26 Fevereiro 2026
Morto no sábado, 14 de fevereiro, em decorrência de um linchamento nas ruas de Lyon, Quentin Deranque é descrito por seus próximos como um estudante devoto, sem problemas e aplicado, empenhado em ajudar os mais pobres, pouco suspeito de radicalismo. Os pequenos grupos que, desde o fim de semana, prestam homenagem ao seu “companheiro” também contam a história de um jovem em busca de sua identidade. Por meio dele, emerge o retrato da nova juventude de extrema-direita, de um catolicismo integralista e atraído pela “autodefesa”.
A informação é de Clément Guillou e Richard Schittly, publicada por Le Monde, e reproduzida por Settimana News, 24-02-2026.
Estudante de ciência de dados na Universidade Lyon-II, Quentin era também e sobretudo, segundo seus próximos, um paroquiano apaixonado por filosofia e moral, com a convicção de um missionário. Frequentador assíduo da igreja tradicionalista de Saint-Georges, onde a missa é celebrada em latim no bairro da Velha Lyon, ele havia se convertido “há alguns anos”, segundo seu amigo Vincent, que elogiou “suas virtudes morais e espirituais” na emissora de extrema-direita Radio Courtoisie.
“Ele leu muito São Tomás de Aquino, Santo Agostinho”, acrescentou, traçando o retrato de um rato de biblioteca em vez de um “rato negro”, apelido dado aos militantes violentos do Groupe Union Défense (GUD). A visão política radical do jovem transparece nessas palavras: “Era um rapaz normal que havia reencontrado suas raízes. Amava seu país, seu povo, sua civilização, sua religião. Quentin pertence à lenda, já é um herói e um mártir”.
No dia anterior, nos degraus da Sorbonne, em Paris, outro amigo de sua paróquia, Baptiste, o descreveu como “um jovem profundamente devoto, inteligente, curioso (…) um jovem francês, radical em sua fé, com um agudo senso de justiça”. Antes de se transferir para Lyon por motivos de estudo, Quentin Deranque frequentava a paróquia de Notre-Dame-de-l’Isle, em Vienne (Isère), outro local tradicionalista a poucos quilômetros de seu vilarejo de Saint-Cyr-sur-le-Rhône. Segundo relatos de seus familiares, convenceu parte de sua família a se converter e, dois anos atrás, tornou-se padrinho de seu pai na igreja de Saint-Georges, em Lyon.
Nesse contexto, ele também participava das conferências da Academia Christiana, em Lyon, de sua festa de início do ano letivo e de sua peregrinação na Provença. Sob a cobertura de uma escola de fé, a Academia é também um ponto de convergência da extrema-direita radical, defensora da “remigração” e do treinamento para combate físico, cuja lista de leituras recomendadas inclui numerosos autores antissemitas.
À época ministro do Interior, Gérald Darmanin havia prometido sua dissolução em 2023, antes de recuar: nesse meio-tempo, a Academia Christiana se espalhou em diversas “comunidades” por todo o território. “Isso é revelador de uma tendência atual, a dos born again que passam pela Academia e acabam se encontrando apesar das diferenças ideológicas”, observa o teórico identitário Jean-Yves Le Gallou, que encarnava a extrema-direita pagã. “No conjunto, compartilham a mesma luta pela identidade e podem fazer parte de vários grupos ao mesmo tempo”.
Movimento nacionalista-revolucionário
Todas as facções da extrema-direita radical se entrelaçam no percurso pessoal de Quentin Deranque, até seu trágico fim. Foi justamente para proteger o grupo identitário e “femonacionalista” Némésis que o jovem se encontrou frente a frente com um grupo de militantes antifascistas. No entanto, ele próprio era militante do movimento nacionalista-revolucionário (NR), hoje dominante na extrema-direita lionense, que, segundo fontes policiais, conta entre 400 e 500 membros, contra 800 da extrema-esquerda.
