Donald Trump: morte, destruição e pornografia de guerra. Artigo de Iñigo Sáenz de Ugarte

Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr

Mais Lidos

  • A direita tenta se conectar com as necessidades apresentadas pelas mulheres evangélicas, enquanto o centro e a esquerda têm dificuldade em se aproximarem dessas eleitoras, afirma a socióloga

    A identidade política de direita ainda está em construção. Entrevista especial com Jacqueline Moraes Teixeira

    LER MAIS
  • Irã. Leão XIV: "Profunda tristeza pelo pároco assassinado no Líbano e pelas muitas crianças inocentes"

    LER MAIS
  • Trump afirma agora que a guerra no Irã está “quase terminada”

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Março 2026

A Casa Branca projeta uma imagem da guerra contra o Irã em sua propaganda baseada em tratá-la como um espetáculo que seus seguidores devem desfrutar. A situação nos EUA degradou-se bastante desde que Eisenhower disse: “Odeio a guerra como só pode fazê-lo um soldado que a viveu”.

O artigo é de Iñigo Sáenz de Ugarte, publicada por El Diario, 11-03-2026.

Iñigo Sáenz de Ugarte é jornalista com experiência em imprensa, rádio, televisão e internet.

Eis o artigo. 

Estamos destruindo um país e estamos nos divertindo muito. O ataque norte-americano e israelense ao Irã permitiu à Casa Branca desenvolver um estilo de propaganda visual com o objetivo de que seus apoiadores do mundo MAGA desfrutem do momento. Antes de se perguntar pelo custo humano de uma campanha de bombardeios ou pelo impacto que já está tendo no mercado de petróleo, Donald Trump quer que seu público desfrute de um grande espetáculo. Relaxem e aproveitem.

"Um sujeito muito perigoso": alarme no Exército enquanto Pete Hegseth desfruta da carnificina da guerra “Justiça ao estilo americano”, diz um dos vídeos divulgados pelas contas da Casa Branca nas redes sociais. É uma mistura de glorificação da guerra e masculinidade tóxica, na qual os ingredientes são cenas de videogames e planos com atores em filmes de ação. Há outro conceito ao qual remete este uso da propaganda: a ‘pornografia de guerra’ (war porn), que tem a ver com vídeos, imagens e discursos que utilizam a violência mais gráfica para obter uma satisfação emocional pela vitória ou o prazer voyeurista do espectador.

Se falamos de masculinidade em sua vertente mais agressiva e, às vezes, histriônica, o melhor exemplo é o Secretário de Defesa, Pete Hegseth (agora chamado de Secretário de Guerra). O apresentador da Fox News, que teve uma passagem não muito brilhante pelo Exército anos atrás, não estava qualificado para chefiar uma gigantesca burocracia militar, mas sim para fingir ser o guerreiro favorito do mundo MAGA — ou, pelo menos, o mais disposto a acatar qualquer ordem de Trump, por mais absurda que fosse. Onde não chega a experiência militar, servem a retórica belicista e as tatuagens sobre as Cruzadas (as dele).

Ele já vinha "aquecido" desde antes da guerra. Com a ideia de que a cúpula militar havia sido abduzida pelos valores progressistas, prometeu meses atrás que iria curar um "paciente doente". “Disseram a toda uma geração de generais e almirantes que deveriam repetir de forma mecânica a falácia demente de que, cito, 'nossa diversidade é nossa força'”, afirmou em setembro. Ele iria acabar com o “Exército woke”, culpado por ter promovido mulheres e negros com o intuito de apostar na diversidade.

Antes de ser nomeado membro do Gabinete, havia defendido na televisão que as mulheres não deveriam fazer parte das unidades de combate. Já no cargo, ocupou-se de decidir que não haverá diferenças de estatura, peso ou de outro tipo nos testes para homens e mulheres. “Se isso significa que não haverá mulheres qualificadas para alguns postos de combate, que assim seja”.

O linguajar vulgar e direto, o mais distante possível do discurso habitual de um político, é um requisito necessário. Por isso, Hegseth quis soar agressivo e exaltado: “Acabamos com essa merda”.

Uma das melhores descrições de Hegseth foi dada pela colunista conservadora Peggy Noonan no The Wall Street Journal. Ela o apresenta como alguém que está “entre um excitado apresentador de televisão matinal e um galo que acredita que foi ele quem fez o sol nascer”. É difícil notar diferenças entre o estilo das declarações públicas de Hegseth e a paródia que fazem dele no programa humorístico Saturday Night Live.

O espetáculo da "Fúria Épica" Os vídeos da conta oficial da Casa Branca buscam dar um ar festivo à guerra e anunciar que a vitória norte-americana é inevitável. Planos de filmes como Coração Valente, Gladiador e, inevitavelmente, Top Gun alternam-se com vídeos da destruição de alvos iranianos. O fato de William Wallace (Mel Gibson em Coração Valente) ser um escocês que luta contra um império, o inglês, traz um elemento irônico que não preocupa os autores do vídeo. O que importa é colocar na tela "caras durões" da ficção para que sirvam de avatares das tropas norte-americanas.

