Brasil e o novo regime global de governança mineral. Entrevista especial com Edna Aparecida da Silva

Em meio à escalada autoritária de Trump contra países com recursos estratégicos ao seu país, Brasil começa a desenvolver sua Estratégia Nacional de Terras Raras

Extração, em Minaçu (GO), de elementos essenciais à fabricação de ímãs permanentes, usados em veículos elétricos (Foto: Divulgação | Fonte: Agência Senado)

16 Março 2026

A ofensiva estadunidense tem muitas frentes no cenário global. Uma delas é o Project Vault, anunciado em fevereiro de 2026, voltado à criação de uma reserva de minerais críticos, razão pela qual é crescente o interesse dos EUA nas chamadas terras raras. O “Project Vault sinaliza uma tentativa dos Estados Unidos de reorganizar cadeias produtivas estratégicas e reduzir sua dependência da China em minerais que se tornaram centrais para a disputa tecnológica e industrial do século XXI”, explica a pesquisadora Edna Aparecida da Silva, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Numa versão século XXI da Doutrina Monroe, o governo Trump pretende controlar os ativos minerais estratégicos na região. “Nesse contexto, recursos minerais localizados no continente americano passam a ser tratados como parte da arquitetura de segurança econômica dos Estados Unidos. Isso ajuda a explicar o interesse renovado em regiões ricas em minerais estratégicos, da Groenlândia à América Latina, e o aumento de iniciativas de mapeamento mineral, acordos de cooperação e interlocução direta com governos nacionais e subnacionais”, postula Edna Silva.

Frente este cenário, o Brasil anunciou recentemente a criação da Estratégia Nacional de Terras Raras, cujos termos finais ainda não conhecemos. “Em geral, essas posições defendem que a inserção do Brasil em coalizões internacionais de minerais críticos poderia ajudar a atrair financiamento, reduzir incertezas de mercado e integrar gradualmente o país às cadeias produtivas associadas à transição energética”, descreve a pesquisadora. “Isso significa que a política brasileira está sendo formulada em um setor que já opera conectado a cadeias produtivas globais, contratos de offtake e financiamento internacional. Alterar a posição do Brasil nessas cadeias exige mais do que expandir a mineração ou atrair capital externo”, complementa.

Edna Aparecida da Silva (Foto cedida pela entrevistada)

Edna Aparecida da Silva é pós-doutoranda no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais (PPGRI) do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da Universidade de Brasília (UnB). Doutora em Ciência Política pela Unicamp, pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), assim como no projeto “Dinâmica Competitiva e Interações Estratégicas: os impactos da competição tecnológica entre EUA-China sobre o Brasil” (CNPq/INEU/UFPB). Integra o Grupo de Trabalho da Clacso “‘Lex Mercatoria, Poder Corporativo y Derechos Humanos” e estuda investimento e segurança nacional, investment screening e a atuação doméstica e internacional do CFIUS na dinâmica de competição com a China. É autora dos capítulos: “CFIUS tailored to the US-China rivalry: investment screening and regulatory convergence of the liberal international order”, no livro organizado pelos professores Najimdeen Bakare e Adam Saud; e “As sanções econômicas no contexto da guerra hegemônica: o papel das sanções financeiras na estratégia da diplomacia econômica dos Estados Unidos”, em coautoria com Jaime César Coelho (UFSC/INCT-INEU), no livro A volta de Trump: choque político e relações internacionais, organizado por Sebastião Carlos Velasco e Cruz e Neusa Bojikian (Editora Unesp, 2025).

***

Neste semestre o IHU promove, em parceira com Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB, o Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais, que segue com atividades até 06 de maio de 2026. A próxima conferência, intitulada A Inteligência não é Artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas, ocorrerá no dia 17 de março, das 10h às 12h, e será ministrada pelo Prof. Dr. Miguel Nicolelis. O evento tem transmissão ao vivo pelos canais do IHU. Saiba mais aqui.

Confira a entrevista.

IHU – Do que se trata o Project Vault, anunciado por Donald Trump?

Edna Aparecida da Silva – O Project Vault, anunciado pelo governo norte-americano em 2 fevereiro de 2026, é um programa destinado à criação de uma reserva estratégica de minerais críticos, como terras raras, lítio e cobalto, insumos essenciais para tecnologias avançadas. O objetivo é garantir o abastecimento desses materiais para a indústria norte-americana e reduzir a vulnerabilidade do país a interrupções no fornecimento global.

