O momento Leão de Würzburg. Artigo de Michael Schrom

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03 Março 2026

"Wilmer satisfaz o desejo de muitos bispos de uma comunicação menos conflituosa com Roma. Por um lado, porque fala italiano fluentemente e está muito familiarizado com a 'romanidade', os costumes da Cúria. Contam que o Papa Francisco queria até nomeá-lo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Wilmer sempre ocupou cargos de gestão. Mas ele não se define por sua posição. Ele também continuará sendo um intelectual livre, o que poderia comportar surpresas em qualquer direção", escreve Michael Schrom, teólogo católico, em artigo publicado por Publik Forum, 26-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Glória a Deus nas alturas!” A primeira saudação do novo presidente da Conferência Episcopal, D. Heiner Wilmer, deixa todos de ouvidos em pé. A combinação de devoção e clareza política é um dos pontos fortes do bispo de Hildesheim. O confronto com o AfD poderá ser um primeiro teste dessa clareza.

O dia da eleição de Heiner Wilmer como novo presidente da Conferência Episcopal Católica começa com uma missa às 7h30. Rainer Maria Woelki oficia a celebração, que comemora a memória do apóstolo Matias, que, segundo os Atos dos Apóstolos, foi escolhido por sorteio como sucessor de Judas Iscariotes.

Para o Cardeal de Colônia Woelki, esse é um excelente ponto de partida para sua homilia. Em sua visão, essa história é um exemplo perfeito de como se tomam as decisões certas em matéria de escolha das pessoas na Igreja. Claro que, neste dia, os bispos alemães não buscam um substituto para Judas, mas apenas um sucessor para D. Georg Bätzing como presidente da Conferência

Mas Woelki não quer renunciar à polêmica contra as decisões por maioria. E então, olhando para a eleição dos apóstolos, afirma: "No entanto, eles não optam por votar, caso contrário, uma potencial minoria derrotada teria que se submeter ao resultado da eleição. Não, primeiro rezam juntos. Rezam juntos para que a vontade de Deus se manifeste. E a isso — à vontade de Deus e somente a isso — eles vincularão sua decisão."

O problema é que, ao que parece, mesmo após a oração, os apóstolos não sabiam se Deus era mais favorável a José Barsabás, apelidado de Justo, ou a Matias, e por isso a decisão foi tomada por sorteio. No entanto, o Cardeal de Colônia não falou desse detalhe em sua homilia. De qualquer forma, mais tarde, os bispos reunidos na casa de Burkadus não fizeram sorteio, mas votaram segundo o princípio da maioria. 

Aparentemente, foram necessárias três rodadas de votação. A partir desse ponto, em vez de uma maioria de dois terços, uma maioria simples de votos é suficiente. Quatro horas após a homilia de Woelki, D. Heiner Wilmer, de Hildesheim se apresenta diante das câmeras. Ele não diz que foi escolhido por Deus, mas que quer colocar Deus no centro, "como um peregrino — com o Evangelho na mão e o olhar direcionado para as pessoas”.

No início, uma citação do Evangelho de Lucas. Vive-se um momento "leonino" em Würzburg. Wilmer também é um religioso, como o Papa Leão XIV, e também não era considerado o favorito entre os observadores eclesiásticos. E, como o Papa, viveu em diversos continentes e em diversas culturas. A maior semelhança, porém, está na saudação. Wilmer inicia sua primeira coletiva de imprensa com as palavras: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens". Não um "Bom dia" ou um "Olá", mas uma citação do Evangelho de Lucas. Wilmer está extremamente nervoso, emocionado, mas também alegremente comovido.  Parece um pouco rígido, mas de uma forma simpática e humana.

Em seu celular, preparou algumas frases sobre o ecumenismo, o quarto aniversário do início da guerra na Ucrânia, a importância das vítimas de abusos ("A voz delas é importante"), a democracia em perigo na Alemanha. Sobre o papel da mulher na Igreja, diz: "Estou comprometido em valorizar as competências das mulheres, para torná-las visíveis e promovê-las". É uma formulação extremamente diplomática que pode significar qualquer coisa, visto que evita a palavra provocativa "ordenação".

