Antropologia Social como chave analítica do presente; bases epistemológicas. Artigo de Marcos Aurélio Trindade

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24 Fevereiro 2026

“Pensar o presente com a Antropologia Social é aprofundar criticamente o conceito de neutralidade: é ler a política inscrita nos corpos, a saúde convertida em gestão da vida e a vulnerabilidade como efeito histórico das relações de poderes. Está muito além da visão técnica de percepção social, na observação utilizada no objeto de uma lupa, sobre os corpos que se movimentam. Acredito que estamos impregnados no multiverso socioantropológico, deixando de lado os preconceitos que inviabilizam os saberes”, escreve Marcos Aurélio Trindade.

Marcos Aurélio Trindade é Mestre em Bioética PUCPR e Mestre em Antropologia Social UBA, Membro da Sociedade Brasileira de Bioética.

Introdução

Em um contexto marcado pelo recrudescimento de discursos autoritários, pela intensificação das desigualdades e pela gestão tecnocrática da vida, a Antropologia Social reafirma sua relevância não apenas como campo acadêmico, mas como posição analítica, ética e política diante do mundo contemporâneo. Longe de ser um saber residual ou meramente descritivo, a antropologia opera como crítica radical das naturalizações que sustentam processos de dominação, exclusão e vulnerabilização social. Este artigo de opinião propõe articular contribuições clássicas e contemporâneas da Antropologia Social de Bronislaw Malinowski, Franz Boas, Pierre Bourdieu, de Anthony Giddens a Gustavo Lins Ribeiro, Claude Lévi Strauss, passando pelos estudos do indigenismo de Stephen Grant Baines bem como autores Argentinos da Universidade de Buenos Aires, Maria Rosa Neufeld e Gabriela Novaro, para refletir sobre seu papel estratégico na análise da política, da saúde e da bioética no presente.

Metodologia e aspectos etnográficos

Este artigo opinativo, porém, científico adota uma metodologia etnográfica ensaística de caráter teórico crítico, baseada na leitura interpretativa de autores clássicos e contemporâneos da Antropologia Social. A estratégia metodológica consiste em articular diferentes tradições teóricas antropologia cultural, antropologia reflexiva, antropologia política e antropologia da saúde com a análise de processos sociais contemporâneos, a gestão da vida e a vulnerabilização social. Trata-se de uma metodologia que podemos dizer etnográfica que privilegia a comparação conceitual, a contextualização histórica e a reflexão ética, sem recorrer apenas à pesquisa empírica direta, mas orientada pela preocupação com a realidade concreta dos sujeitos e das políticas públicas existentes, uma vez consumadas. A aposta central é que a Antropologia Social oferece instrumentos teóricos e metodológicos etnográficos indispensáveis para compreender como estruturas globais de poder se materializam nos corpos, nas práticas de saúde, nas políticas públicas e nas formas contemporâneas de sofrimento social.

  • Franz Boas e o fundamento antirracista da Antropologia Cultural

A Antropologia Cultural de Boas inaugura um giro epistemológico decisivo ao romper com o evolucionismo social e com as hierarquias raciais que marcaram o pensamento científico do século XIX. Para o autor, não existe uma hierarquia objetiva entre culturas, mas histórias particulares que produzem formas singulares de organização simbólica e social. Como afirma o autor, “a civilização não é algo absoluto, mas relativo, e nossas ideias e concepções são verdadeiras apenas na medida em que nossa civilização assim as define”.

Esse princípio relativista constitui a base ética e política da Antropologia Social contemporânea. Ao negar qualquer determinismo biológico ou racial, o autor estabelece um campo de análise que permite compreender a desigualdade como produção histórica e social, e não como dado natural. Em contextos atuais de recrudescimento de discursos identitários excludentes, essa herança permanece central para denunciar políticas que transformam diferenças culturais em critérios de hierarquização da vida, especialmente no campo da saúde e das políticas públicas.

  • Bourdieu, Wacquant e a crítica às formas simbólicas de dominação

Pierre Bourdieu, em diálogo direto com Loïc Wacquant, aprofunda a capacidade crítica da Antropologia Social ao articular cultura, poder e estrutura social por meio de conceitos como habitus, campo e capital simbólico. Segundo os autores, as estruturas sociais tendem a se inscrever nos corpos e nas disposições dos sujeitos, produzindo uma adesão prática à ordem social que dispensa coerção explícita. Como afirmam, “o poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnosiológica”.