Seu anúncio ocorre em um momento em que a disputa entre Estados Unidos e China se intensifica em torno do controle das cadeias globais de minerais críticos. Em 2025, após uma nova rodada da guerra tarifária iniciada pelo governo Trump, a China ampliou controles de exportação sobre terras raras, especialmente os elementos pesados, e introduziu novos sistemas de licenciamento.

Essas medidas evidenciaram a posição central que o país ocupa nessas cadeias. Além de possuir reservas relevantes, a China concentra a maior parte da capacidade global de processamento desses minerais, etapa decisiva para sua utilização industrial. Nesse contexto, o Vault representa um passo importante na estratégia norte-americana de reduzir vulnerabilidades estruturais e reconstruir capacidade produtiva em setores considerados estratégicos.

Diferentemente do tradicional National Defense Stockpile, voltado à base industrial de defesa, o novo mecanismo foi concebido também para atender setores civis críticos, como inteligência artificial, semicondutores, energia e manufaturas avançadas. Seu funcionamento combina financiamento público, especialmente por meio do Export-Import Bank, com capital privado e participação de grandes empresas industriais. O Estado passa a atuar como coordenador da demanda e como estabilizador de preços, mobilizando investimentos para projetos minerais considerados estratégicos.

Mais do que um simples estoque, portanto, o Project Vault sinaliza uma tentativa dos Estados Unidos de reorganizar cadeias produtivas estratégicas e reduzir sua dependência da China em minerais que se tornaram centrais para a disputa tecnológica e industrial do século XXI.

IHU – Quais são as estratégias adotadas por China e Estados Unidos para reorganizar as cadeias minerais globais?

Edna Aparecida da Silva – A atual disputa em torno dos minerais críticos reflete, em grande medida, uma tentativa dos Estados Unidos de reorganizar cadeias produtivas cuja configuração foi formada ao longo das últimas décadas da globalização. A posição dominante da China nessas cadeias não surgiu recentemente. Ela resulta de um processo iniciado nos anos 1970, com a reaproximação entre Estados Unidos e China, simbolizada pela visita de Henry Kissinger a Pequim em 1971, e aprofundado nos anos 1990, quando a integração da economia chinesa ao mercado global foi acelerada.

Esse processo não ocorreu apenas por pressões externas. O próprio Estado chinês atuou ativamente para promovê-lo, mobilizando empresas e atores econômicos internacionais em favor da liberalização do comércio com os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, enquanto os Estados Unidos reduziam sua produção doméstica por custos ambientais e regulatórios, a China expandia rapidamente sua exploração e processamento de minerais estratégicos. Em 1992, Deng Xiaoping sintetizou essa orientação ao afirmar que “o Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras”, indicando a decisão de transformar esses recursos em base de poder industrial e tecnológico. Hoje, grande parte da capacidade global de processamento desses minerais está concentrada no país.

A rivalidade recente se intensifica a partir de 2025, quando novas tarifas comerciais impostas pelo governo Trump sobre produtos chineses desencadeiam uma resposta de Pequim. A China ampliou então seus controles de exportação sobre terras raras pesadas, introduzindo sistemas de licenciamento e cláusulas que podem alcançar inclusive reexportações feitas por terceiros países. Com isso, sua posição dominante no processamento, responsável por grande parte da capacidade global de separação e refino, passa a funcionar também como instrumento de poder geoeconômico.

Pequim procurou enquadrar essa política também no plano diplomático. Durante o G20 de 2025, o primeiro-ministro Li Qiang anunciou a Green Minerals International Economic and Trade Cooperation Initiative, defendendo maior cooperação entre países produtores e consumidores de minerais críticos. A proposta enfatiza o direito soberano dos países sobre seus recursos naturais e argumenta que economias em desenvolvimento devem poder utilizar esses recursos para promover industrialização e desenvolvimento, e não permanecer apenas nas etapas primárias das cadeias globais.

Os Estados Unidos, por sua vez, passaram a responder com uma combinação de financiamento público, diplomacia econômica e pressão geopolítica para reorganizar essas cadeias entre países considerados politicamente alinháveis. Na Estratégia de Segurança Nacional divulgada no final de 2025, Washington afirma que pretende impedir que potências externas controlem ativos estratégicos no hemisfério, retomando uma lógica próxima a um corolário contemporâneo da Doutrina Monroe.

Nesse contexto, recursos minerais localizados no continente americano passam a ser tratados como parte da arquitetura de segurança econômica dos Estados Unidos. Isso ajuda a explicar o interesse renovado em regiões ricas em minerais estratégicos, da Groenlândia à América Latina, e o aumento de iniciativas de mapeamento mineral, acordos de cooperação e interlocução direta com governos nacionais e subnacionais.

