Nas origens da fé cristã, a extraordinária história das Sources Chrétiennes. Artigo de Giovanni Maria Vian

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14 Janeiro 2026

Trata-se da mais importante e difundida coleção de "fontes" cristãs, que agora soma 658 volumes. O arqueólogo Jean Pouilloux: "Era preciso uma fé profunda, uma grande confiança na causa, o intenso senso de uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma maneira de desafiar o desespero para lançar, em 1942, uma nova edição dos Padres da Igreja."

O artigo é de Giovanni Maria Vian, historiador e ex-diretor do L'Osservatore Romano, em artigo publicado por Domani, 11-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

São cinquenta "histórias mundiais" que acabam de ser documentadas em um livro da Maison de l'Orient et de la Méditerranée, uma instituição cultural sediada em Lyon que completou meio século de existência. A "Casa do Oriente e do Mediterrâneo" é fundada no outono de 1975 por iniciativa de um grecista e arqueólogo acadêmico francês. Naquele ano, Jean Pouilloux consegue reunir e conectar com a pesquisa nacional diversas iniciativas, das pesquisas arqueológicas a estudos textuais. E a que está sendo incluída é a mais importante e difundida coleção de "fontes" cristãs: as Sources Chrétiennes, fundadas em Lyon durante a Segunda Guerra Mundial por dois jesuítas que figuram entre os maiores teólogos do século, Henri de Lubac e Jean Daniélou, vistos com desconfiança pela Roma de Pacelli.

50 anos de pesquisas

Ao longo desses cinquenta anos, a rede de Lyon transcende as fronteiras do Oriente Próximo e Médio, com pesquisas arqueológicas abrangentes, chegando até o Cáucaso e a Ásia Central. No Ocidente, a lagoa de Orbetello é explorada em busca de vestígios etruscos, e na atual Tunísia, as investigações se concentram na bacia do antigo porto de Cartago, rival de Roma. No Oriente, uma campanha de escavações no gigantesco delta do Ganges e do Brahmaputra, cenário dos romances de Salgari, revela templos budistas do século IV a.C., onde o culto persiste por dois milênios.

Em 1980, uma missão arqueológica de Lyon chega ao Golfo e concentra-se na ilha de Failaka, ao largo da costa do Kuwait, em uma região explorada por estadunidenses, dinamarqueses e italianos que haviam se dedicado aos restos do período helenísticos. Na ilha, os franceses, por sua vez, escolhem o sítio de al-Qusur, que significa "os palácios". Ali, para surpresa geral, é descoberto em 1988 um estuque quase intacto, decorado com uma cruz cristã. É um prelúdio promissor: no ano seguinte, os arqueólogos descobrem os alicerces de uma igreja monumental de 35 metros de comprimento, que parece datar do final do século IV ou início do século V. A igreja é a terceira a ser descoberta no vasto território e confirma relatos de um antigo sínodo oriental de 410 sobre a presença de comunidades cristãs nas ilhas do Golfo, que se acreditava terem desaparecido logo após a conquista islâmica da região. Contudo, a guerra interrompe as pesquisas, o Museu Nacional do Kuwait é incendiado e grande parte de seu acervo é disperso, saqueado ou destruído. Quando as escavações são retomadas, as pesquisas mudam o panorama: a igreja descoberta parece ser de um período posterior, documentando assim que a presença cristã continua, até com um mosteiro, durante os primeiros séculos do domínio muçulmano, que acabou por levar ao seu fim.

As "fontes cristãs"

Paralelamente à arqueologia, destaca-se a história das Sources Chrétiennes, cujas origens se entrelaçam com a conturbada história do catolicismo, que enfrentava as consequências da crise modernista. Nesse contexto, abre caminho a renovação, dificultada pelos obstáculos impostos por Roma, em um mundo em rápida transformação após a guerra. Isso continua até o Concílio e as subsequentes turbulências, como relata, graças a documentos inéditos, um livro do historiador Étienne Fouilloux (La collection Sources Chrétiennes), publicado pela Éditions du Cerf, editora da série.

