"Trata-se de um trabalho provocador, que nos instiga em avançar nas reflexões e ampliar nossos laços de compreensão do nosso tempo", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
O meu interesse pelo tema da vida e pela reflexão sobre Gaia vem de tempos. Em torno de 2014, quando li com interesse o livro de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro - Há mundo por vir? – essa atenção ganhou um novo vigor. Fiquei curioso para entender mais de perto a questão levantada por esses autores, com base na reflexão de Stengers, na abordagem de Gaia como intrusa. O nome Gaia, como indica Stengers, não implica necessariamente união, mas envolve intrusão e mal estar.
Na sequência ocorreu o espetacular evento coordenado por Viveiros de Castro, Os mil nomes de Gaia, ocorrido no Rio de Janeiro em 2014, e que resultou nos dois volumes publicados pela Editora Machado: Os mil nomes de Gaia (2022, vol.1 e 2023, vol.2). A obra nos coloca em contato com uma série de autores e temas que nos ajudam a ampliar o olhar sobre o tema. Dentre os nomes presentes: Isabelle Stengers, Bruno Latour, Donna Haraway, Viveiros de Castro, Vinciane Despret e tantos outros.
Na sequência vieram outros autores fundamentais na minha reflexão, envolvendo o interesse pelo tema do mundo abaixo de nós: esse maravilhoso mundo dos fungos, cogumelos, bactérias etc. Esse enriquecimento da reflexão veio igualmente favorecido pelos debates realizados na FLIP de 2021, a Festa Literária Internacional de Parati, cujo tema foi a literatura e as plantas. Entraram, assim, outros autores em meu repertório de reflexão, que foram fundamentais para a elaboração de dois dos capítulos de meu livro: Paisagens (Appris, 2024). Dentre os autores: Tim Ingold, Anna Tsing, Emanuele Coccia, Stefano Mancuso, Merlin Sheldrake e outros.
Agora venho mergulhando nos trabalhos de Lynn Margulis, nascida em 1938 em Chicago [1]. Estou apreciando suas reflexões, que são bem provocadoras. Ela foi casada com Carl Sagan (1934-1996), com quem teve um filho: Dorian Sagan (outro estudioso do tema) [2]. Depois voltou a se casar, desta vez com Thomas N. Margullis. Graças ao trabalho de Margulis, como aponta Vito Mancuso, podemos, sem temor, afirmar que a cooperação é o motor da evolução, e não competição[3]. A vida “não conquistou a Terra através da luta, mas através da cooperação”.
Margulis veio conhecida como uma “bióloga visionária”, uma árdua defensora da centralidade da simbiose na evolução das primeiras formas de vida. A seu ver,
“alguns dos momentos mais significativos da evolução resultaram da união – de forma permanente – de organismos diferentes. Os eucariotos surgiram quando um organismo unicelular engolfou uma bactéria, que continuou a viver simbioticamente dentro dele. As mitocôndrias eram descendentes dessas bactérias (...). Toda a vida complexa que se seguiu, inclusive a vida humana, foi uma história duradoura de 'intimidade de estranhos'”[4]
Os trabalhos de Margulis encontraram resistências na comunidade científica, sobretudo num primeiro momento. Em meados da década de 1970 ela passou a ter um maior reconhecimento. A teoria da endossimbiótica, defendida pela autora, significou, em verdade, “uma das mudanças mais profundas no consenso biológico do século XX” [5]. Ao final de sua vida, Margulis recebeu a acolhida devida, vencendo vários prêmios importantes, entre os quais 15 doutorados honoris causa de universidades das mais diversas partes do mundo [6].
Estou lendo os trabalhos de Lynn Margulis, e partilho aqui com vocês alguns dos títulos interessantes. Em português temos dois livros bem singulares: O que é vida – que ela publicou em parceria com seu filho, Dorian Sagan; Planeta simbiótico, trazendo um novo olhar sobre a evolução. Está para sair em italiano, agora em janeiro de 2026, outro livro dela, com seu filho, que promete: Microcosmo. Quatro bilhões de anos de evolução bacteriana. Também em italiano outro livro que aborda a hipótese Gaia de Margulis: Maurício Casiraghi e Telmo Pievani. Uniti per la vita: storie di simbiose e cooperazione.
Dada a singularidade e provocação advindas de uma obra particular de Lynn Margulis, Planeta simbiótico [7], partilho alguns passos importantes de sua abordagem, que dividi em alguns pontos. Não tive a pretensão de abranger toda o repertório de questões levantadas por ela, mas algumas que considero pertinentes para esse debate em torno do emaranhado da vida.
Um primeiro ponto levantado pela autora, que considero significativo, é o questionamento da centralidade humana. O ser humano não pode ser considerado o umbigo do universo, mas parte dele. É alguém que está inserido na teia da vida, sem nenhuma excepcionalidade particular. O antropólogo francês, Lévi-Strauss, já tinha levantado essa questão há um bom tempo, rompendo com essa ideia recorrente de que o ser humano ocupa um lugar “definitivo da verdade”, como o cume da evolução. Essa perspectiva, como mostrou Lévi-Strauss produziu um “humanismo pervertido”, que acabou por instalar uma barreira nefasta entre a humanidade e o resto do vivente, ou seja, uma ruptura entre o humano e a sua matriz natural [8].