Em síntese, as duas potências operam a partir de posições distintas nessas cadeias. A China atua a partir de uma base industrial já consolidada e mobiliza instrumentos regulatórios e diplomáticos para administrar seu domínio no processamento. Já os Estados Unidos procuram reorganizar essas cadeias por meio de financiamento público, alianças internacionais e pressão geopolítica para reduzir dependências consideradas estratégicas. O resultado é que os minerais críticos passaram a se tornar um dos principais terrenos de disputa pela organização das cadeias produtivas globais.

IHU – O que significa compreender as terras raras como infraestrutura de poder?

Edna Aparecida da Silva – As terras raras e outros minerais críticos podem ser compreendidos como parte da infraestrutura material da economia contemporânea. Eles são insumos fundamentais para tecnologias estratégicas, como baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas digitais avançados e aplicações na indústria de defesa, e sustentam a base material da transição energética e de setores centrais da economia do século XXI.

Diferencial chinês

No entanto, é importante fazer uma distinção. O fato de esses minerais constituírem uma infraestrutura essencial para essas tecnologias não significa que todos os países que possuem reservas automaticamente detenham poder. O poder nessas cadeias depende menos da existência dos recursos no subsolo e mais do controle das etapas industriais e tecnológicas que transformam esses minerais em insumos utilizáveis.

A extração é apenas a primeira etapa de uma cadeia produtiva complexa. As etapas decisivas estão no processamento, na separação química, no refino e na fabricação de componentes industriais, atividades que exigem conhecimento técnico, investimento e coordenação produtiva. Foi justamente ao desenvolver essas capacidades que a China consolidou uma posição estratégica no processamento de terras raras e passou a exercer influência relevante nessas cadeias.

Já países como Brasil ou Argentina, embora possuam reservas importantes, continuam inseridos principalmente na etapa extrativa. Por isso, o debate nesses países envolve a tentativa de melhorar sua posição na cadeia de valor, avançando em etapas como processamento e refino. Ainda assim, os principais setores de aplicação desses minerais, como a indústria automotiva, a produção de baterias e a eletrônica avançada, permanecem fortemente concentrados nas economias industrializadas.

Além disso, disputas por recursos estratégicos mobilizam interesses poderosos de corporações transnacionais, potências industriais e também coalizões internas ligadas à exportação de commodities. Sem uma política nacional consistente, existe o risco de que a nova corrida por minerais críticos reproduza formas de neoextrativismo, nas quais a exploração dos recursos é organizada principalmente em função das necessidades industriais das grandes potências.

Economias dependentes

Em economias dependentes, essas limitações também se refletem na capacidade de orientar e regular o uso desses recursos segundo estratégias nacionais de desenvolvimento. Países cuja inserção internacional permanece baseada na exportação de commodities enfrentam maiores dificuldades para avançar nas etapas industriais e tecnológicas dessas cadeias.

Assim, compreender os minerais críticos como parte da infraestrutura material da economia contemporânea ajuda a explicar por que eles se tornaram objeto de disputa geopolítica. Mas o poder associado a essa infraestrutura não deriva automaticamente da existência das reservas; ele depende sobretudo da posição que cada país ocupa nas etapas industriais e tecnológicas da cadeia produtiva, justamente o ponto central da disputa atual.

IHU – Como a disputa entre Washington e Pequim tenta estabelecer um novo regime de governança mineral?

Edna Aparecida da Silva – A disputa em torno dos minerais críticos não envolve apenas o acesso a recursos naturais. O que está em jogo é quem define as regras que organizam investimento, tecnologia e produção nessas cadeias. É nesse sentido que se pode falar na formação de um novo regime de governança mineral, no qual a segurança econômica passa a orientar explicitamente decisões que antes eram tratadas como questões essencialmente econômicas.

Nos Estados Unidos, essa mudança começou a se consolidar no primeiro governo Trump, quando comércio, tecnologia e investimento passaram a ser tratados como dimensões centrais da competição entre potências. Um marco importante foi o Foreign Investment Risk Review Modernization Act (FIRRMA) de 2018, que ampliou os poderes do Committee on Foreign Investment in the United States (CFIUS) para revisar investimentos estrangeiros em setores considerados sensíveis.

Mais recentemente, essa lógica passou a ser projetada também para além do território norte-americano. Washington tem incentivado aliados como Canadá, Reino Unido, Japão, Austrália e vários países europeus a adotar mecanismos semelhantes de regulação de investimentos vinculados à segurança nacional.