Wilmer satisfaz o desejo de muitos bispos de uma comunicação menos conflituosa com Roma. Por um lado, porque fala italiano fluentemente e está muito familiarizado com a "romanidade", os costumes da Cúria. Contam que o Papa Francisco queria até nomeá-lo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Wilmer sempre ocupou cargos de gestão. Mas ele não se define por sua posição. Ele também continuará sendo um intelectual livre, o que poderia comportar surpresas em qualquer direção.

O termo "caminho sinodal", no entanto, não é usado. Pode-se acreditar que ele apoia as demandas do Caminho sinodal, mesmo que isso não se aplique a todas as demandas e mesmo que pareça estranho que o termo "caminho sinodal" não tenha sido mencionado em seu primeiro discurso — afinal, o processo de reforma foi um dos principais temas da Igreja Católica nos últimos seis anos. Como ficou evidente desde sua primeira aparição, os debates sobre estruturas não são seu tema favorito. Isso também poderia torná-lo similar ao Papa Leão.

Uma viagem conjunta com representantes do ZdK (Comitê Central dos Leigos Católicos Alemães) a Roma para negociar in loco com os bispos competentes — um desejo repetidamente expresso por Bätzing e por Irme Stetter-Karp com grande valor simbólico — está fora de questão. Wilmer irá sozinho. Sozinho: isso, porém, não o torna um defensor daqueles que criam empecilhos para as reformas. Talvez ele consiga realizar mais nos bastidores do que se imagina.

Georg Bätzing, seu antecessor, que desempenhou um trabalho incansável em tempos difíceis e contribuiu de maneira determinante para a mudança cultural na Igreja Católica, pareceu satisfeito com a escolha, assim como o Cardeal Marx, cocriador do Caminho Sinodal. Marx se misturou aos jornalistas na sala de imprensa para assisti ao vivo à primeira aparição do novo presidente. Com surpreendente rapidez e sem muita pompa, o estatuto da Conferência Sinodal foi aprovado pelos bispos. Agora será encaminhado a Roma. Segundo vários bispos, não se esperam objeções. E por que haveria? O estatuto é tão diluído que não representa nenhuma ameaça para a concepção clássica dos bispos. No entanto, é simbolicamente significativo.

Num momento em que, segundo a vontade papal, a Igreja universal deveria praticar a sinodalidade, trata-se de um primeiro exemplo, ainda que imperfeito, de como poderia se apresentar concretamente algo assim. O estatuto traz maior transparência ao setor financeiro, pelo menos cria cargos para observadores/observadoras e tem o direito de definir sua própria agenda ou convocar uma assembleia. O único ponto de atrito poderia ser a questão da representação do povo de Deus. Segundo a concepção romana, isso só é possível de acordo com o rígido esquema dos papéis de vocação e ordenação. Wilmer talvez ainda precisará explicar bastante aos romanos que, no futuro, as católicas e os católicos serão eleitos, e não nomeados pelo bispo, como representantes do povo de Deus em um órgão de primeiro plano. Se ele for bem-sucedido, terá alcançado um nível de inculturação que não deve ser subestimado.

Contra a imagem do Islã como inimigo

De acordo com o estatuto, a tarefa mais importante da nova conferência sinodal é emitir declarações conjuntas sobre questões sociopolíticas. Mas será que se conseguirá maior repercussão na opinião pública se bispos e leigos se expressam juntos sobre questões sociopolíticas? Até o momento, nem os bispos nem o Comitê Central dos Católicos Alemães se mantiveram em silêncio sobre determinados assuntos, mesmo que o impacto de suas intervenções tenha sido limitado. Exceto a declaração dos bispos sobre o AfD e o nacionalismo populista, para a qual Wilmer contribuiu significativamente como presidente da Comissão para as questões sociais, o novo presidente mais uma vez se distanciou como Igreja claramente do AfD.

