A hospitalidade: contra a expulsão por Trump dos imigrantes. Artigo de Leonardo Boff

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21 Fevereiro 2026

"A Terra é um bem comum da humanidade. Em princípio, todos poderiam se movimentar dentro dela com o direito de serem hospedados pelos semelhantes e estes com o dever de hospedá-los, pois, todos são iguais e cidadãos da única Casa Comum. Mas isso não acontece", escreve Leonardo Boff, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Leonardo Boff escreve para a revista LIBERTA do ICL; escreveu também Virtudes de um mundo possível: hospitalidade: direito/dever de todos (Vozes, 2005).

Eis o artigo.

A violência com que o governo de Donald Trump está aplicando a imigrantes indocumentados, caçando-os nas ruas, nas escolas, nas fábricas e até nas igrejas, nos faz refletir sobre a hospitalidade. A Terra é um bem comum da humanidade. Em princípio, todos poderiam se movimentar dentro dela com o direito de serem hospedados pelos semelhantes e estes com o dever de hospedá-los, pois, todos são iguais e cidadãos da única Casa Comum. Mas isso não acontece.

Servimo-nos de um dos mais belos mitos da cultura grega, transmitido para a posteridade pelo poeta romano Ovídio (43-37 d.C) em sua Metamorfoses, que consagra a alta virtude da hospitalidade.

"Certa vez Júpiter, pai-criador do céu e da terra e seu filho Hermes, princípio de toda comunicação - donde vem a palavra hermenêutica - resolveram disfarçar-se de pobres. Decidiram vir ao reino dos mortais para ver como ia a criação que haviam posto em marcha. Júpiter depôs toda sua glória e Hermes desfez-se das duas asas, seu símbolo maior.

Passaram por muitas terras e encontraram muita gente. Pediam ajuda a uns e a outros. Ninguém lhes estendia a mão. Recebiam maus-tratos e ouviram palavras ofensivas. Várias vezes foram afastados das portas com violência. Muitos nem sequer os olhavam. Era o que mais lhes doía: não serem nem sequer olhados, como se fossem cães lazarentos. Por isso, passaram fome e toda sorte de privações.

Depois de sentirem-se alijados por todos, o que mais desejavam era água fresca para beber, um prato de comida quente, aliviar os pés com água morna e uma cama para repousar os corpos. Sonhavam com a hospitalidade mínima!

Até que um dia, chegaram à Frígia, província das mais longínquas e pobres do império romano, lugar para onde eram desterrados rebeldes e criminosos. Ai vivia um casal muito pobre. Ele se chamava Filêmon, em grego, “amigo e amável” e ela Báucis, “delicada e terna”.

Sobre uma pequena elevação construíram sua choupana, rústica, porém, muito limpa. Foi lá que, ainda jovens, uniram seus corações. O intenso amor tornava leve a pena. Viviam em grande paz e harmonia pois um auxiliava sempre o outro. Quem mandava era também quem obedecia. Estavam já velhinhos, cansados de trabalhos e de dias.

Eis que chegaram à choupana, Júpiter e Hermes, disfarçados de pobres mortais. Bateram à porta. Qual não foi a surpresa deles quando o bom velhinho Filêmon, sorridente, apareceu à porta e sem muito reparar foi logo dizendo:

Forasteiros, vocês devem estar muito cansados e com fome. Venham, entrem em nossa casa. É pobre, mas está pronta para hospedá-los.

Os imortais tiveram que abaixar-se para entrar. Dentro sentiram a boa irradiação da hospitalidade. Báucis, a “delicada e terna”, logo se apressou em lhes oferecer duas cadeiras, na verdade, dois tamboretes de madeira rústicos. E foi buscar água fresca da fonte, atrás da choupana.

Filêmon, por sua vez, começou a reanimar o fogo, quase apagado. Tomou raminhos finos e pedaços de lenha maiores, os colocou por sobre as brasas ardentes e ajeitou a panela com água para aquecer. Dentro de pouco a água já estava morna. Báucis com seu avental remendado começou a lavar os pés de Júpiter e de Hermes, jogando água morna pelas pernas até perto do joelho para que se aliviassem de verdade.

Filêmon foi à horta atrás da choupana e colheu algumas folhas e legumes, enquanto Báucis tirava do alto, onde estava dependurado numa vara, o último pedaço de toucinho que restara. Estavam até pensando em sacrificar o único ganzo que tinham, aquele que guardava a pobre choupana. Mas os imortais o impediram com determinação. Seus olhos, entretanto, se comoveram às lágrimas.

Numa antiga panela de barro, cozinharam os legumes com o toucinho. Um cheiro bom de comida caseira se espalhava pela choupana.

