“Nós privatizamos a esperança e coletivizamos o desespero”. Entrevista com Mathieu Bélisle

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12 Março 2026

Em sua (muito) Brève histoire de l’espoir (Breve história da esperança), o professor de literatura de Montreal, Mathieu Bélisle, examina nossa incapacidade – muito contemporânea – de imaginar um mundo melhor e torná-lo realidade. Sua solução? Reconectar-se com o longo prazo e distanciar-se das distopias.

A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 05-03-2026. A tradução é do Cepat.

Schopenhauer via a esperança como uma quimera que prolonga o sofrimento em um universo fundamentalmente mau; Nietzsche, como uma espécie de fuga para um “outro mundo” que nos desvia do aqui e agora; e Camus, como uma miragem a ser rejeitada em favor de uma revolta lúcida. Em uma análise mais aprofundada, a esperança está longe de ser tida em alta estima entre os filósofos, que a veem apenas como uma consolação estéril, alimentando a ilusão de que o infortúnio é temporário. No entanto, é precisamente nessa consolação que as religiões monoteístas basearam suas grandes narrativas, oferecendo ora a esperança da chegada de um Messias, ora a possibilidade de além vida maravilhoso.

Claramente, a esperança é um conceito fluido, o que, por essa mesma razão, torna qualquer tentativa de traçar sua história arriscada. Assim, quando Mathieu Bélisle voltou sua atenção para ela, abordou-a de uma perspectiva restrita, reunindo anedotas, histórias e referências literárias e acadêmicas. No total, compilou cerca de 200 fragmentos que, quando combinados, esboçam uma visão geral deliberadamente parcial do conceito. “É uma espécie de estrutura destinada a ser enriquecida por outras, para que, em última análise, se torne uma obra coletiva”, explica o professor de literatura de Montreal, autor de outros quatro livros, incluindo L'empire invisible. Essai sur la métamorphose de l'Amérique (Nomades, 2020).

Não se engane: seu livro Uma breve história da esperança, que será lançado pela Lux nesta sexta-feira, 6 de março, não é uma história alegre. Tampouco é uma compilação de histórias de sucesso alimentadas pelo otimismo, mas uma visão geral das razões para o surgimento da esperança ao longo da história, aliada a uma análise bastante perspicaz dos impasses que ela enfrenta em tempos de policrise. São justamente esses impasses que discutimos com o ensaísta nesta entrevista.

Eis a entrevista.

Seu livro nasceu de uma angústia, a angústia de sua filha que perguntou se o mundo ia acabar em chamas. Por que você recorreu à história da esperança para respondê-la?

Uma das grandes dificuldades do nosso tempo é a nossa incapacidade de habitar o longo prazo. Somos prisioneiros de um ciclo presentista que se alimenta de um fluxo contínuo de notícias, geralmente negativas. Ao permanecermos presos nesse fluxo, apenas medimos a nossa impotência. Sentimo-nos cativos de um tempo bloqueado. Para me reconectar com a duração e, assim, vislumbrar o futuro, primeiro precisei viajar ao passado.

Será que já não estamos mais preparados para pensar ou sequer sentir esperança hoje em dia?

Tenho a sensação de que hoje, coletivamente, dispomos de mil recursos para imaginar distopias, mas perdemos a capacidade de conceber utopias. O que a história da humanidade nos ensina – e o que me trouxe paz enquanto escrevia este livro – é que nada nunca foi simples. Não se trata de banalizar o que estamos vivenciando, mas de colocar as coisas em perspectiva: o futuro nunca foi garantido, o desfecho nunca foi predeterminado. Há muito tempo anunciamos o fim, e ainda assim a história continua.

Para entender a história da esperança, primeiro você teve que defini-la e apontar seu inimigo, que, segundo você, não é o desespero, mas a nostalgia. Por quê?

O desespero não é o verdadeiro inimigo; ele até tem um propósito. O desespero é o reconhecimento de uma falta, de uma ausência. E uma vez que identificamos o que nos falta, torna-se possível trabalhar para preenchê-la. Não é coincidência que a palavra “esperança” esteja contida na palavra “desespero”: a esperança subsiste ali como um vestígio, como uma possibilidade.

Por que, então, a nostalgia? Porque ela paralisa o progresso. Rejeita o que é e o que está por vir, em nome do que foi – ou melhor, do que acreditamos ter sido. Esse é o seu perigo: ela nos aprisiona em um passado mitificado e idealizado, embelezado pela obra da memória. Esse passado, muitas vezes, nunca existiu da forma como é narrado. A nostalgia, portanto, constitui um verdadeiro beco sem saída. Além disso, tornou-se uma poderosa ferramenta política. O slogan “Make America Great Again” de Donald Trump é um excelente exemplo. Muitos regimes de extrema-direita compartilham esse desejo de se reconectar com uma suposta grandeza perdida. Na minha opinião, trata-se de um beco sem saída perigoso: ao bloquear o progresso, impede qualquer inovação ou iniciativa genuína.

