27 Fevereiro 2026
“Enquanto os gastos militares e de guerra aumentam o PIB, o mesmo não acontece com o trabalho doméstico e de cuidado; ou seja, a economia política considera as guerras destrutivas para a humanidade mais importantes do que as atividades que possibilitam a vida. Em suma, de acordo com os cânones da economia capitalista, as mulheres representam um déficit, porque o trabalho de cuidado que realizam não é remunerado ou é mal remunerado”. A reflexão é de Maria Dell’Anno Sevi, em artigo publicado por Jacobin, 19-02-2026. A tradução é do Cepat.
Maria Dell’Anno Sevi é autora do livro E ‘l modo ancor m’offende. Voci di donne vittime di feminicídio (Edizioni San Paolo, 2022), que ganhou o Prêmio Literário Jornalístico Nadia Toffa 2023, o Prêmio Literário Emily 2024 e o Prêmio Nacional de Poesia e Narrativa Alda Merini 2025.
Eis o artigo.
“A economia é a língua materna da política, é a linguagem do poder”. Em um mundo capitalista, “o que podemos nos permitir é equivalente ao que é possível fazer”. Mas, pergunta-se Emma Holten: “como é calculado o valor na sociedade?”
A escritora e ativista feminista dinamarquesa Emma Holten, em seu livro Deficit. Perché l'economia femminista cambierà il mondo (La Tartaruga, 2025), questiona a estrutura aparentemente imutável da economia global, perguntando: quando deixaremos de considerar o trabalho de cuidado das mulheres como um déficit, uma perda em termos econômicos? A autora relata sua indignação ao ler um artigo sobre a economia dinamarquesa que rotulava as mulheres como um “déficit para os cofres públicos”: porque elas realizam trabalhos de menor remuneração ou em tempo parcial e, portanto, pagam menos impostos e contribuem menos para o PIB; elas dão à luz e tiram licença-maternidade; e dedicam uma quantidade significativa de tempo ao cuidado dos outros. Portanto, de uma perspectiva econômica, elas não produzem valor. Mas como exatamente o valor é calculado em nossa sociedade?
Quando tudo é definido por um preço, cria-se uma hierarquia, e as coisas que parecem difíceis de precificar acabam na base dessa hierarquia. Isso não significa que essas coisas não tenham de fato valor, mas que, no discurso econômico e político, elas são tratadas como se não tivessem. “Quando uma coisa não tem preço, seu preço se torna zero”. Para o capitalismo, o que não tem preço não tem valor. E o que não tem valor é considerado uma despesa.
A economista Clara E. Mattei, professora da New School for Social Research de Nova York e neta da conselheira partidária e constituinte Teresa Mattei, enfatiza em seu livro L’economia è politica (Ediciones Fuoriscena, 2023) que fomos levados a acreditar que a economia é uma ciência exata e que o capitalismo é o único modo de vida possível. Na realidade, o capitalismo é uma escolha política, e o capital, enquanto mercadoria, enquanto dinheiro para investimento, enquanto riqueza expressa no PIB, “existe graças a relações sociais específicas e, em particular, graças ao fato de que a maioria da população mundial não tem alternativa a não ser vender sua força de trabalho por baixos salários e receber menos do que o valor que produz. Essa é a ‘ordem do capital’ sobre a qual nunca falamos, mas que é o alicerce da nossa sociedade”.
Quantas vezes ouvimos ou dizemos que ter um emprego, seja ele qual for, por pior que seja, é uma sorte pela qual devemos ser gratos? Pois bem, somos gratos por termos nos submetido às engrenagens de um sistema que, graças ao nosso trabalho, enriquecerá apenas uma pequena porcentagem de ricos: é o medo de perder o emprego que nos faz aceitar condições de trabalho cada vez piores. O problema é que, se as pessoas realmente percebessem que estão sujeitas a um sistema injusto baseado na dominação de classe e parassem de aceitar a condição de receber baixos salários, o próprio alicerce do sistema econômico em que vivemos entraria em colapso: o capitalismo é, de fato, incompatível com a democracia, assim como é incompatível com a sustentabilidade da vida.
Tentemos reler as leis orçamentárias anuais sob a perspectiva de Clara Mattei: se o Estado italiano, como a maioria dos Estados do mundo, aumenta os gastos militares ou os gastos destinados a salvar ou apoiar os bancos e as empresas em dificuldades, e ao mesmo tempo corta gastos sociais (saúde, educação, transporte, obras públicas, seguro-desemprego, etc.), está estruturalmente transferindo os recursos dos muitos cidadãos que dependem dos salários que recebem para os poucos que vivem da renda gerada pela riqueza que possuem.
