A esperança sem horizonte. Discurso de Adon Naaman

Foto: RS/FotosPúblicas

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02 Março 2026

A meditação sobre A esperança sem horizonte de Adon Naaman, pastor em Homs, na Síria, reflete uma experiência que não é exclusiva da Síria: "é compartilhada por muitos em nosso mundo, em Gaza, Sudão, Líbano, Ucrânia, em todos os lugares onde as pessoas acordam sem saber o que o amanhã lhes reservará."

O discurso é de Adon Naaman, publicado por Action Chrétienne en Orient e reproduzido por Garrigues Et Sentiers, 27-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o discurso.

Há vários anos, a Síria vive o que só poderia se descrever como um "talvez" permanente. Talvez haja paz. Talvez haja eletricidade amanhã. Talvez nossos filhos tenham um futuro aqui — ou talvez em outro lugar.

Aprendemos a viver um dia de cada vez, a preservar cuidadosamente nossos sonhos, como se fossem de vidro.

No início, costumávamos dizer: "Um dia, tudo isso vai acabar." Mas, após anos de guerra e deslocamentos, as pessoas pararam de contar os dias. Aprendemos uma nova maneira de viver, uma maneira em que o horizonte desaparece e se continua a ir em frente, apesar de tudo.

Mas será que essa experiência é exclusiva da Síria? Ela é compartilhada por muitos em nosso mundo: em Gaza, no Sudão, no Líbano, na Ucrânia, em todos os lugares onde as pessoas acordam sem saber o que o amanhã lhes reserva.

Nesse terreno de incerteza, algo começou a crescer em mim, lenta e silenciosamente, uma nova maneira de compreender a fé e a esperança. Uma teologia que nasceu não dos livros ou de conferências, mas do ato diário de sobreviver com dignidade.

Eu a chamo de "esperança sem horizonte". O que significa?

Esperança sem horizonte é a esperança que se cultiva quando o futuro é incerto. É a fé que nos impulsiona a seguir em frente quando a estrada se desvanece na névoa.

Não se trata de ver a luz no fim do túnel, mas de se tornar luz dentro do túnel.

Há uma citação do dramaturgo sírio Saadallah Wannous que sempre gosto de lembrar. Ele diz: "Estamos condenados a ter esperança". Acho que ele queria dizer que a esperança não é uma opção para nós.

Não é um estado de espírito. É uma atitude de sobrevivência.

É a única coisa que nos permite permanecer humanos quando tudo o mais desmorona. Na Síria, descobri que estamos condenados não apenas a ter esperança, mas também a aceitar o nosso contexto.

Não podemos escolher tempos de paz para a nossa fé. Vivemos a nossa teologia no coração da tempestade, não para além dela.

É por isso que acredito que a esperança sem horizonte não é um luxo reservado para os dias bons. É o oxigénio espiritual dos dias ruins. É o que permite às pessoas continuarem atentas aos outros, a servir e a crer, mesmo quando nada faz sentido.

Não é otimismo — o otimismo consiste em esperar que as coisas melhorem. A esperança, na nossa experiência, é outra coisa. A esperança é a decisão de continuar sendo fiel, mesmo que as coisas não melhorem. Por vezes, a vida parece exatamente esta imagem: uma estrada que desvanece na névoa.

Não sabemos para onde leva. Sabemos apenas que temos de continuar a caminhar.

Essa é a esperança sem horizonte.

Há uma passagem na Bíblia que sempre me toca profundamente: “Lamentações 3,21-23”. “Disso me recordarei na minha mente; por isso esperarei. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade”.

Essas palavras foram escritas após a destruição de Jerusalém — a cidade em ruínas, o povo exilado, o templo destruído.

Nenhum horizonte.

Nenhum plano.

Nenhum futuro.

E, no entanto, essa voz ousa dizer: “Tenho esperança.” Eis o cerne da esperança sem horizonte. Não é uma esperança que nega a dor, mas que se expressa por meio da dor. Não espera que a situação melhore, cria sentido em meio às ruínas.

Outra história que sempre me inspira é a de Abraão. O livro de Gênesis diz: “Ele partiu, sem saber para onde ia.” A jornada de Abraão começou sem um mapa. A fé não era um GPS, era uma relação. Ele depositava a sua confiança naquele que o havia chamado, e não na certeza do destino.

E é o mesmo esquema que vemos repetir-se inúmeras vezes nas Escrituras: Deus não encontra as pessoas no fim do caminho, mas na névoa.

Moisés no deserto. Elias na caverna. Os discípulos na tempestade.

Em todos os casos, a esperança não consiste em eliminar a incerteza, é sua transformação. Como se Deus murmurasse: "Você não precisa ver o horizonte. Basta ter confiança de que estou caminhando ao seu lado."

(...) A esperança sem horizonte é a perseverança. É a fé que se recusa a abandonar o testemunho.

Na Síria, a perseverança parecia muito simples. Era como um pastor que mantinha a igreja aberta mesmo quando a congregação tinha apenas três pessoas. Era como os voluntários da escola dominical que continuavam a ensinar crianças nos porões durante os bombardeios. Era como os anciãos do conselho que continuavam a distribuir ajuda a todos os habitantes da cidade, mesmo sem confiar em seus vizinhos.

Nenhum deles sabia se seu trabalho iria mudar alguma coisa. Eles simplesmente acreditavam que o amor sempre vale a pena ser praticado.

Esse é o testemunho. Essa é a perseverança.

Para mim, perseverar no testemunho significa manter acesa a luz — não até o amanhecer, mas como luz que permanece mesmo depois que o horizonte desaparece. E talvez seja exatamente isso que o mundo precisa ver na Igreja. Não doutrinas rígidas, não estruturas imponentes, mas comunidades que ousam ter esperança sem garantias. Igrejas que continuam sendo humanas, misericordiosas e fiéis mesmo quando os resultados são invisíveis. A teologia não consiste em prever o futuro. Consiste em cultivar uma fé que pode sobreviver quando o futuro desaparece.

(...) Mas também aprendi algo mais profundo: mesmo quando não vemos o destino, podemos sempre caminhar juntos. A esperança sem horizonte nos ensina a comunidade — pois na névoa, ninguém caminha sozinho.

E talvez seja isso que Deus está ensinando à Igreja global em nossa época: parar de depender da certeza e começar a depender uns dos outros — e da graça.

Minha oração (...) é que podemos aprender a teologia da esperança sem horizonte: perseverar não porque vemos o destino, mas porque confiamos naquele que caminha ao nosso lado.

Porque talvez—talvez...—a esperança sem horizonte não é o fim da fé... mas a sua forma mais pura.

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