Enquanto os identitários se concentram na luta pela “civilização europeia”, necessariamente branca, contra o Islã e a suposta “grande substituição”, os “NR”, igualmente etnicistas, distinguem-se por sua vertente social, seu antissemitismo e o apoio a causas anti-imperialistas — entre elas a luta pela Palestina, tema da conferência da deputada “rebelde” Rima Hassan que o Némésis pretendia perturbar.
Como revelou o site Mediapart, Quentin era membro de um pequeno grupo do Isère, os Allobroges, cujos integrantes cabem nos dedos de duas mãos, segundo o que foi divulgado nas redes sociais. Criado em 2025 em Bourgoin-Jallieu, esse grupo informal havia desfilado à sombra de cruzes celtas durante o desfile anual do Comitê de 9 de Maio, um encontro anual organizado pelo movimento neofascista. Quentin Deranque também estava nas ruas de Paris naquele dia, com o rosto oculto por um gorro e óculos escuros, como quase todos os militantes, confirmou ao Le Figaro um ativista de Lyon.
Antes disso, Quentin havia feito parte da terceira grande corrente da extrema-direita: os monarquistas da Action Française afirmaram, por meio de sua seção de Vienne, que ele militara em suas fileiras. A passagem das fileiras monarquistas para as mais radicais e orientadas à ação violenta dos nacionalistas-revolucionários é comum entre jovens militantes, relata o jornalista independente Sébastien Bourdon, especialista no movimento, em seu livro-investigação Drapeau noir, jeunesses blanches (Seuil, 2025).
Marc de Cacqueray-Valménier, figura de destaque do meio, é o exemplo mais conhecido, tendo ele próprio teorizado a necessidade de criar uma “interfaf”, ou seja, uma aliança entre essas diferentes famílias unidas pela rejeição à esquerda e à imigração e pela defesa da “raça branca”.
“O desaparecimento [das estruturas nacionais] levou a uma fragmentação do movimento em pequenos grupos locais e reduziu a importância das distinções ideológicas”, observa o autor. “A tendência à ‘interfaf’ na ação prevalece sobre os desacordos, que geralmente dizem mais respeito à forma e à aparência do que ao conteúdo”. Uma tendência ilustrada pela coorganização da homenagem de domingo em Paris entre militantes identitários, de um lado, e nacionalistas-revolucionários, de outro.
“Autodefesa branca”
Outro grupo que reivindicou sua vinculação com Quentin Deranque é o Audace Lyon, herdeiro do Bastion Social, grupo nacionalista-revolucionário dissolvido em 2019. Além de um comunicado saudando “nosso companheiro Quentin” e denunciando “a direita parlamentar e sionista”, o Audace Lyon confirmou à AFP, por meio de um porta-voz, a participação do jovem “em numerosos treinamentos esportivos ao nosso lado, inclusive na semana passada”, para praticar boxe ou corrida. Ele não era “nem violento nem agressivo”, ressaltou, no entanto.
Esse grupo neofascista faz do treinamento em “autodefesa branca” (autodéfense blanche) um pilar de seu engajamento, a fim de “defender” o território de Lyon dos antifascistas. Nascido em 2019 para “defender os interesses dos franceses de origem europeia”, o Audace Lyon tem sede na Velha Lyon, epicentro da extrema-direita local, onde também vivia Quentin Deranque. Junto com seu colega de apartamento, Rémy Chemain, ele também treinava boxe e musculação para fortalecer seu físico franzino, contou este último ao Dauphiné Libéré, descrevendo-o como “sério e ponderado”, “absolutamente não violento”.
Quentin não tinha antecedentes criminais, confirmou o procurador de Lyon na segunda-feira, 16 de fevereiro. Rémy Chemain, por sua vez, havia sido encaminhado a julgamento após um ataque contra militantes antifascistas em Lyon, em 2018, juntamente com outros membros do Bastion Social. Diante do tribunal de menores, declarou ter se afastado do movimento nacionalista.
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