Na prática, isso cria uma rede de coordenação regulatória entre países aliados capaz de filtrar fluxos de capital em setores estratégicos, incluindo projetos ligados a minerais críticos. Em diversos casos, esses instrumentos têm sido utilizados para limitar ou excluir a participação de empresas chinesas em empreendimentos considerados sensíveis.

Essa lógica também aparece em acordos recentes. O tratado firmado entre Estados Unidos e Argentina em 2026 incorpora dispositivos de coordenação regulatória, revisão de investimentos por critérios de segurança e mobilização de financiamento público por instituições como o Export-Import Bank e a Development Finance Corporation. Ao mesmo tempo, surgem iniciativas paralelas, como o acordo entre Brasil e Índia para cooperação em minerais críticos.

Resposta da China

A China responde a esse movimento mobilizando sua posição dominante no processamento de minerais estratégicos e promovendo iniciativas de cooperação internacional voltadas sobretudo a países produtores do Sul Global, nas quais enfatiza soberania sobre recursos naturais e desenvolvimento industrial associado à exploração mineral.

O resultado é uma governança internacional cada vez mais fragmentada, marcada pela competição entre diferentes arranjos institucionais. De um lado, redes regulatórias e financeiras articuladas pelos Estados Unidos e seus aliados; de outro, iniciativas que buscam ampliar a cooperação entre países do Sul Global. Regras de investimento, financiamento público, cooperação tecnológica e controle regulatório passam, assim, a organizar diretamente a forma como essas cadeias minerais são estruturadas.

Mas essa disputa institucional reflete, em última instância, um problema mais fundamental: onde se localiza o poder dentro dessas cadeias produtivas.

IHU – Qual é o núcleo do poder estrutural na cadeia global de minerais críticos?

Edna Aparecida da Silva – Para entender por que essa governança mineral se tornou objeto de disputa entre grandes potências, é preciso olhar para a própria estrutura dessas cadeias produtivas. O núcleo do poder nelas não está apenas nas reservas minerais, mas no controle das etapas industriais que tornam esses materiais utilizáveis.

Possuir recursos naturais não significa automaticamente controlar as cadeias produtivas associadas a eles. No caso das terras raras, o poder se concentra principalmente nas etapas de separação química, refino e fabricação de componentes industriais.

No debate internacional, essa estrutura costuma ser descrita como a “mine-to-magnet supply chain”, isto é, a cadeia que vai da mineração até a produção de magnetos permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.

Hoje, a China ocupa posição dominante justamente nessas etapas mais críticas da cadeia. O país concentra cerca de 70% da extração global de terras raras e aproximadamente 90% da capacidade mundial de processamento e separação, além de liderar a produção de magnetos permanentes utilizados em diversas tecnologias estratégicas.

Essa posição não surgiu apenas de decisões unilaterais da China. Ela também resulta da reconfiguração da economia global nas décadas finais do século XX. A partir dos anos 1990, no contexto da integração da China à economia mundial, parte das capacidades industriais ligadas ao processamento de terras raras foi deslocada para o país.

Empresas norte-americanas e japonesas transferiram tecnologia e produção, enquanto regulações ambientais mais rigorosas em outros países contribuíram para o fechamento ou a redução de atividades de mineração e processamento fora da China. Ao mesmo tempo, o Estado chinês adotou políticas industriais deliberadas para integrar mineração, refino e manufatura.

Por isso, países que possuem reservas relevantes enfrentam hoje um dilema estratégico: permanecer como fornecedores de matérias-primas ou formular políticas nacionais capazes de avançar para etapas de maior valor agregado dentro dessas cadeias.

IHU – Já podemos prever os termos da Estratégia Nacional de Terras Raras?

Edna Aparecida da Silva – Nesse cenário de reorganização das cadeias minerais, o Brasil também começou a discutir a formulação de uma política própria para terras raras.

Ainda é cedo para conhecer os termos finais da Estratégia Nacional de Terras Raras, mas algumas orientações já aparecem nas discussões públicas que acompanham sua formulação. O Ministério de Minas e Energia iniciou em janeiro de 2026 os estudos técnicos que devem embasar a estratégia, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), participação de centros de pesquisa e consultores especializados no setor mineral.

Mais do que os aspectos metodológicos do estudo, chama atenção a visão que aparece em análises de pesquisadores ligados ao debate e em posições de entidades do setor mineral, como o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em geral, essas posições defendem que a inserção do Brasil em coalizões internacionais de minerais críticos poderia ajudar a atrair financiamento, reduzir incertezas de mercado e integrar gradualmente o país às cadeias produtivas associadas à transição energética.