Ele assumiu a avaliação do bispo de Magdeburgo, D. Gerhard Feige, que lamenta que a plataforma eleitoral do AfD difame as igrejas, retratando-as como inimigas, e reconhece nisso uma continuação da política religiosa da RDA, com o objetivo de "destruir os alicerces financeiros das igrejas". Também em termos de conteúdo, Wilmer não deixou dúvidas: "O nacionalismo populista e os slogans desrespeitosos do AfD não têm lugar na Igreja Católica. Nós nos opomos que nossos temas sejam retomados e transformados em pensamento e ação nacionalistas". Não pode existir um cristianismo alemão. Portanto, "as pessoas em nosso país deveriam ser muito cuidadosas e não se deixar seduzir pelas palavras aparentemente atraentes do AfD". "Vamos combater o mal desde o início! Vamos proteger nossa democracia!"

O novo "Manual sobre as relações cristão-muçulmanas na Alemanha", com 180 páginas, chega, portanto, no momento oportuno. De fato, o "Islã" não apenas se tornou o inimigo declarado do AfD, como também um desprezo generalizado pelo Islã está se espalhando entre a classe média burguesa. "As mulheres que usam o véu estão entre os grupos mais discriminados do país", afirmou o jurista Mathias Rohe, de Erlangen, durante a apresentação do documento. Os muçulmanos seriam "associados de forma sumária às sociedades muçulmanas estrangeiras majoritárias e às suas realidades, assim como os judeus alemães, que são associados sem hesitação a Israel e às suas políticas". 

Rohe alertou veementemente contra a equiparação de atitudes e orientações conservadoras ao islamismo. "Quem marginaliza de forma sumária o segmento mais conservador da população muçulmana prejudica o Estado de Direito e a paz social." Sem dúvida, o extremismo religioso islâmico é uma ameaça que exige a imposição de limites apropriados. No entanto, essa é uma tarefa que diz respeito à sociedade como um todo e "não pode ser atribuída exclusivamente às minorias diretamente afetadas".

Tobias Specker, professor de Teologia Cristã diante do Islã, recomendou que o Islã não seja considerado apenas em termos de integração ou pluralidade social, mas sim compreendido como "um fenômeno religioso". É nisso que deveria entrar a contribuição específica das Igrejas e dos crentes. Contudo, não numa tosca competição, segundo o lema "o meu Deus é melhor que o teu Deus", mas sim na consciência da relação mútua. "Sem o judaísmo rabínico e o cristianismo sírio, não haveria o Islã; sem o Islã, não haveria a teologia judaica, aquela árabe-cristã e provavelmente nem sequer aquela latino-ocidental", afirmou Specker.

O que é verdade em grande escala também vale em pequena escala. Dunya Elemenler, presidente da Sociedade Cristã-Islâmica, falou com muita clareza sobre o atendimento psicossocial de emergência na Renânia do Norte-Vestfália, onde conselheiros muçulmanos estão presentes, além de conselheiros cristãos.

Precisamos ser ousados e nos empenharmos mais com o trabalho de relacionamento em nível religioso: todos os oradores concordaram com isso. Disso fazem parte tanto a educação e instrução religiosa quanto o encontro religioso. Levar a sério as pessoas de diferentes crenças não significa considerar tudo como bom. Significa, isso sim, procurar pontos em comum e fazer tudo o que for possível para evitar que a religião se torne um amplificador dos conflitos sociais.

Os frutos de um diálogo inter-religioso sincero poderiam, segundo Specker, ser um enriquecimento para uma sociedade secular incapaz de alcançá-lo sozinha. O documento de trabalho cita três elementos: misericórdia em vez de auto-otimização; esperança em vez de ativismo e/ou resignação; e oração como contraponto à comunicação contínua.

"Para que as pessoas que rezam possam ser um exemplo da seriedade do ato de falar e de permanecer em silêncio." E isso, de certa forma, fecha o círculo com Wilmer. Quando questionado, após sua eleição, sobre o que o inspirava espiritualmente, ele citou os diários da intelectual judia holandesa Etty Hillesum, assassinada pelos nazistas em Auschwitz em 1943. Ele a admira pela maneira como continuou a rezar em tempos de perseguição iminente, encontrando conforto na oração. Segundo Hillesum, três coisas fazem sentido pela manhã: uma ducha fria, um momento de silêncio interior e um diário a ser compilado cotidianamente.

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