Báucis tomou do azeite turvo e grosso que eles mesmos faziam, e o deitou por sobre a sopa. Grandes olhos de azeite espreitavam na superfície. Depois que tirou a panela, tomou alguns ovos e os meteu sob a cinza quente. Filêmon se lembrou do vinho que jazia numa vasilha empoeirada no canto da casa, guardado como remédio. Haviam sobrado ainda ainda alguns pedaços de pão do dia anterior. Aqueceram-nos na borda do fogão.

A hospitalidade e a aura benfazeja do lugar fez esquecer a demora. E de repente tudo estava sobre a mesa em pratos limpos.

“Queridos hóspedes, vamos comer, pois vocês o merecem depois de tantas canseiras. Perdoem simplicidade e a pobreza da cozinha”.

E para não constrangê-los, Báucis e Filêmon, embora tivessem já comido, sentaram-se também à mesa para cear com eles.

Em seguida, Báucis e Filêmon se levantaram, tiraram nozes, figos secos e tâmaras de um baú, suporte dos pratos e das velas, e os serviram como sobremesa.

Por fim, os dois velhinhos ofereceram sua própria cama, a única que havia na choupana, para dormirem. Juntos puseram-se logo a arrumá-la. Colocaram lençóis limpos, embora visivelmente gastos. Estenderam por sobre o leito um velho tapete que guardavam para as festas. Júpiter e Hermes não se aguentavam de comoção. Lágrimas brotaram em seus olhos.

Instados a recolher-se, Júpiter e Hermes se dirigiram para a cama. Eis senão quando, sobreveio grande e inesperada tempestade. Raios e trovões iluminaram a choupa e ribombavam pelo vale afora. Num instante as águas subiram ameaçando pessoas e animais.

Desculpando-se junto aos visitantes Báucis e Filêmon se levantaram apressados para ir socorrer os vizinhos.

Foi então que ocorreu a grande metamorfose. Repentinamente a tempestade cessou. E num abrir e fechar de olhos a choupana foi transformada num luzidio templo de mármore. Colunas em estilo jônico enfeitavam a entrada. O teto de ouro reluzia como o sol recém saído das nuvens. Júpiter e Hermes finalmente mostraram quem eram, divindades no pleno esplendor de sua glória.

Filêmon e Báucis ficaram estarrecidos, cheios de alegria e ao mesmo tempo de temor reverencial. Puseram-se de joelhos, inclinando a cabeça até o solo em sinal de adoração.

Júpiter, senhor do céu e da terra, do sol e dos ventos, depois de ter aplacado a tempestade, bondosamente, disse:

— “Amigo e amável” Filêmon, “delicada e terna” Báucis, façam um pedido que eu, Jupiter, em agradecimento, quero atender.

Baucis inclinou-se para Filêmon e colocou a cabeça encanecida sobre seu peito. E, como se tivessem previamente combinado, disseram unissonamente:

— O nosso desejo é de servir-vos nesse templo por todo o tempo que nos resta de vida.

E Hermes acrescentou:

— Eu também quero que façam um pedido em agradecimento pela hospitalidade.

E eles, novamente, como se tivessem combinado, sussurraram conjuntamente:

— Depois de tão longo amor e tanta concórdia, gostaríamos de morrer juntos. Assim não precisaríamos cuidar da sepultura de um e do outro.

Seus votos foram ouvidos e receberam a promessa de cumprimento.

De fato, Filêmon e Báucis, os esposos hospitaleiros, serviram por muitos anos no templo, pelo tempo em que durou sua respiração.

Certo dia, sentados à tardinha no átrio, recordavam a história do lugar, de como, sem saber, hospedaram os deuses em sua choupana. Nesse momento, Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de ramos e flores, da cabeça aos pés. E Báucis viu também que o corpo de Filêmon se cobria todo de folhagens verdes. Mal puderam balbuciar juntos o derradeiro adeus porque se completou a grande metamorfose: Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa tília. Suas copas e galhos se entrelaçaram no alto. E assim abraçados ficaram unidos para sempre”.

Quem passar por aquela região da Frígia, atualmente a Turquia, ainda hoje ouvirá esta fantástica história contada de geração em geração. Poderão ver as duas árvores centenárias, lado a lado, com as copas e os galhos entrelaçados. Elas lembram o amor de Filêmon e de Baucis, esse casal hospitaleiro e a metamorfose que conheceram por causa de sua hospitalidade.

E os mais velhos repetem a lição até os dias atuais: quem hospeda o peregrino, o estrangeiro, o migrante, o refugiado e o pobre hospeda anonimamente a Deus.

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