Nessa perspectiva, a prioridade seria ampliar investimentos e consolidar projetos minerais capazes de inserir o Brasil nas cadeias globais de fornecimento desses insumos estratégicos. Parte dessas análises parte do pressuposto de que essa integração internacional é praticamente inevitável e que, ao longo do tempo, ela poderia gerar algum grau de adensamento industrial.

O ponto importante, porém, é que o setor já está integrado a cadeias globais e estruturado por investimentos internacionais. No caso das terras raras, um exemplo conhecido é o projeto Serra Verde, em Goiás, que produz concentrados de terras raras e opera integrado a cadeias industriais internacionais. Além dele, existem outros projetos em diferentes fases conduzidos por empresas estrangeiras, muitas delas canadenses ou australianas, países que são aliados estratégicos dos Estados Unidos na reorganização das cadeias de minerais críticos.

Isso significa que a política brasileira está sendo formulada em um setor que já opera conectado a cadeias produtivas globais, contratos de offtake [acordo de longo prazo entre um produtor e um comprador para adquirir parte ou a totalidade da produção futura de um projeto] e financiamento internacional. Alterar a posição do Brasil nessas cadeias exige mais do que expandir a mineração ou atrair capital externo.

Em vários países, essa reorganização tem envolvido uma atuação muito mais direta do Estado. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo tem mobilizado financiamento público, garantias de compra e até participação indireta em empresas consideradas estratégicas para fortalecer cadeias minerais fora da China.

Por isso, a questão central para o Brasil não é apenas elaborar uma estratégia nacional, mas definir qual papel o Estado pretende exercer na coordenação desse setor. Dependendo das escolhas institucionais feitas agora, a estratégia pode contribuir para ampliar capacidades industriais e tecnológicas no país ou apenas consolidar a posição brasileira como fornecedora de recursos minerais em cadeias produtivas organizadas no exterior.

IHU – Qual estratégia o Brasil deveria adotar?

Edna Aparecida da Silva – Se olharmos para o cenário internacional que discutimos até aqui, fica claro que a disputa por minerais críticos não se resume ao acesso aos recursos, mas envolve o controle das cadeias produtivas e das tecnologias associadas. É nesse contexto que se coloca a questão brasileira.

Há hoje muita expectativa em torno dos minerais críticos, e às vezes aparece a ideia de que eles poderiam, por si só, transformar a estrutura produtiva brasileira. A existência de reservas importantes não altera automaticamente a posição de um país na economia internacional.

Para que esses recursos se convertam em instrumento de desenvolvimento, é necessário um projeto nacional claro, baseado em política soberana sobre recursos naturais e na definição de setores estratégicos vinculados à segurança econômica.

Índia

Um exemplo interessante é o da Índia, que lançou a National Critical Mineral Mission, articulando mineração, processamento, pesquisa tecnológica e formação de mão de obra com o objetivo explícito de fortalecer sua base industrial.

Sem uma estratégia dessa natureza, o setor tende a permanecer capturado por grupos de interesse, corporações mineradoras, bancadas parlamentares ligadas à mineração e governos estaduais de regiões mineradoras. Em estados onde a mineração tem peso econômico e eleitoral, essas articulações tornam-se particularmente visíveis em períodos de campanha.

No caso brasileiro, esse debate também enfrenta limites estruturais. Nas últimas décadas, a economia passou por um processo de reprimarização, com aumento do peso das exportações de commodities. Sem política industrial, investimento em ciência e tecnologia e coordenação estatal consistente, existe o risco de que a nova corrida por minerais críticos apenas reproduza padrões históricos de extrativismo e dependência tecnológica.

Ao mesmo tempo, essa discussão sobre estratégia nacional ocorre em um contexto em que os próprios projetos minerais vêm sendo organizados sob forte influência de capitais financeiros e expectativas de mercado. Isso ajuda a explicar por que o debate sobre financeirização se tornou central na política de minerais críticos. Nesse caso, o país continuaria participando da transição energética global principalmente como fornecedor de recursos naturais, e não como produtor de tecnologia e valor industrial.

IHU – O que significa pensar a política de terras raras sob uma lógica financeirizada?

Edna Aparecida da Silva – Quando falamos em financeirização no setor de terras raras, estamos nos referindo à forma como os projetos minerais passam a ser organizados e financiados no capitalismo contemporâneo, em estreita articulação com as disputas geopolíticas em torno das cadeias de minerais críticos.