Essa formulação permite compreender como a dominação se exerce de maneira invisível, sendo percebida como natural pelos próprios dominados. No campo da saúde, por exemplo, práticas biomédicas aparentemente neutras podem funcionar como dispositivos de classificação moral, distinguindo corpos responsáveis e irresponsáveis, saudáveis e desviantes. Trata-se de uma forma de violência simbólica que a Antropologia Social torna visível ao reinscrever o adoecimento nas condições sociais de existência.

  • Anthony Giddens e a reflexividade da modernidade

Giddens contribui para esse debate ao analisar a modernidade tardia como um processo marcado pela reflexividade institucional. As práticas sociais passam a ser constantemente monitoradas e reorganizadas à luz de saberes especializados, o que produz tanto possibilidades de emancipação quanto novas formas de controle. Para o autor, “a modernidade é inseparável de seus próprios sistemas de conhecimento, que passam a moldar reflexivamente a vida social”.

No campo da saúde, essa reflexividade se traduz na proliferação de protocolos, indicadores e tecnologias de gestão do risco. Embora tais dispositivos ampliem a capacidade de intervenção, eles também podem produzir distanciamento entre sujeitos e decisões que afetam diretamente seus corpos. A Antropologia Social, ao privilegiar a experiência vivida e os contextos locais, tensiona essa racionalidade abstrata e recoloca o cuidado como relação social atravessada por valores, crenças e assimetrias de poder.

  • O giro global à direita e a atualidade da Antropologia segundo Gustavo Lins Ribeiro

O autor analisa o que denomina “giro global à direita”, caracterizado pela ascensão de nacionalismos autoritários, pela criminalização da diferença e pelo enfraquecimento de políticas redistributivas. Nesse contexto, Lins Ribeiro defende que a Antropologia possui um papel estratégico ao desmontar narrativas que naturalizam desigualdades e produzem inimigos internos. Para ele, a antropologia é fundamental porque “torna estranhas as evidências e questiona os consensos impostos”.

Essa postura crítica é especialmente relevante em contextos latino-americanos, onde políticas de austeridade e discursos moralizantes impactam diretamente populações vulnerabilizadas. A Antropologia Social, ao articular escalas locais e globais, evidencia como processos transnacionais se materializam em sofrimentos concretos, especialmente no campo da saúde e da proteção social.

  • Malinowski, o crime e o costume: normatividade e vida social

Em Crime e costume na sociedade selvagem, Bronislaw Malinowski demonstra que normas jurídicas e sanções não podem ser compreendidas fora do tecido das relações sociais. O autor mostra que, mesmo em sociedades sem Estado formal, existem mecanismos eficazes de regulação baseados na reciprocidade, na obrigação moral e no pertencimento coletivo. Segundo ele, “a lei vive na prática social e não na abstração de códigos”.

Essa constatação desafia concepções universalistas de direito e moralidade, revelando a pluralidade das formas de regulação social. Para a bioética contemporânea, essa perspectiva é crucial, pois evidencia que decisões sobre vida, morte e cuidado são sempre culturalmente mediadas, não podendo ser reduzidas a critérios exclusivamente técnicos ou jurídicos.

  • Indigenismo, antropologia: contribuições de Stephen Grant Baines

A reflexão antropológica sobre o indigenismo no Brasil encontra em Baines uma contribuição decisiva para compreender as relações assimétricas entre Estado, políticas públicas e povos indígenas. Ao analisar historicamente o indigenismo oficial, o autor demonstra que, muitas vezes, ações estatais formuladas sob o discurso da proteção operam, na prática, como dispositivos de tutela, controle e silenciamento das formas indígenas de autonomia política e epistemológica.

Segundo o autor, o indigenismo deve ser compreendido como um campo de disputas, no qual diferentes projetos de sociedade se confrontam. Não se trata apenas de garantir acesso a serviços, mas de reconhecer o direito dos povos indígenas de definir suas próprias concepções de bem-estar, saúde e vida digna. Como afirma Baines, políticas indigenistas que ignoram os sistemas socioculturais indígenas tendem a reproduzir relações coloniais sob novas roupagens institucionais.

No campo da saúde indígena, essa crítica é particularmente relevante. A imposição de modelos biomédicos universalizantes, descolados das cosmologias e práticas tradicionais de cuidado, pode produzir processos de vulnerabilização ainda mais profundos. A Antropologia da Saúde, em diálogo com a bioética crítica, permite evidenciar que decisões sobre diagnóstico, tratamento e prevenção não são neutras, mas atravessadas por relações de poder, saber e reconhecimento cultural.