Você inicia seu ensaio com a história da caixa de Pandora que, uma vez aberta, liberta todos os males destinados a afligir a humanidade (doenças, guerras, pobreza, fome…) e, por fim, deixa apenas uma coisa: a esperança. O que essa história nos ensina? Que o melhor permanecerá para sempre inatingível?

As filosofias gregas sempre viram a esperança como uma virtude ambígua, inquietante, de dupla face. O mito de Pandora ilustra bem isso, deixando a esperança aprisionada para sempre na caixa. Uma interpretação otimista vê isso como uma consolação oferecida à humanidade, ao manter a esperança em reserva. Uma interpretação pessimista, ao contrário, considera que seremos para sempre privados da esperança. Os mais cínicos, por sua vez, acreditam que a esperança é a última das calamidades das quais a humanidade foi felizmente poupada, por mantê-la trancada.

Os estoicos também enfatizavam a ambiguidade da esperança. Esperar, diziam eles, é temer. A esperança projeta expectativas em um futuro que não podemos controlar; portanto, implica um elemento de medo. Sêneca escreveu em suas Cartas a Lucílio: “Você deixará de temer quando deixar de ter esperança”. Em outras palavras, seria melhor não ter esperança.

Mas, a meu ver, não somos herdeiros dessa tradição grega. Somos, antes, herdeiros de uma forma de pensar que deriva das grandes religiões, a da utopia, de um mundo melhor por vir. Existe em nós um desejo por algo melhor, uma ânsia por algo melhor, que nos anima e nos impulsiona. Certamente, esse desejo é acompanhado de insatisfação, mas também é a força motriz do progresso. No cerne da nossa história reside essa expectativa de um mundo mais justo, mais pleno, mais feliz: essa é a esperança.

Essa natureza dual da esperança, descrita pelos filósofos gregos, não prevalece também na religião? Você mesmo escreve que a esperança é “inseparável do terror” na história das religiões monoteístas.

É bem verdade. Religiões como o cristianismo e o islamismo nascem com a perspectiva de um fim iminente. É também fascinante notar que, com séculos de diferença, o profeta Maomé e Jesus transmitiram mensagens semelhantes: cada um se apresentou como o último mensageiro e anunciou que a geração presente não desapareceria antes do fim.

Essas duas religiões, portanto, são fundamentalmente imbuídas de um senso de iminência. Certamente, são impulsionadas por um anseio por um mundo melhor que precisa ser preparado, às vezes de forma voluntária ou pela força. Mas por trás desse anseio também reside uma angústia: o medo do colapso, a ideia de que o mundo está se aproximando do seu fim e que é necessário, por todos os meios, escapar da destruição iminente. Isso pode alimentar formas de proselitismo agressivo, até mesmo a violência, em nome da salvação.

O paradoxo surge muito cedo, particularmente no cristianismo. Desde os primeiros séculos, alguns fiéis parecem se isolar do mundo: vão para o deserto, fundam mosteiros e optam por viver à margem da sociedade. Como se quisessem se preparar melhor para o mundo vindouro. Mas colocar-se nesse estado de espera também pode significar desistir de transformar o mundo presente. Essa postura, por vezes, gera uma forma de desprezo pelo mundo.

Em determinado momento da história, tornou-se necessário preservar a esperança desse aspecto sombrio e negativo. Para isso, foi preciso desvinculá-la da expectativa puramente religiosa e reintegrá-la a este mundo. É precisamente isso que a revolução realizará.

A Revolução Francesa em específico, pois inaugurou um novo capítulo de esperança que, a partir de então, deixou de se referir à vida após a morte e passou a se concentrar neste mundo…

Com certeza. Nesse momento, trata-se de libertar a esperança de suas amarras mágicas, da ideia de que ela está reservada para outra vida, para uma vida após a morte, e dar-lhe forma no mundo presente. Uma forma necessariamente imperfeita: sabemos que as revoluções, antes de darem seus melhores frutos, muitas vezes passam pela violência. Penso particularmente no Reinado do Terror na França e, posteriormente, na URSS.

Contudo, esse movimento reflete uma vontade poderosa: mudar a vida aqui e agora. Mas o que restou dele dois séculos depois? Por que não vivenciamos mais a esperança como uma “fé”, como George Sand a descreveu em sua época? A revolução parece ter sido, se não roubada de nós, ao menos confiscada. Agora, ela se apresenta como uma força externa, particularmente por meio das revoluções tecnológicas. Da internet à inteligência artificial, as ondas de transformação estão se acelerando, muitas vezes sem que as sociedades tenham realmente consentido ou expressado uma vontade coletiva. A vida muda a uma velocidade vertiginosa e, às vezes, temos a sensação de que os humanos estão ficando para trás.

