O crepúsculo da brisa: entre o hospital de campanha e o retorno à fortaleza. Artigo de Dênis Cândido da Silva

Foto: Vatican Media

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20 Março 2026

"No fim das contas, para ser uma Igreja hospital de campanha a Igreja precisa acolher especialmente os vulneráveis e os que andam em busca de algum sentido para a vida. Ver é não ficar indiferente. Contemplar o sofrimento é se indignar. Para o Papa Francisco, 'com a dor humana não se pode ficar neutro'. Não existe neutralidade quando se anuncia o Evangelho e se opta preferencialmente pelos pobres. Ou se é solidário ou se é indiferente", escreve Dênis Cândido da Silva, padre da Diocese de Luz-MG e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE. 

Eis o artigo.

Com a morte do Papa Francisco ocorrida há quase um ano, no próximo dia 21 de abril celebraremos um ano de seu falecimento. Algo mais do que um pontificado parece chegar lentamente ao fim. Há uma gramática do poder no Vaticano que se expressa mais pelo silêncio do que pelas palavras. Os sinais recentes do pontificado do Papa Leão XIV sugerem o retorno ao substantivo estático. A brisa que abriu as janelas da Igreja parece encontrar agora o peso de dobradiças seculares que, por instinto de conservação, preferem o ar confinado da sacristia ao vento incerto da rua.

Durante o pontificado de Francisco, uma brisa leve soprou sobre o Vaticano. Não era uma tempestade, nem uma revolução ruidosa. Era apenas um vento suave que abria janelas, que teimavam em permanecer fechadas. Atualmente, há uma mudança climática na vida da própria Igreja, ou talvez, simplesmente uma mudança de rota do mesmo barco, que teima em não chegar a outras margens. O mais importante de tudo é saber qual será a “bússola” que guiará a Igreja de agora em diante.

Os gestos falam por si só, e alguns gestos recentes são percebidos por muitos como sinais de uma mudança de clima, ou uma mudança de estação. Dentre eles, destacam-se:

  • o retorno ao apartamento papal do Palácio Apostólico, abandonado pelo Papa Francisco em favor da simplicidade da Casa Santa Marta;
  • a mudança de missão do esmoleiro do cardeal Konrad Krajewski, tão ligado à presença concreta da Igreja junto aos pobres;
  • a decisão de suspender o tradicional lava-pés de presos na Quinta-feira Santa — gesto que havia se tornado um dos símbolos mais fortes do pontificado de Francisco;
  • o retorno da missa tradicionalista em latim ao Vaticano, conduzida pelo cardeal conservador Raymond Burke, um dos cardeais mais resistentes ao Papa Francisco.

Alguns observadores ainda apontam outros sinais na mesma direção: a retomada da residência papal de verão em Castel Gandolfo e o retorno a diversos símbolos tradicionais do pontificado, frequentemente interpretados como um movimento de retorno após o estilo pastoral inaugurado por Francisco. Os sapatos vermelhos estarão de fato banidos ou reaparecerão em algum momento? Talvez sejam apenas decisões administrativas, estéticas, ou não. Obviamente, não se trata apenas de uma mudança de quarto. O Papa Leão XIV desloca, com esse gesto, o eixo do olhar eclesial que até então era norteador. Ou não seria um novo-velho estilo? Francisco se esforçava constantemente para afastar de seu modo de ser e de agir tudo que reforçava o poder e a autorreferencialidade. Tratava-se de uma kenosis, um esvaziamento, de alguém que tinha consciência que a Igreja só existe para o serviço. A reforma proposta por Francisco não era somente institucional, mas também e sobretudo, comportamental.

Mas, para muitos teólogos, e eu partilho dessa ideia, esses sinais parecem indicar que o vento mudou. E quando o vento muda, muda-se também a direção. Aos poucos estamos voltando àquilo que com muito esforço conseguimos superar. Não é fácil abrir mão de certos paradigmas. Contudo, é necessário viver a “tensão da encruzilhada” para que o Evangelho não seja domesticado a bel-prazer. O movimento contemporâneo de retorno aos símbolos tradicionais, às residências de verão e ao protocolo rígido não é um detalhe logístico; é uma sinalização semiótica.

Os adjetivos usados por Francisco, “acidentada”, “ferida” e “enlameada”, representam uma Igreja sensível, humana, inquieta, que vai ao encontro das situações de sofrimento da humanidade. São adjetivos de uma Igreja profundamente misericordiosa e compassiva, ciente de sua missão. É uma Igreja que não é indiferente ao sofrimento. Francisco chama atenção para uma “despersonalização da pastoral que leva a prestar mais atenção à organização do que às pessoas” (EG, n. 82). Uma Igreja que prioriza mais a organização e a burocracia termina por não priorizar o cuidado com os mais vulneráreis. A excessiva preocupação com a instituição faz esquecer o cuidado com os mais pobres. Se a Igreja existe para evangelizar, ela existe primeiramente para cuidar, curar e consolar. Dessa forma, é compreensível a insistência do Papa Francisco na Evangelii Gaudium sobre a necessidade urgente de uma “salutar descentralização” (EG, n. 16) na Igreja.

Tal proposta chama a atenção para uma eclesialidade sensível que tem diante de si uma humanidade “cansada e abatida” (Mt 9,35-36), precisando de cuidado, atenção e carinho. A prioridade pastoral de todas as comunidades deveria ser sempre o cuidado com os fracos e pobres. Não se trata obviamente de descartar a instituição. Trata-se de prioridade. Uma Igreja com gestos e atitudes como os de Jesus de Nazaré, que enxergava a multidão e não lhe era indiferente. Não há nada mais contraditório para o Evangelho do que uma Igreja que anuncia o Evangelho e ao mesmo tempo, vive indiferente ao sofrimento. Qual é a dor do mundo que toca?