No prefácio, o arqueólogo Pouilloux descreveu a atmosfera das origens, lembrando que foram precisas "uma fé profunda, uma grande confiança na causa, o intenso senso de uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma forma de desafiar o desespero para lançar, em 1942, uma nova edição dos Padres da Igreja". Tudo conspirava contra: a ocupação nazista sufocava uma França dividida, as autoridades públicas restringiam o uso de papel, aliás de péssima qualidade, e a universidade "permanecia presa ao conservadorismo laico herdado dos difíceis primórdios da Terceira República" após a catástrofe de 1870.

Vida de Moisés

O primeiro título da nova série é uma obra-prima do misticismo de todos os tempos, a Vida de Moisés.

Escrita por volta de 390 por Gregório de Nissa, a obra apresenta o legislador de Israel como um símbolo do desejo de "ver Deus". Devido às restrições da época de guerra, o curador Daniélou publicou a obra sem o texto original; o grego foi adicionado na segunda edição de 1955, e a presença dos originais será um dos pontos fortes da série, caracterizada por introduções e notas muitas vezes excelentes.

Desde o início, o programa do grupo dos jesuítas fundadores da faculdade de Fourvière de Lyon, que encontraram apoio nos dominicanos de Paris com suas Éditions du Cerf, é muito ambicioso. Como de Lubac recorda muitos anos mais tarde, ele teria desejado “uma primeira série, dedicada aos livros da Bíblia em fascículos separados; depois os Padres gregos, os Padres latinos, uma série medieval; finalmente, cada uma das grandes línguas modernas teria sua própria série de clássicos cristãos. Mas eu não era nenhum Migne!”.

A alusão é à façanha mirabolante de um padre rural, Jacques-Paul Migne, que parece ter saído das páginas de Balzac e é o protagonista da "maior empreitada editorial desde a invenção da imprensa", como reconhece outro editor excepcional seu contemporâneo, Ambroise Firmin Didot. Sozinho, mas obviamente graças a centenas de colaboradores, muitas vezes mal remunerados, Migne — no centro do livro de Howard Bloch, O Plagiador de Deus (Editions Sylvestre Bonnard) — publica entre 1844 e 1866 todos os textos cristãos gregos no original (e em tradução latina) e todos os textos latinos até o início do século XIII: são duas lendárias "patrologias", compostas por 390 volumes, distribuídas a preços acessíveis em dezenas de milhares de cópias e continuamente reimpressas. Uma iniciativa semelhante à série dos clássicos da Belles Lettres, até às vésperas do Concílio as Sources Chrétiennes precisam lidar com as profundas desconfianças romanas e a inevitável falta de recursos, não compensados pelas vendas. O ponto de virada ocorre em 1959, quando o novo Papa, João XXIII, concede uma "doação privada e secreta de cinco milhões de francos".

Roncalli recebe os agradecimentos de De Lubac e seu coirmão jesuíta Claude Mondésert, o grecista erudito que — na escola de Victor Fontoynont, outro jesuíta nas origens do projeto — será sua força motriz inteligente e incansável. Posteriormente, os fundadores das Sources Chrétiennes serão nomeados cardeais: Daniélou em 1969 por Montini e de Lubac em 1983 por Wojtyła.

Em 1962, o Padre Mondésert, juntamente com Pouilloux e Roger Arnaldez, inicia a série paralela das obras do maior autor do judaísmo helenístico, Fílon de Alexandria, que foi concluída trinta anos depois. E gradualmente, as Sources Chrétiennes — agora com 658 volumes — expandem-se dos escritos gregos para textos latinos, orientais e hebraicos, como a fundamental interpretação aramaica do Pentateuco em cinco volumes. Até a mais recente novidade, constituída pelos mais antigos textos cristãos chineses, datados do século VII ao X.

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