Do ponto de vista que sustento neste texto, a Antropologia Social não deve limitar-se à descrição das diferenças culturais, nem assumir uma postura meramente mediadora entre Estado e populações indígenas. Penso que sua tarefa crítica consiste em desnaturalizar as formas institucionais de produção da desigualdade, tensionar os limites das políticas públicas e afirmar a legitimidade dos saberes subalternizados. Isso implica compreender o cuidado em saúde como prática relacional, histórica e política, e não apenas como intervenção técnica. Assim, inspirada pelas contribuições de Baines, a Antropologia Social que defendo é aquela que se coloca ao lado dos sujeitos historicamente vulnerabilizados, não como porta-voz, mas como campo analítico comprometido com a justiça social, a pluralidade epistemológica e o reconhecimento efetivo da alteridade.

  • Bioética, saúde e vulnerabilização: para além da neutralidade técnica

A incorporação da bioética ao debate sobre saúde não pode limitar-se a um exercício normativo abstrato ou à aplicação mecânica de princípios universais. Em contextos marcados por desigualdades estruturais, autoritarismos emergentes e gestão seletiva da vida, a bioética torna-se um campo de disputa política e epistemológica. Pensar bioética e saúde hoje exige deslocar o foco da decisão individual isolada para as condições sociais, históricas e institucionais que moldam quem adoece, quem recebe cuidado e quem permanece exposto à precarização da vida.

Desde sua formulação inicial, Van Rensselaer Potter já advertia que a bioética deveria funcionar como uma “ponte para o futuro”, articulando conhecimento científico, valores humanos e responsabilidade social. No entanto, a institucionalização da bioética em modelos excessivamente principialistas acabou, em muitos contextos, por reduzir sua potência crítica, transformando-a em um dispositivo de legitimação de decisões técnicas tomadas à margem das desigualdades sociais.

É nesse ponto que a bioética crítica e a bioética latino-americana oferecem aportes decisivos. Autores como Volnei Garrafa, Dora Porto e Thiago Rocha da Cunha defendem que a bioética deve assumir explicitamente um compromisso com a justiça social, reconhecendo que os conflitos morais em saúde não se distribuem de forma igualitária, mas recaem de maneira mais intensa sobre populações historicamente vulnerabilizadas. A noção de bioética de intervenção, nesse sentido, desloca o debate ético para o terreno das políticas públicas, das assimetrias globais e das relações de poder que atravessam os sistemas de saúde.

José Ricardo Ayres contribui para esse debate ao propor uma compreensão ampliada do cuidado em saúde, entendendo-o como prática relacional, dialógica e ética, e não apenas como resposta técnica a agravos biológicos. Essa perspectiva converge com a Antropologia da Saúde ao reconhecer que o adoecimento não é apenas um evento fisiológico, mas uma experiência socialmente situada, atravessada por valores culturais, expectativas institucionais e condições materiais de existência.

Fermin Roland Schramm introduz a categoria de vulnerabilidade como eixo central da bioética contemporânea, destacando que a exposição ao dano não é fruto do acaso, mas resultado de processos sociais que fragilizam determinados grupos e corpos. A vulnerabilização, portanto, não pode ser enfrentada apenas por meio de escolhas individuais informadas, mas exige transformações estruturais que envolvem políticas de saúde, proteção social e reconhecimento de direitos.

Do ponto de vista que sustento, a aproximação entre Antropologia Social e bioética permite superar a falsa oposição entre análise cultural e normatividade ética. A antropologia revela como as categorias de risco, normalidade, responsabilidade e autonomia são socialmente construídas; a bioética, por sua vez, oferece instrumentos para avaliar criticamente os efeitos dessas construções sobre a vida concreta dos sujeitos. Quando articuladas, ambas permitem compreender a saúde como campo de produção de sentidos, disputas morais e decisões políticas que definem quais vidas são protegidas e quais permanecem expostas à negligência institucional.

Assim, uma bioética atenta às contribuições da Antropologia Social não se limita a responder dilemas pontuais, mas interroga os próprios fundamentos das práticas de cuidado, denunciando a naturalização das desigualdades e afirmando a centralidade da dignidade humana em contextos de vulnerabilização social. Trata-se, em última instância, de recolocar a vida em sua pluralidade e historicidade no centro do debate ético e político sobre a saúde.

