Eventos climáticos extremos ameaçam ecossistemas fluviais

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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19 Março 2026

Secas severas, enchentes intensas e ondas de calor pressionam os ecossistemas fluviais para além de seus limites naturais de resiliência. Revisando dados de sistemas fluviais de diversos continentes, pesquisa publicada  na revista Nature Reviews Biodiversity mostra como, na maioria dos casos, a natureza não consegue retornar ao estado anterior após eventos climáticos extremos e sucessivos. As consequências vão desde extinções locais e colapsos nas cadeias alimentares até alterações permanentes nos serviços que os rios oferecem às sociedades humanas.

A reportagem é de Michelle Braz, publicada por Agência Fapesp, 18-03-2026.

Eventos climáticos extremos estão aumentando em severidade e frequência, remodelando fundamentalmente os ecossistemas fluviais. Os rios funcionam como redes conectadas e, por isso, os impactos de um evento extremo quase nunca ficam restritos a um único ponto, eles se espalham por todo o sistema”, alerta Tadeu Siqueira, um dos autores do artigo, docente do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro e coordenador de Integração do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.

Uma das conjunturas abordadas pelo estudo envolve secas severas que levam à interrupção do fluxo em nascentes de rios. Nessas condições, a matéria orgânica se acumula nas áreas secas e, quando a água retorna, grandes volumes desse material são transportados rio abaixo. Esse processo pode provocar desoxigenação da água, mortandade de peixes e prejuízos a atividades humanas, como a geração de energia.

O risco se intensifica com os chamados eventos extremos compostos: combinações de secas acompanhadas por ondas de calor ou incêndios florestais seguidos de chuvas intensas produzem impactos desproporcionais. Foram observados casos recentes, como o colapso do plâncton no rio Yangtzé, na China, em 2022, e a mortandade de peixes no rio Klamath, na Califórnia, após uma sequência de incêndios e tempestades.

No Brasil, em 2023, uma seca severa associada a uma onda de calor levou a temperaturas inéditas em rios e lagos da Amazônia. Em alguns locais, as águas ultrapassaram 37 °C e um dos lagos monitorados chegou a atingir 41 °C em toda a coluna d’água. Esses níveis de aquecimento causam grandes mortandades de peixes e outros organismos aquáticos, além de indicarem que eventos próximos aos limites térmicos suportáveis pelas formas de vida podem se tornar mais comuns em sistemas tropicais.

Dados de satélite reforçam essa tendência, apontando um aquecimento gradual das águas amazônicas de cerca de 0,6 °C por década desde os anos 1990. A combinação de radiação solar intensa, águas mais rasas, vento fraco e alta turbidez cria condições propícias para o superaquecimento.

O estudo atenta ainda para os limites das estratégias tradicionais de conservação e revela que a aposta em refúgios climáticos naturais, áreas mais frias e protegidas, pode não ser suficiente diante de ondas de calor mais longas e intensas. Nesse cenário, Siqueira defende uma mudança de paradigma, com a transição de ações locais e reativas para estratégias antecipatórias e de maior escala. “Para enfrentar eventos cada vez mais intensos, é hora de pensar em gestão de bacias e resiliência em larga escala”, salienta o pesquisador. Entre as propostas estão a restauração ampla de hábitats, a melhoria da conectividade entre rios, a proteção de áreas de recarga de aquíferos e a adoção de soluções baseadas na natureza.

Segundo o pesquisador, para viabilizar alternativas eficazes, é preciso investir em programas de monitoramento de alta resolução e frequência, capazes de registrar eventos extremos durante a sua ocorrência, além de fortalecer pesquisas de longo prazo que permitam a compreensão dos impactos que persistem por muito tempo após sua ocorrência.

O artigo Extreme events and river biodiversity under climate change pode ser lido aqui

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