Entre as imagens reais de ataques que se alternam com as referências cinematográficas, estão as do naufrágio do destróier iraniano Iris Dena na costa do Sri Lanka. Foi torpedeado por um submarino dos EUA quando voltava de um encontro internacional de forças navais na Índia. Foram recuperados os corpos de 87 marinheiros e 32 foram resgatados com vida. Houve também cerca de sessenta desaparecidos. Não foi o submarino americano que se deu ao trabalho de salvar a vida dos náufragos, o que suscitou acusações de crime de guerra.

Considerar esse afundamento uma façanha militar e incluí-la nesses vídeos, quando o navio iraniano não esperava enfrentar nenhuma ameaça, é algo mais do que um exagero. Poderia quase ser definido como uma tentativa patética de ostentar vitórias conseguidas com esforço mínimo.

Diante de uma plateia de dirigentes e ativistas republicanos, Trump achou na segunda-feira que era um bom momento para fazer piadas sobre o ataque do submarino. Descreveu uma suposta conversa com um comando militar da Marinha: “Eu disse a ele: 'Por que vocês não se limitaram a capturar o navio? Poderíamos aproveitá-lo. Por que o afundaram?'. Ele disse: 'É mais divertido afundá-lo'” (risos da plateia).

As imagens de videogames são outro recurso utilizado nesta propaganda bélica contemporânea. Apresentar a guerra como um grande espetáculo leva facilmente a recorrer a exemplos da cultura popular nos quais a morte do rival é uma grande vitória a ser celebrada e a própria morte é apenas uma ocorrência do jogo, obrigando apenas a recomeçar. Em um caso específico, a Casa Branca chegou a inserir um “+100” após cada explosão, como se fosse o bônus de pontos ou vidas habitual em um videogame. Talvez tenham pensado que haviam passado do ponto, pois mais tarde o deletaram.

O próprio nome da operação atribuído pelo Pentágono — “Epic Fury” (Fúria Épica) — poderia aparecer na capa de um videogame ou no título de um filme cujo maior atrativo é o número de tiros e explosões. Essas duas palavras ao lado da imagem de um caça no convés de um porta-aviões serviriam como pôster de filme. Isso não impede que outras pessoas distorçam a mensagem alterando uma única palavra.

Inserir um plano do Bob Esponja entre uma série de explosões pode parecer o ápice da frivolidade, e fazê-lo no meio de uma guerra, quase imperdoável. Mas a intenção é essa. Quando você acredita que a guerra será um passeio sem interrupções, acha que pode se permitir esse sentimento de superioridade.

O arcebispo de Chicago ficou tão incomodado com a falta de sensibilidade refletida nos vídeos da Casa Branca que julgou oportuno emitir um comunicado acusando o governo de converter o sofrimento dos iranianos em uma forma de entretenimento. “Quanto mais tempo estivermos cegos para as terríveis consequências da guerra, mais nos arriscaremos a perder o presente que Deus nos concedeu: nossa humanidade”, disse o cardeal norte-americano Blase Cupich. “O Irã é uma nação de pessoas, não um videogame que outros jogam para nos entreter”.

Muitos analistas comentaram que a administração de Trump não conta com um plano para o "dia seguinte", nem uma ideia definida sobre como e em que condições poderia pôr fim à guerra. Muitas das opiniões de seus líderes estão tingidas de uma ignorância assombrosa sobre o Irã, sua história e as características de seu regime — algo inexplicável em relação a um país que aparece nas manchetes dos EUA há décadas. Há pessoas que não aprendem nem pela repetição.

Houve um tempo em que os grandes guerreiros dos EUA, aqueles que combateram os nazistas na Segunda Guerra Mundial, eram muito conscientes da tragédia que a guerra supunha. “Odeio a guerra como só pode fazê-lo um soldado que a viveu, como alguém que viu sua brutalidade, sua futilidade, sua estupidez”, disse o general Eisenhower em 1946.

A situação degradou-se bastante em nossos dias. Enquanto Hegseth bate no peito com o estilo involuntariamente cômico dos espartanos que aparecem no filme 300, Trump permite-se divagar sobre a duração da guerra, mudando de opinião de um dia para o outro. “O senhor disse que a guerra estava concluída”, perguntou um jornalista na coletiva de segunda-feira. “Mas seu Secretário de Defesa diz que 'isso apenas começou'. Em que ficamos?”. “Poderiam ser as duas coisas”, respondeu Trump. A única coisa garantida é o culto à personalidade — a dele — e a diversão de seus seguidores.

Leia mais