É importante lembrar que a financeirização não é apenas uma lógica de investimento, mas uma característica estrutural do funcionamento da economia atual. Mesmo setores como a mineração passam a operar articulados a mecanismos de valorização financeira, envolvendo fundos de investimento, participação acionária e contratos que antecipam receitas futuras.

Nesse contexto, projetos minerais passam a ser estruturados não apenas em função da produção futura, mas também de sua capacidade de atrair capital e gerar valorização financeira já nas fases iniciais de exploração. Reservas minerais, mesmo antes de entrarem em operação, tornam-se ativos financeiros negociados nos mercados globais.

No setor de terras raras, isso aparece de forma bastante clara. Muitos projetos são viabilizados por meio da abertura de capital em bolsas internacionais, da participação de fundos especializados em commodities e de contratos de offtake, que garantem compradores futuros e permitem estruturar o financiamento das operações.

Think tanks e mineração

Essa dinâmica mobiliza um conjunto de atores poderosos: grandes corporações mineradoras, investidores institucionais, bancos, fundos especializados em commodities e também redes de influência doméstica, como consultorias, entidades empresariais e think tanks ligados ao setor mineral. A valorização desses projetos passa a depender não apenas da geologia das reservas, mas também de expectativas de mercado, políticas públicas e alinhamentos geopolíticos.

Nesse cenário, o papel do Estado torna-se decisivo. A financeirização pode simplesmente reforçar uma inserção subordinada baseada na exportação de matérias-primas ou pode ser subordinada a um projeto nacional de desenvolvimento que utilize esses investimentos para ampliar capacidades industriais e tecnológicas. A questão central, portanto, não é eliminar o capital financeiro, mas definir quem orienta essa dinâmica e com quais objetivos.

IHU – Qual a capacidade do Estado brasileiro de estruturar uma estratégia própria?

Edna Aparecida da Silva – A capacidade existe, mas depende fundamentalmente de decisões políticas e institucionais. Como mencionei anteriormente, o ponto central é o papel do Estado na definição das regras que orientam esses investimentos. Não se trata apenas de ter reservas minerais ou projetos empresariais, mas de construir uma política nacional capaz de articular mineração, política industrial, inovação tecnológica e regulação ambiental.

Isso envolve instrumentos estatais variados, como financiamento público, instituições como o BNDES, políticas de ciência e tecnologia e marcos regulatórios capazes de definir condicionalidades para os projetos minerais.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a financeirização não é apenas uma escolha de política econômica, mas uma característica estrutural do capitalismo contemporâneo. Hoje, praticamente todos os grandes projetos produtivos estão articulados a mecanismos de valorização financeira, participação de fundos de investimento, abertura de capital, joint ventures e contratos como os offtake agreements, que garantem a venda futura da produção e viabilizam o financiamento dos projetos. Nesse contexto, dificilmente um país simplesmente “escapa” dessa dinâmica. A questão central passa a ser outra: como regular esses fluxos e subordiná-los a um projeto nacional de desenvolvimento.

Arte elaborada por Rebeca Alencar | Jornal da USP.

Soberania Nacional

Os discursos recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a soberania do Brasil sobre suas reservas de minerais críticos têm, nesse sentido, um significado político importante. Ao afirmar que o país não pode permanecer como mero exportador de matéria-prima, especialmente considerando a relevância estratégica desses recursos para a transição energética, a indústria tecnológica e o setor de defesa, o presidente sinaliza a necessidade de transformar esses minerais em base para o desenvolvimento industrial e tecnológico.

Essa orientação também aparece na política externa brasileira. O governo tem reiterado a importância da diversificação de parcerias e da preservação de margens de autonomia em um cenário internacional marcado pela rivalidade entre grandes potências. Essa tradição da diplomacia brasileira mostrou sua importância recente no contexto das guerras tarifárias iniciadas pelo governo Trump, quando a capacidade de manter relações comerciais com diferentes polos econômicos ajudou o país a preservar fluxos de exportação e reduzir riscos associados à polarização geopolítica.

Corporações poderosas

Ao mesmo tempo, esses esforços enfrentam disputas internas e externas importantes. O setor mineral mobiliza corporações poderosas, entidades empresariais, governos subnacionais e coalizões políticas que frequentemente defendem modelos de exploração orientados principalmente para a exportação de matérias-primas. Mas a disputa não envolve apenas atores domésticos. A atuação recente da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, que anunciou a realização de um encontro sobre terras raras com participação de empresas mineradoras e do Ibram logo após o posicionamento brasileiro no Critical Minerals Ministerial, mostra como governos estrangeiros também procuram influenciar a organização dessas cadeias no país.