Em outras palavras, não se trata de os Estados não deverem gastar, mas de “gastarem da maneira correta”, isto é, em favor da elite econômica e financeira e em detrimento da maioria da população. É assim que o sistema capitalista se autoalimenta, justamente explorando essa sensação de inevitabilidade que os economistas nos incutiram. Clara Mattei resume isso de forma sucinta:
“Chegou a hora de parar de acreditar na ideia de que, na sociedade capitalista, faz sentido discutir políticas econômicas consideradas certas ou erradas em nome de um ilusório bem comum. Precisamos perceber que, no sistema capitalista, as políticas econômicas operam em benefício de poucos e em detrimento da maioria. Nossa máquina econômica não está estruturada para satisfazer as necessidades das pessoas comuns, mas para aumentar a renda e os lucros dos poucos que detêm o capital. O que é vantajoso para o lucro é, sem dúvida, prejudicial à maioria das pessoas, já que a vantagem para os primeiros se baseia, em grande parte, no sacrifício dos últimos.”
Os homens construíram uma sociedade sobre fundamentos patriarcais, antropocêntricos e capitalistas, ignorando a interdependência e a ecodependência. No entanto, como Giovanna Badalassi e Federica Gentile nos lembram em seu livro Signora Economia (Le Plurali, 2024), o termo “economia” significa, etimologicamente, “gestão doméstica”, um significado que imediatamente remete à esfera doméstica, e não à esfera produtiva pública.
Emma Holten, portanto, propõe a adoção de uma perspectiva feminista para a economia. A economia feminista centra-se nas pessoas e nas relações humanas, em vez do mero lucro, na satisfação das necessidades básicas, em vez da gratificação dos desejos, salvaguardando simultaneamente a equidade e a democracia. Nas palavras de Marcella Corsi, tradutora do livro Economia femminista. Proposte, pratiche e sfide (Alegre, 2025), “a economia feminista não é simplesmente mais um ramo da economia política, mas outra forma de compreender o mundo, uma tentativa de construir um paradigma econômico alternativo ao dominante, gerador de múltiplas desigualdades”.
Holten coloca na base da economia feminista a reprodução e o trabalho de cuidado – “isto é, todas as atividades remuneradas e não remuneradas necessárias para manter as pessoas saudáveis, em forma, felizes e vivas”, desde a escola primária até o consolo de um amigo: uma vez que nenhum ser humano pode sobreviver sem que outros cuidem dele mais cedo ou mais tarde, o trabalho de cuidado é o que torna possível qualquer outro trabalho. “A economia feminista recebe este nome porque, para o bem ou para o mal, tanto no passado como no presente, as mulheres dedicam mais tempo a estas atividades”.
É surpreendente que essas reflexões venham da Dinamarca, um dos países mais igualitários do mundo; no entanto, mesmo ali, Emma Holten destaca que as mulheres passam, em média, 54 minutos a mais por dia trabalhando em casa do que os homens.
Na Itália, segundo o Istat (Instituto Nacional de Estatística da Itália), uma mulher que trabalha em tempo integral e tem filhos dedica cerca de 60 horas semanais ao trabalho remunerado, às tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos, em comparação com 47 horas para seu parceiro, uma disparidade de cerca de 13 horas (superior à média europeia de 11). De acordo com o relatório publicado pela Organização Internacional do Trabalho e pela Federcasalinghe (Associação Italiana de Trabalhadores), o trabalho de cuidado não remunerado representa 85% do trabalho não remunerado na Itália, equivale a um quarto do PIB e é realizado 71% por mulheres.
No mundo, segundo a ONU, as mulheres realizam pelo menos 2,5 vezes mais trabalho doméstico e de cuidado do que os homens. De acordo com dados da Comissão Europeia, 79% das mulheres na UE realizam tarefas domésticas diariamente, em comparação com 34% dos homens. No entanto, a economia estabelecida tem dificuldade em mensurar o valor do trabalho de cuidado, que na maioria dos casos – remunerado ou não – é realizado por mulheres.
“Para mim, o feminismo sempre foi uma tentativa de compreender o que está acontecendo”, explica Emma Holten. E, de fato, o feminismo serve precisamente a esse propósito: olhar com novos olhos para o mundo ao nosso redor, um mundo que nossa cultura nos diz para aceitar como certo, porque, como Clara Mattei também nos lembra, “só se aprendermos a ver o mundo de forma diferente é que poderemos agir de forma diferente”. O feminismo serve para demonstrar que é possível viver de forma diferente. E que convém viver de forma diferente.