No início da década de 1940, Walter Benjamin revisitou a fórmula de Marx – “a revolução é a locomotiva da história” – uma imagem típica do século XIX, onde a locomotiva personifica o progresso e a velocidade. Benjamin sugeriu, ao contrário, que a revolução poderia ser o gesto pelo qual os passageiros acionam o freio de emergência. Talvez isso seja uma pista para os nossos tempos. A revolução nem sempre é uma aceleração; pode ser uma desaceleração. Um freio de emergência. Poderia consistir em reconectar-se com um tempo mais natural, em suspender a corrida. E às vezes, pergunto-me se, na nossa incapacidade de acionar esse freio, a natureza já não o está fazendo – através de incêndios, inundações e outras convulsões climáticas.

É difícil acionar o freio de emergência quando somos tão dependentes dessas tecnologias. Especialmente porque elas são particularmente atraentes para quem quer “controlar” o futuro. Você escreve: “O motivo pelo qual os algoritmos e a inteligência artificial são tão sedutores é que afirmam levar a capacidade de previsão a um nível sem precedentes. No maravilhoso mundo da tecnologia, não há mais esperança ou fé, apenas certezas, maiores ou menores, baseadas em cálculos de probabilidade”.

Temos a tendência de idolatrar as inovações, chegando até a tratá-las como oráculos. Atribuímo-lhes poderes excessivos, incluindo a capacidade de, em breve, igualar nossas capacidades cognitivas. Mas uma máquina é uma ferramenta. Devemos aprender a atribuir papéis limitados a essas tecnologias e preservar espaços para a liberdade e a inteligência genuína, para que nós mesmos não nos tornemos máquinas.

É importante também ter em mente que as gigantes da tecnologia por trás dessas inovações às vezes se apresentam como profetas, prevendo o apocalipse com a automação em massa de tarefas ou a chegada de uma inteligência artificial geral que superará a humana em inteligência. Precisamos perceber que essas narrativas servem apenas para garantir seus próprios lucros. É crucial nos distanciarmos delas a todo custo.

Como podemos nos distanciar disso quando as distopias inundam nossa imaginação? É também uma fonte de renda inesperada muito interessante para Hollywood, que mercantiliza excessivamente o fim da esperança.

Sua pergunta toca num paradoxo central do nosso tempo: nós privatizamos a esperança e coletivizamos o desespero – e isso é um problema. Em outras palavras, pensamos no desespero numa escala coletiva, particularmente através de distopias que retratam o fim de toda a humanidade por uma infinidade de razões, que vão da catástrofe climática à invasão de robôs inteligentes. Mas essas distopias servem ao status quo: acabamos nos contentando com o nosso presente simplesmente porque ele é menos catastrófico do que o futuro que elas retratam.

Tudo isso perpetua uma lógica de preservação: salvar o que pudermos, evitar o pior. E, em muitos aspectos – sociais, políticos, ecológicos –, é aí que estamos. Mas evitar o pior não é, na minha opinião, a perspectiva correta. Ela corre o risco de nos aprisionar no individualismo, numa lógica de cada um por si, onde aqueles que podem pagar já estão considerando uma forma de “opting out” (em outras palavras, escapar): para os mais ricos, será a Lua ou Marte, uma ilha no Pacífico, um apartamento seguro ou um bunker em Montana. Para a maioria de nós, essa visão simplesmente não é viável.

Por outro lado, a esperança tornou-se uma questão exclusivamente individual. Toda a indústria do bem-estar, que não condeno de forma categórica, atende claramente a essa necessidade. Mas, às vezes, esse tipo de fenômeno é tanto o problema quanto a solução. Enquanto vendermos a esperança como uma mercadoria individual – para nossas finanças, nossa aposentadoria, contra a depressão ou a solidão – perderemos seu verdadeiro significado. A esperança não é um produto para ser consumido sozinho; é uma virtude que nos conecta aos outros. É preciso pelo menos duas pessoas para ter esperança.

Vou afirmar uma verdade que chega a ser constrangedora em sua simplicidade: se aprendêssemos a ter esperança nos outros em vez de em nós mesmos, grande parte do mal e da miséria desapareceria. Ter esperança nos outros significa, antes de tudo, confiar que alguém tem esperança em nós. Infelizmente, nossa sociedade atual é muito falha; somos reduzidos a meras unidades de consumo e produção. Essa simples verdade explica por que é tão difícil restaurar a esperança. Pior ainda: não existe solução mágica.

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