Esse é um ponto que envolve diretamente a dimensão política. A construção de uma estratégia nacional para minerais críticos depende de decisões do Executivo, mas também da atuação do Parlamento, onde são definidos projetos de lei, regimes de financiamento e marcos regulatórios para o setor. Nesse espaço atuam diferentes interesses, do setor mineral, de governos estaduais de regiões mineradoras e de grupos empresariais, que disputam a orientação da política mineral brasileira.

Por isso, a capacidade estatal não é apenas uma questão técnica ou institucional; ela é profundamente política. O Brasil possui instituições capazes de formular uma estratégia de longo prazo, mas a direção que essa estratégia assume depende da correlação de forças entre projetos distintos de desenvolvimento e de inserção internacional. Em última instância, o que está em disputa é quem orienta o uso desses recursos estratégicos e a que projeto de país eles estarão vinculados.

IHU – Como o ciclo eleitoral pode influenciar essa disputa?

Edna Aparecida da Silva – O impacto pode ser significativo porque a política mineral, energética e ambiental no Brasil tem sido fortemente influenciada pelas mudanças de orientação políticas ocorridas desde 2016. Após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff houve uma inflexão importante em áreas estratégicas. No setor de petróleo, por exemplo, o modelo do pré-sal foi alterado, o papel da Petrobras como operadora estratégica foi reduzido e ampliou-se a abertura ao capital estrangeiro. Isso representou uma reorientação relevante da política energética brasileira.

Essa inflexão se estendeu também a outras áreas. Ao longo desse período consolidou-se um padrão de política econômica fortemente apoiado em setores financeiros, no agronegócio exportador e em atividades extrativas como mineração e energia. Ao mesmo tempo, houve enfraquecimento de instrumentos de regulação ambiental e territorial. O resultado foi o aprofundamento de um modelo de inserção internacional baseado na exportação de commodities e na abertura de setores estratégicos ao capital internacional.

As eleições, portanto, são decisivas porque podem definir se o país continuará tentando construir uma estratégia nacional soberana para recursos estratégicos ou se retornará à continuidade do modelo consolidado após o impeachment. Uma eventual presidência que adote um alinhamento subordinado aos Estados Unidos, como sugerem candidatos que aparecem publicamente com bonés “MAGA”, tende a reforçar a integração das cadeias minerais brasileiras a estratégias geopolíticas externas, especialmente no contexto da rivalidade crescente entre Washington e Pequim.

Tradição diplomática pluralista

Esse tipo de alinhamento também pode expor o país a riscos associados às disputas entre grandes potências, como guerras tarifárias, sanções ou restrições tecnológicas, algo que já se tornou visível desde o início do governo Trump. A tradição da política externa brasileira de diversificação de parcerias, historicamente um dos eixos centrais da diplomacia do país, mostrou sua importância nesse contexto, permitindo ao Brasil preservar margens de autonomia e manter fluxos comerciais com diferentes mercados mesmo em cenários de crescente tensão internacional.

O debate sobre minerais críticos, portanto, não é apenas um debate sobre mineração. Ele envolve escolhas mais amplas sobre soberania econômica, política industrial e posicionamento internacional do país. Dependendo das decisões políticas e eleitorais, esses recursos podem se tornar base para uma estratégia de desenvolvimento ou reforçar um padrão histórico de inserção subordinada nas cadeias globais de suprimento.

IHU – Como avalia o acordo Brasil-Índia sobre minerais críticos?

Edna Aparecida da Silva – O acordo assinado entre Brasil e Índia é, formalmente, um memorando de entendimento (MoU) voltado à cooperação em minerais críticos e terras raras. Como ocorre nesse tipo de instrumento diplomático, ele estabelece diretrizes gerais de cooperação, como intercâmbio de informações, possibilidade de investimentos e colaboração em exploração, mineração, processamento e reciclagem, mas não implica automaticamente transferência tecnológica imediata ou compromissos industriais concretos.

Por isso, a ideia de “troca tecnológica” precisa ser vista com cautela. O memorando cria sobretudo um marco político para cooperação futura. A concretização de projetos industriais ou de compartilhamento de tecnologia dependerá de iniciativas posteriores, investimentos e arranjos institucionais específicos.