O ser humano, como mostra Stefano Mancuso representa, na verdade, uma parcela mínima da biomassa (massa viva) do planeta. O mundo animal, onde o humano se insere, representa apenas 0,3% da biomassa, enquanto os outros seres vivos (plantas) traduzem 85% da biomassa [9].
Como apontou Margulis, os seres humanos não surgiram por ação milagrosa, mas são o resultado de “bilhões de anos de interação entre micróbios altamente responsivos” [10]. Para a cientista, a ideia de um ser humano responsável pela Terra tem algo de cômico, dada a complexidade do invólucro Terra. Na verdade, diz a autora, é a Terra que cuida de nós (PS, 159). O ser humano, sim, é um animal que tem a grave responsabilidade de cuidar de si mesmo. Nada mais nocivo, segundo a autora, do que a arrogância humana, como se sua espécie fosse “escolhida” ou “brindada” com o dom da excepcionalidade. O planeta, como mostra Margulis,
“não é humano, tampouco pertence aos seres humanos. Nenhuma cultura humana, a despeito de sua inventividade, pode acabar com a vida neste planeta, mesmo que tentasse. A Terra é mais um gigantesco conjunto de ecossistemas em interação do que um único ser vivo, e como fisiologia reguladora de Gaia ela transcende todos os organismos individuais. Os seres humanos não são o centro da vida, e nenhuma outra espécie o é” (OS, 166-167)
Os humanos não são os donos da Terra, nem seus habitantes mais nobres. Eles são, na verdade, “seus inquilinos mais desagradáveis e inoportunos” [11]. Sua chegada à Casa Comum, que é a Terra, ocorreu a apenas 300 mil anos, enquanto a história da vida remonta a 3,8 bilhões de anos. A verdade é que a vida na Terra já estava em curso há bem tempo antes, florescendo e se reproduzindo a cerca de 1,1 bilhão de anos depois do surgimento da Terra. (OS, 107).
E a vida nasceu no mar. Daí ser pertinente dizer que uma das melhores descrições da vida é a “água animada” (OS, 154). O movimento da evolução começou na água:
“As plantas fizeram a passagem para a terra recriando em seu ambiente úmido e conservando-o dentro de si mesmas. As árvores são prolificamente competentes em reter água, passa-la para a terra e controla-la pela evapotranspiração. Com suas redes ramificadas de tecidos fortalecidos pela celulose e pela lignina, as árvores são, é claro, plantas vasculares” (OS 155).
E essa vida que surgiu é um sistema complexo e amplo, marcado por incrível interdependência de matéria e energia. E todos dependendo uns dos outros. Lá na origem temos a presença das bactérias, com sua incrível evolução química e social. Ao contrário do que entendiam os estudiosos em meados do século XIX, as bactérias, líquens e fungos são hoje situadas em reinos específicos, não mais se enquadrando entre as plantas.
O que podemos observar de fato na textura do mundo é a presença dinâmica de um emaranhamento, marcado por trilhas sempre entrelaçadas [12]. A vida que evoluiu no mar e ganhou cidadania na terra, precisou de angariar potentes recursos para lidar com a nova e hostil terra firme. Para o sucesso da vida foi de fundamental importância o caminho da interdependência e do respeito à biodiversidade. O exemplo da resiliência dos fungos é exemplar. O que os caracteriza é a criatividade, a flexibilidade e o dom de colaboração. Os fungos, como aponta Sheldrake em seu trabalho, “são sobreviventes veteranos das perturbações ecológicas. Sua capacidade de perseverar – e muitas vezes prosperar, em períodos de mudanças catastróficas, é uma de suas características definidoras” [13]. Eles são “preeminentes no reino dos habitantes da terra”, e têm um potencial de paciência que encanta: sua paciência
“excede em muito a de qualquer outro santo. Eles se sentam e esperam e, quando a umidade reaparece, assumem o comando. A maioria dos fungos forma intrincadas redes micelianas, emaranhados de tubos de alimentação cheios de citoplasma. Sozinhos, de comum acordo com as algas na forma de líquens ou com raízes de plantas na forma de micorrizas, eles conquistaram a terra e se multiplicaram” (PS, 155).
Margulis reitera em sua obra esse poder de resistência desses seres invisíveis às adversidades, com criatividade única para sobreviver mediante compromissos evolutivos simbióticos. Nesses três bilhões de anos de história, esses organismos singulares resistiram “a numerosos impactos iguais ou maiores que a detonação de todas as 5 mil bombas nucleares atualmente em estoque. A vida, sobretudo bacteriana, é flexível. Ela se alimenta do desastre e da destruição desde o início” (OS, 167). E hoje percebemos com maior clareza esses pequenos organismos, dentre fungos, cogumelos e plantas, que são dotados de extraordinária cognição, ou seja, de “comportamentos sofisticados que nos levam a repensar o significado de 'resolução de problemas', 'comunicação', 'tomada de decisão', 'aprendizado' e 'memória'”[14].