Para o Papa Francisco aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é justamente:

“A capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha... As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores, e não funcionários ou clérigos de Estado”.

A lógica da eclesiologia proposta por Francisco é a lógica vivida pelo próprio Jesus de Nazaré: sentir compaixão e cuidar. Francisco falava de uma Igreja “hospital de campanha”, apontando dessa maneira que a horizontalidade é mais importante do que a verticalidade, — uma Igreja que corre para as feridas do mundo antes de perguntar pelos documentos ou pelas regras canônicas.

Durante um tempo, parecia que essa imagem ganhava carne na vida da Igreja. O Papa Francisco entendia a Igreja como encontro: olhar nos olhos, escutar, abraçar, sorrir. Uma Igreja que não se fecha, mas que vai ao encontro de cada pessoa, onde ela se encontra.

O critério específico para uma Igreja que se afirma como hospital de campanha é deixar-se pautar por uma profunda sensibilidade. Existe uma grande multidão, muito maior do que aquela que acorria a Jesus, que também espera da Igreja um pouco de compaixão. Esperam serem vistos, tocados e curados. A fé cristã é tátil. “Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo prudente distância das chagas do Senhor. Jesus, no entanto, quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros” (EG, n.270).

A fé cristã tem que tocar a vida. A comunicação de que mais necessitamos é o toque. A fé cristã é uma fé ferida. Sem o tato não é possível compreender Jesus de Nazaré. Jesus é um mestre do tato. Os evangelhos estão cheios de toque. Jesus toca e é tocado. “Nascemos para estar em contato. E não somente em conexão”. É necessário um estilo evangelizador que seja sensível ao sofrimento humano. “O tato é o único sentido que a tecnologia não conseguiu substituir”.

No fim das contas, para ser uma Igreja hospital de campanha a Igreja precisa acolher especialmente os vulneráveis e os que andam em busca de algum sentido para a vida. Ver é não ficar indiferente. Contemplar o sofrimento é se indignar. Para o Papa Francisco, “com a dor humana não se pode ficar neutro”. Não existe neutralidade quando se anuncia o Evangelho e se opta preferencialmente pelos pobres. Ou se é solidário ou se é indiferente. A experiência do cristianismo supõe sempre uma tomada de posição, a escolha de um lado. A Igreja, mais do que qualquer outra instituição, deve ser especialista em ver, ouvir, sentir e cuidar.

É lícito perceber que o amor e a misericórdia eram categorias centrais da teologia e prática de Francisco. A misericórdia se apresenta como uma nova chave de leitura pastoral e eclesial. “A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EG, n. 114). O mundo de hoje é marcadamente frio e indiferente, assim, somente a misericórdia pode despertar a humanidade e os cristãos dessa frieza. Tudo em Francisco demonstrava e convidava a ser uma Igreja da misericórdia. Francisco inicia uma revolução da misericórdia.

Torna-se evidente que a teologia de Francisco não é dedutiva, de cima para baixo, mas de uma realidade que é superior à ideia (EG, n. 231-233), uma realidade dolorosa, carregada de sofrimento, indiferença e injustiça, de vítimas e pobres que gritam aos ouvidos cristãos. Diante desses lugares de dor, Francisco não reforça dogmas e doutrinas abstratas, mas com ternura e misericórdia, com abraços e afagos, revela que “Deus é amor” (1Jo 4,16). A humanidade ferida de hoje deseja uma Igreja que se sinta incomodada pelo seu sofrimento, assim como o próprio Jesus de Nazaré se sentia incomodado.

O que assistimos agora é o desmonte dessa estrutura. Os médicos, antes nas trincheiras, parecem retornar aos seus consultórios higienizados. A Igreja, em um movimento centrípeto, volta ao lugar onde sempre esteve: o centro de si mesma. O Sínodo dos Bispos, outrora promessa de uma caminhada conjunta e horizontal, corre o risco de ser reduzido a mais uma engrenagem na manutenção do status quo se a escuta for substituída pela imposição.

E, com isso, também parecem inverter-se novamente os princípios que Francisco havia colocado no coração da vida eclesial. Se para ele “o tempo era superior ao espaço”, aos poucos volta-se a parecer que “o espaço é superior ao tempo”, que é mais importante ocupar posições e reforçar poderes do que iniciar processos.

Se para Francisco “a realidade era superior à ideia”, lentamente volta-se a insinuar-se o contrário, a ideia volta a ser “superior à realidade”, e as estruturas parecem falar mais alto que a vida concreta das pessoas.

Se para Francisco “a unidade era superior ao conflito”, cresce novamente a tentação de resolver tensões simplesmente delimitando campos, reforçando fronteiras e escolhendo lados.

E se para Francisco “o todo era superior à parte”, volta a aparecer a lógica em que “a parte se sobrepõe ao todo”, e os fragmentos parecem disputar entre si o lugar do conjunto.

Pode ser que estejamos apenas diante de um movimento pendular da história, uma "mudança de estação" necessária para o equilíbrio institucional. Contudo, para a teologia, a brisa de Francisco não foi um acidente, mas um Kairós — um tempo de graça.

As janelas podem até se fechar, e as estruturas podem retomar sua rigidez antiga. Mas a memória do ar fresco é indelével. Uma vez que a Igreja experimentou a liberdade de ser menos alfândega e mais hospital, o desejo por esse oxigênio permanecerá vivo, guardado por aqueles que, em algum lugar, insistem em manter ao menos uma fresta aberta.

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