Ainda assim, o movimento é relevante do ponto de vista geopolítico. Ele revela as assimetrias existentes dentro dos próprios BRICS e a geometria complexa das alianças que se formam em torno das cadeias de minerais críticos. A China consolidou posição dominante no processamento de terras raras e em tecnologias associadas, enquanto países como Brasil e Índia buscam ampliar suas capacidades industriais e reduzir dependências tecnológicas nesses segmentos.

Caso indiano

No caso indiano, isso faz parte de uma estratégia nacional mais ampla. A Índia vem estruturando políticas específicas para minerais críticos, como a National Critical Mineral Mission, voltadas ao desenvolvimento de mineração, processamento e manufatura de componentes estratégicos, incluindo magnetos permanentes utilizados em veículos elétricos, eletrônicos e equipamentos de defesa.

Para o Brasil, o acordo pode representar uma oportunidade de diversificação de parcerias e de atração de investimentos, além de reforçar a cooperação Sul-Sul em um setor estratégico. Ao mesmo tempo, ele também evidencia um desafio estrutural: embora o país possua reservas relevantes, ainda precisa avançar significativamente nas etapas de processamento e transformação industrial.

Em outras palavras, o acordo com a Índia é importante como sinal político e como abertura de possibilidades de cooperação. Mas seus efeitos concretos dependerão da capacidade de ambos os países de transformar esse entendimento diplomático em projetos industriais e tecnológicos efetivos.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Edna Aparecida da Silva – Gostaria de acrescentar um ponto que me parece central nessa discussão e que muitas vezes aparece pouco no debate público: a dimensão ambiental da mineração de minerais críticos.

Hoje se fala muito do papel desses minerais na transição energética: baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e tecnologias digitais, mas se fala muito menos sobre as condições concretas de extração e processamento desses recursos. No caso das terras raras, por exemplo, os processos de separação e refino envolvem reagentes químicos agressivos, geração de rejeitos tóxicos e, em alguns casos, resíduos radioativos. São atividades com impactos ambientais significativos.

Geografia das cadeias

Isso ajuda a explicar também a própria geografia dessas cadeias. A partir dos anos 1980 e 1990, enquanto países como os Estados Unidos reduziram sua produção doméstica por pressões ambientais e regulatórias, a China expandiu fortemente sua mineração e seu processamento.

De certa forma, houve uma espécie de terceirização internacional dos impactos ambientais. Parte significativa da degradação associada à mineração e ao processamento de terras raras ficou concentrada nos territórios onde essas atividades foram instaladas, enquanto os benefícios tecnológicos, eletrônicos, turbinas eólicas, baterias, se espalharam pelo mundo.

Por isso, a capacidade do Estado de regular, fiscalizar e monitorar a exploração mineral é decisiva. Não se trata apenas de cumprir exigências formais, mas de garantir proteção ambiental, segurança das populações afetadas e soberania sobre recursos estratégicos.

Lobby do setor mineral

No entanto, o que se observa é uma pressão do setor mineral por flexibilização do licenciamento ambiental e simplificação de procedimentos regulatórios, muitas vezes sob o argumento da urgência da transição energética ou da necessidade de competitividade internacional. A experiência recente do Brasil mostra os riscos desse caminho. Os rompimentos das barragens da Vale em Mariana e Brumadinho demonstraram de forma dramática o que acontece quando a regulação é enfraquecida e os interesses corporativos prevalecem sobre a governança pública.

Há também uma dimensão estrutural nesse debate. Na economia mundial, marcada por uma divisão internacional do trabalho entre centros industriais e economias exportadoras de recursos naturais, países periféricos podem participar de cadeias tecnológicas avançadas sem necessariamente alterar sua posição nessa estrutura. Ao contrário, a combinação entre tecnologias avançadas e estruturas primário-exportadoras tende muitas vezes a aprofundar assimetrias.

A dinâmica geopolítica em torno dos minerais críticos e a sua valorização nos mercados financeiros reforçam esse padrão. A incorporação de tecnologias de ponta, vinculadas à transição energética, à indústria digital e ao setor de defesa, não elimina a posição subordinada de quem permanece concentrado na etapa extrativa. Ao contrário, o desenvolvimento tecnológico nos centros tem como condição histórica formas intensivas de exploração do trabalho e da natureza nas periferias.

Isso mostra que a corrida por minerais críticos precisa ser analisada para além da tecnologia e da geopolítica. Mesmo no contexto da transição energética, a disputa por esses recursos envolve uma pergunta fundamental: quem controla essas cadeias e quem suporta os custos sociais e ambientais associados a elas?

Leia mais