Holten explica que, para construir um sistema econômico que parecesse seguro, mecânico e matemático, foi necessário isolá-lo do resto da vida, daquela parte da vida em que as mulheres sempre estiveram presentes: o cuidado. O pai da economia moderna, Adam Smith, em seu livro A Riqueza das Nações (1776), estabeleceu uma clara fronteira entre o lar, onde estão as mulheres, e a esfera econômica e social, onde se encontram os homens. O fato de as mulheres reproduzirem e criarem os novos seres humanos destinados a se tornarem a força de trabalho era irrelevante. “Não existia a ideia de que o que acontecia na família pudesse gerar valor econômico”. Assim, nasceu o homo economicus, que toma decisões fazendo cálculos com base no interesse próprio e no desejo de aumentar seus bens. Nesse contexto, o interesse próprio e o egoísmo são a “força motriz” do sistema econômico; o cuidado dos outros é incompatível com esse modelo.
No entanto, como Katrine Marçal nos lembra em O lado invisível da economia (Alaúde, 2017), foram duas mulheres, sua mãe e sua prima, que altruisticamente cozinharam, lavaram e limparam para Adam Smith, permitindo-lhe ter uma vida confortável o suficiente para escrever e promover suas teorias. E é por isso que aqueles considerados os maiores pensadores – homens, brancos, ocidentais, heterossexuais – se apressaram a teorizar que as mulheres são, por natureza, inclinadas ao cuidado e às tarefas domésticas. “Para que a economia adquirisse poder e status equivalentes aos das ciências naturais, foi necessário criar teorias que ignorassem a moral e a filosofia. O legado de Smith é uma visão da humanidade que considera o ser humano racional e egoísta como a base ideal para a construção de modelos mecanicistas da sociedade”.
Para que o mecanismo funcionasse, fez-se a opção de ignorar as consequências materiais e econômicas da interdependência entre as pessoas. Como apontaram na década de 1970 as acadêmicas Mariarosa Dalla Costa e Selma James, fez-se uma opção pela exploração do trabalho feminino não remunerado, que desempenhou um papel central no processo de acumulação capitalista, uma vez que as mulheres eram as produtoras da mercadoria mais importante para o capitalismo: a força de trabalho. Como enfatizou Silvia Federici em Calibã e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação (Elefante, 2023), falar das mulheres nesse contexto “não significa apenas uma história oculta que precisa ser visibilizada, mas uma forma particular de exploração e, portanto, uma perspectiva particular a partir da qual se pode reconsiderar a história das relações capitalistas”.
O sistema econômico é uma construção cultural, não uma realidade inevitável. O PIB é uma construção cultural – aliás, muito recente, desenvolvida após a Grande Depressão da década de 1930 –, e excluir dele atividades não produtivas de certo valor também é uma escolha cultural. “Para o PIB, não há diferença entre cuidar de um grupo de crianças ou tirar uma soneca. Você é improdutivo”. Na realidade, o trabalho de cuidado não remunerado gera benefícios para aqueles que não o realizam, e uma sociedade em que a vida das mulheres fosse idêntica à dos homens tornaria a vida familiar como a conhecemos impossível.
Marilyn Waring, cujo livro If Women Counted: A New Feminist Economics (1988) é considerado um pilar da economia feminista, apontou que, enquanto os gastos militares e de guerra aumentam o PIB, o mesmo não acontece com o trabalho doméstico e de cuidado; ou seja, a economia política considera as guerras destrutivas para a humanidade mais importantes do que as atividades que possibilitam a vida.
Em suma, de acordo com os cânones da economia capitalista, as mulheres representam um déficit, porque o trabalho de cuidado que realizam não é remunerado ou é mal remunerado. Será que nós, mulheres, é que estamos erradas, ou o sistema econômico é inerentemente falho? Emma Holten destaca que “caímos em um paradoxo: por um lado, o trabalho de cuidado parece não ter valor; por outro, torna todo o resto do trabalho possível”. Se confiarmos unicamente na lógica do capitalismo – acreditando que ele é o único sistema econômico possível –, cujo único objetivo é gerar lucros cada vez maiores, continuaremos a nos distanciar daquilo que o sistema não consegue precificar, humilhando as pessoas que se enquadram nessas categorias: “Pode haver muita violência em uma planilha”.
Pedir mudanças em algo tão arraigado que parece inevitável é visto como utópico e ingênuo, mas, especialmente depois que a pandemia nos mostrou nossa fragilidade humana, é hora de escolher entre a humanidade e o lucro. A escolha é possível; essa é a questão.
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