  • Contribuições latino-americanas: antropologia argentina, desigualdade e poder

A tradição da antropologia social argentina oferece contribuições fundamentais para pensar criticamente as relações sociais, a desigualdade e o poder na América Latina. Obras introdutórias produzidas no âmbito da UBA enfatizam que a Antropologia Social e Política não se limita à descrição cultural, mas se constitui como um campo analítico voltado à problematização das hierarquias sociais, das formas de dominação e dos processos históricos que produzem vulnerabilização.

Nesse sentido, Neufeld e Novaro afirmam que a antropologia social e política se define por sua capacidade de analisar as relações sociais a partir das assimetrias de poder que atravessam a vida cotidiana, as instituições e as políticas públicas. Para as autoras, a desigualdade não é um desvio do sistema social, mas um elemento constitutivo das relações sociais, historicamente produzido e reproduzido. A análise antropológica, assim, opera como um instrumento crítico que desnaturaliza as evidências do senso comum e revela os mecanismos simbólicos, políticos e institucionais que sustentam a exclusão social.

Essa perspectiva é particularmente fecunda para o campo da saúde e da bioética, pois impede leituras abstratas ou universalizantes do sofrimento social. Ao incorporar as contribuições da antropologia argentina, o texto reforça a necessidade de pensar políticas de cuidado sensíveis às relações de poder, às desigualdades estruturais e às experiências concretas dos sujeitos, reafirmando o compromisso ético e político da Antropologia Social com a justiça social.

Percepção Subjetiva?

A Antropologia Social, ao longo de sua trajetória, construiu um arsenal teórico e metodológico capaz de iluminar as contradições do presente. Em tempos de giro autoritário, crises sanitárias e aprofundamento das desigualdades, sua relevância se manifesta na capacidade de produzir análises críticas, desnaturalizar discursos hegemônicos e defender a vida em sua pluralidade.

Do modo como compreendo e pratico a Antropologia Social, ela não deve ser confundida com um instrumento de julgamento moral ou de reprodução de preconceitos culturais. Ao contrário, a antropologia é, para mim, um microscópio analítico que investiga o que permanece invisível à primeira vista: os gestos ordinários, os silêncios institucionais, os corpos vulnerabilizados e os comportamentos humanos produzidos nas tramas do poder. Trata-se de um saber que se aproxima do desconhecido não para classificá-lo ou corrigi-lo, mas para compreendê-lo em sua complexidade histórica, social e simbólica.

Nesse sentido, Penso eu que a Antropologia social funciona menos como uma técnica de respostas prontas e mais como uma ética da pergunta. Uma pergunta que incide sobre a política, a saúde e a bioética, interrogando quem define o valor da vida, quem decide sobre o cuidado e quem suporta, cotidianamente, o peso das desigualdades estruturais. Mais do que um campo disciplinar, a Antropologia Social se apresenta, assim, como uma posição analítica e ética diante do mundo indispensável para pensar justiça social, saúde coletiva e dignidade humana em contextos marcados pela exclusão e pela violência simbólica, não podemos andar com uma antropologia engessada e sim crítica.

Referências

Ayres, J. R. C. M. (2004). Cuidado e reconstrução das práticas de saúde. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, 8(14), 73–92.
https://doi.org/10.1590/S1414-32832004000100006

Boas, F. (2004). Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Zahar.

Bourdieu, P., & Wacquant, L. (1995). Respuestas: por una antropología reflexiva. México: Grijalbo.

Garrafa, V., & Porto, D. (2003). Bioética, poder e injustiça: por uma bioética de intervenção. O Mundo da Saúde, 27(1), 6–15.

Giddens, A. (1991). As consequências da modernidade. São Paulo: UNESP.

Lins Ribeiro, G. (2019). O giro global à direita e a relevância da antropologia. Brasília.

Malinowski, B. (1985). Crimen y costumbre en la sociedad salvaje. Barcelona: Ariel.

Neufeld, M. R., & Novaro, G. (Eds.). (2010). Introducción a la antropología social y política: relaciones sociales, desigualdad y poder. Buenos Aires: Editorial de la Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires.

Potter, V. R. (1971). Bioethics: Bridge to the future. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.

Schramm, F. R. (2006). A bioética da proteção: fundamentos e aplicações. Bioética, 14(1), 11–23.

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