetos que não prejudiquem a sociedade é um pequeno passo na direção certa.
Quantos grãos de areia são necessários? Bem, certamente muito mais do que pensamos, mas sim, entendo a pergunta, e não é fácil respondê-la. Estes são tempos muito difíceis, mas tento ser otimista.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Paco Calvo – No livro Planta Sapiens há um bom exemplo para conectar com aquilo que nos deveria tocar, porque, no fundo, como sociedade, vivemos anestesiados. E é por isso que somos incapazes de sentir o sofrimento em tantos outros lugares. Anestesia é uma droga que nos incapacita, nos impede de ter capacidades sensoriais.
Entretanto, o que proponho em Planta Sapiens — é por isso que o livro começa com a ideia de anestesiar uma planta — é perceber que os princípios são os mesmos, que o mesmo anestésico que funciona para anestesiar a vida animal permite anestesiar a vida vegetal.
Para mim, a questão pertinente, relevante e mais filosófica é o que significa emergir da anestesia. Quero dizer, quando você emerge da anestesia, ou quando uma planta emerge da anestesia, o que ela recupera? Recupera algo que você havia perdido temporariamente? Recupera sua experiência subjetiva, sua capacidade de viver? Bem, acho que essa é a questão que o livro explora. A questão relevante é se podemos emergir da anestesia — da anestesia cultural, midiática e política — e nos tornarmos conscientes do que nos rodeia.