Junto com James Lovelock, a cientista Lynn Margulis, esteve na base da reflexão sobre a hipótese Gaia, cuja primeira enunciação pública ocorreu em 1969, vindo a se firmar em 1974. Como aponta Margulis, essa hipótese lança uma compreensão da Terra como “um corpo mantido por complexos processos fisiológicos”, por interação criativa de organismos, sempre em movimento. Gaia,
“é um fenômeno antigo. Trilhões de seres se acotovelando, acasalando e transpirando compõem seu sistema planetário. Gaia, uma megera inflexível, não está de forma alguma ameaçada pelos seres humanos. A vida planetária sobreviveu pelo menos 3 bilhões de anos antes que a humanidade fosse o sonho de um lépido símio com um desejo por uma parceira relativamente sem pelos” (OS, 165).
Tanto na perspectiva aberta por Margulis como na visão de Isabele Stengers, Gaia não vem pensada só numa perspectiva positiva e acolhedora, mas ela é também uma “intrusa” que introduz mal estar [15]. Para Stengers, Gaia é “aquela que faz intrusão”, dotada por uma “cega e implacável transcendência” [16]. Com base em tais reflexões podemos entender Gaia como um fenômeno que não pode ser identificado ou confinado em categorias morais, seja como cruel ou bondosa. Rompem, assim, com a ideia de Gaia como uma mãe que nos acalenta. Em verdade, Gaia não se enquadra nesses perfis, mas conforma-se a uma figura “ambígua e complexa”, muitas vezes inflexível. Trata-se de “personagem-chave para a compreensão do significado do 'tempo de catástrofes' que é o nosso” [17].
Ao final da leitura desse precioso livro de Lynn Margulis, Planeta simbiótico, saímos munidos de uma série de questões e interrogações. Trata-se de um trabalho provocador, que nos instiga em avançar nas reflexões e ampliar nossos laços de compreensão do nosso tempo. Concluo com uma citação mais longa da autora, com a qual ela conclui a sua obra:
“Nós, seres humanos, somos exatamente como nossos colegas de planeta. Não podemos dar um fim à natureza; só representamos uma ameaça a nós mesmos. A ideia de que podemos destruir todas as formas de vida, inclusive as bactérias que vicejam nos tanques d'água das usinas nucleares ou dutos ferventes, é absurda. Ouço nossos irmãos não humanos rindo baixinho: 'Nós sobrevivemos perfeitamente antes de conhecer vocês, vamos continuar sobrevivendo agora sem vocês', cantam para nós em harmonia. A maioria deles, os micróbios, as baleias, os insetos, as plantas de sementes e os pássaros, ainda está cantando. As árvores da floresta tropical cantarolam consigo mesmas, esperando que terminemos nosso desmatamento arrogante para que possam voltar à velha rotina de crescimento. E elas continuarão suas dissonâncias e harmonias muito depois de termos ido embora” (OS, 178).
[1] Ela morreu em novembro de 2011.
[2] Veja: Dorian Sagan. Livro de seres invisíveis. Rio de Janeiro: Dantes, 2021.
[3] Tema igualmente abordado por Humberto Maturana: A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1997, p. 185.
[4] Merlin Sheldrake. A trama da vida. Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: UBU, 2021, p. 93.
[5] Ibidem, p. 94.
[6] Maurizio Casiraghi & Telmo Pievani. Uniti per la vita. Storie di simbiose e cooperazione. Bologna: Il Mulino, 2025, p. 44.
[7] Lynn Margulis. Planeta simbiótico. Um novo olhar para a evolução. 2 ed. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2022.
[8] Emmanuelle Loyer. Lévi-Strauss. São Paulo: Sesc, 2018, p. 560-561.
[9] Stefano Mancuso. Nação das plantas. São Paulo: UBU, 2024, p. 24; Id. A planta do mundo. São Paulo: UBU, 2021, p. 82.
[10] Lynn Margulis. Planeta simbiótico, p. 21. Na sequência essa obra será citada no texto corrido, com a sigla OS, seguida do número da página do livro.
[11] Stefano Mancuso. Nação das plantas, p. 11.
[12] Tim Ingold. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 120-121.
[13] Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 197.
[14] Ibidem, p. 25.
[15] Veja: Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis/São Paulo: Cultura e Barbárie/Instituto Sócio-Ambiental, 2014, p. 144-145.
[16] Isabelle Stengers. Gaia, a urgência de pensar (e sentir). In: Deborah Danowski; Eduardo Viveiros de Castro; Rafael Saldanha (Org.). Os mil nomes de Gaia. Do Antropoceno à Idade da Terra. Vol. 2. Rio de Janeiro: Editora Machado, 2023, p. 305.
[17] Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir ? p. 143.