02 Março 2026
O primeiro papa americano usou seu Angelus para fazer um forte apelo moral pelo fim da Operação Fúria Épica — o mais recente de uma série de oposições proféticas às campanhas militares de Trump em todo o mundo.
O artigo é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 01-03-2026.
Christopher Hale é delegado da Convenção Nacional Democrata, ex-funcionário da Casa Branca e da campanha de Obama-Biden.
Eis o artigo.
Na manhã de domingo, enquanto a fumaça ainda pairava sobre Teerã e Isfahan, o Papa Leão XIV compareceu perante os fiéis na Praça São Pedro e fez o que tem feito em todos os momentos: falou a verdade.
“A estabilidade e a paz não se constroem com ameaças mútuas, nem com armas, que semeiam destruição, dor e morte”, declarou o Papa, com a sua voz a ecoar entre os milhares de pessoas reunidas para o Angelus, “mas apenas através de um diálogo razoável, autêntico e responsável”.
As palavras foram ditas menos de 36 horas depois de o Pentágono ter lançado a Operação Fúria Épica — um ataque conjunto EUA-Israel que atingiu centenas de alvos em todo o Irã, matando o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei, arrasando instalações militares de Teerã até a costa sul e, de acordo com o Crescente Vermelho Iraniano, causando mais de 200 mortes — incluindo pelo menos 85 crianças em uma escola primária feminina.
Oitenta e cinco crianças.
Como relatei ontem, uma fonte próxima ao pontífice me disse que Leão XIV considerava os ataques “imorais, ilegais e uma grave ameaça a toda a família humana”. Hoje, ele tornou essa convicção pública — e inequívoca.
“Diante da possibilidade de uma tragédia de proporções enormes”, continuou o Papa, “dirijo-me às partes envolvidas com um apelo sincero para que assumam a responsabilidade moral de deter a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável!”
Um Papa que prevê o futuro
O que torna o testemunho moral do Papa Leão XIV tão extraordinário não é apenas o fato de ele falar depois da queda das bombas. É o fato de ele falar antes que elas aconteçam — e o mundo o ignorar.
Quando Donald Trump enviou forças especiais à Venezuela em janeiro para prender o presidente Nicolás Maduro, o Papa já havia alertado contra essa medida. "Acredito sinceramente que seja melhor buscar formas de diálogo, talvez pressão, inclusive pressão econômica", aconselhou Leão XIV — palavras que foram ignoradas quando soldados americanos desembarcaram em solo venezuelano.
Quando o governo voltou sua atenção para Cuba, ameaçando um bloqueio econômico que, segundo os próprios bispos cubanos, poderia desencadear “caos social e violência”, o Papa Leão XIV expressou sua “grande preocupação” e pediu um diálogo “sincero e eficaz”.
O Vaticano começou discretamente a mediar entre Washington e Havana — uma diplomacia que, segundo fontes, continua não sendo “nem tranquila nem fácil”.
E quando Trump intensificou as ameaças contra as instalações nucleares do Irã em junho passado, o Papa Leão XIV estava nesta mesma praça e implorou: "Parem a tragédia da guerra antes que ela se torne um abismo irreparável."
Ele alertou que “a guerra não resolve problemas, mas sim os amplifica e produz feridas profundas na história dos povos, que levam gerações para cicatrizar”.
Ninguém deu ouvidos. E agora o abismo se abriu.
O Crescendo Moral
Há um padrão aqui que exige nossa atenção. Venezuela. Cuba. Irã — duas vezes. Em cada caso, o primeiro papa americano se colocou entre a máquina do poderio militar americano e os povos que ela esmagaria. Em cada caso, ele falou primeiro na linguagem da diplomacia e depois, quando a diplomacia foi ignorada, na linguagem da profecia.
Em seu discurso anual sobre o Estado do Mundo, dirigido a 184 embaixadores em janeiro deste ano, o Papa Leão XIV alertou que “a guerra voltou à moda e o zelo pela guerra está se espalhando”.
Aquelas palavras não eram abstratas. Eram um diagnóstico. Ele estava nomeando a doença que via se alastrando por Washington — um governo viciado na força, que desprezava o diálogo e era indiferente aos corpos que deixava para trás.
Hoje, ao encerrar sua oração do Angelus, o Papa ofereceu o que equivalia a uma prece e uma ordem: “Que a diplomacia recupere seu papel e que o bem dos povos seja promovido, povos que anseiam por uma convivência pacífica fundada na justiça. E continuemos a rezar pela paz.”
A diplomacia vinha recuperando seu papel. Um ministro das Relações Exteriores de Omã havia anunciado que o Irã concordara com concessões nucleares. A paz estava, na avaliação do próprio papa, ao alcance. E então as bombas caíram.
A teologia moral católica é inequívoca a esse respeito.
A tradição da guerra justa — desenvolvida por Agostinho, refinada por Tomás de Aquino e reafirmada por todos os papas, de Leão XIII a Leão XIV — exige que a guerra seja o último recurso, que proteja os inocentes e que a violência infligida não exceda a ameaça.
Um ataque que mata 85 meninas em idade escolar enquanto um canal diplomático permanece aberto viola todas essas condições.
Em termos simples, é pecado.
Este é um momento que definirá este pontificado — e deveria nos definir também. O Papa passou nove meses construindo, tijolo por tijolo, um argumento moral de que o Evangelho não se curva à bandeira. Nem mesmo à bandeira americana.
Ele fez o que os profetas fazem: avisou, avisou e avisou novamente. E hoje, de pé sob a luz do sol da Praça São Pedro, com o peso da morte de crianças em sua consciência e na nossa, ele avisou mais uma vez.
A questão já não é se o Papa Leão XIV se posicionará contra esta guerra. Ele já se posicionou. A questão é se nós o apoiaremos.
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