"Sim às mulheres diáconas. Sou progressista? Rótulos funcionam bem para as geleias." Entrevista com Timothy Radcliffe

Foto: Vatican Media

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21 Fevereiro 2026

A "extraordinária criatividade" de Francisco e o "ministério da unidade" de Leão são "perfeitamente complementares". Essa é a convicção do Cardeal Timothy Radcliffe, o dominicano a quem Prevost confiou, em meio ao descontentamento dos conservadores, a meditação introdutória do último consistório realizado no Vaticano. O cardeal inglês pede atenção para aqueles que se sentem "desconfortáveis" diante das mudanças, mas reafirma o envolvimento dos leigos e o diaconato para as mulheres.

A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Reppublica, 15-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

No livro "La sorpresa della speranza. Meditazioni su una Chiesa in cammino” (A surpresa da esperança. Meditações sobre uma igreja em caminho, em tradução livre, Libreria Editrice Vaticana), uma coletânea de suas intervenções no Sínodo de 2024, disponível nas livrarias a partir de 21 de janeiro, afirma que o principal inimigo da Igreja hoje não é o ateísmo, mas a indiferença: é uma tendência irreversível?

A maré já virou. Em muitos países ocidentais, por exemplo, França, Bélgica, Estados Unidos e Reino Unido, os jovens, especialmente os homens jovens, estão abraçando o cristianismo, especialmente o catolicismo. É um "despertar silencioso". É quase inevitável, porque em cada coração humano, por mais profundamente enterrado que esteja, existe uma sede pelo verdadeiro sentido da existência humana, que é aquele amor infinito que chamamos de Deus. É algo inextinguível, e assim, mesmo que haja momentos de indiferença ou até mesmo hostilidade em relação à religião, essa sede de transcendência voltará a ressurgir. Está enraizada em nossa humanidade.

Inicialmente, o senhor pensava que o grande desafio seria superar a oposição entre conservadores e progressistas presentes no Sínodo, mas com o tempo descobriu que existe uma "questão crítica ainda mais fundamental", ou seja, as diversidades culturais dentro da Igreja: como podem coexistir sem um conflito destrutivo?

A polarização entre os chamados "tradicionalistas" e "progressistas" é estranha ao catolicismo. Nossa fé sempre retorna aos Evangelhos e à tradição para se renovar, mas também nos impulsiona para a frente, em busca de justiça e paz. Alguns podem ser moderadamente mais conservadores ou progressistas, mas não pode haver uma oposição radical entre o amor pelo antigo e a fome pelo novo. Essa é a tensão frutuosa que anima a nossa fé. Na realidade, é apenas um número muito pequeno de pessoas que cai nessa armadilha, embora faça muito barulho! Mas o encontro entre diferentes culturas sempre fez parte da vitalidade de nossa Igreja e de Israel, antes disso.

O judaísmo foi profundamente influenciado pela sabedoria egípcia e grega, pela mitologia assíria, pelo direito persa e romano. A diferença é fértil, mesmo que às vezes seja desafiadora! Sem a diversidade cultural que testemunhamos no Sínodo, a Igreja estaria morta. De fato, nenhuma cultura humana pode ser autossuficiente sem acabar por se tornar árida.

O senhor acredita que o Papa Leão dará continuidade ao impulso sinodal do Papa Francisco ou o corrigirá?

O impulso sinodal está em constante evolução. É um processo cujos frutos não podemos prever. Foi isso que Francisco quis dizer quando afirmou que devemos preferir o tempo ao espaço. O Papa Leão já está promovendo a sinodalidade de uma maneira empolgante. O recente consistório foi profundamente sinodal, com os cardeais votando sobre os temas que queríamos discutir. Achei a experiência profundamente encorajadora.

Leão convidou o senhor para abrir o consistório com uma meditação, e alguns blogs católicos conservadores protestaram, talvez por considerá-lo progressista demais.

Qualquer um que me considerar simplesmente um ‘progressista’ não compreendeu meus livros e meus artigos. Aqueles que me condenam geralmente nunca leram sequer uma palavra do que escrevo. Como católico, não posso aceitar ser colocado em uma caixinha tão pequena. Como escreveu o romancista australiano Richard Flanagan, os rótulos funcionam bem para os potes de geleia, não para os seres humanos. O principal objetivo da minha pregação nos últimos vinte anos tem sido convidar as pessoas a superar essas estreitas fronteiras ideológicas e adentrar o amplo espaço universal do catolicismo.

O senhor reconhece que existe ceticismo em relação à sinodalidade, especialmente entre os sacerdotes: sentem como se estivessem perdendo poder. Como responder?

Alguns sacerdotes temem que a escuta mútua, que é a essência da sinodalidade, possa enfraquecer sua autoridade. Isso é compreensível, sobretudo porque todas as instituições — democracia, direito, mundo acadêmico, imprensa — estão passando por uma crise de autoridade. Mas nós, sacerdotes e bispos, só ganharemos autoridade se escutarmos o Povo de Deus, confiando que eles também receberam o Espírito Santo e têm sabedoria para compartilhar. A autoridade não é um jogo de soma zero. Quanto mais nós, sacerdotes, aceitarmos a autoridade dos leigos, maior será a autoridade que teremos.

O Papa Leão afirmou repetidamente que deseja trabalhar pela unidade da Igreja: consideram que o Papa Francisco colocou essa unidade em risco?

O Papa Francisco falou com uma vivacidade maravilhosa que agradou a muitas pessoas e alarmou outras. A Igreja precisava de sua extraordinária criatividade, de seu empenho apaixonado para mudar as coisas, se queria se renovar. Agora precisamos do ministério de unidade do Papa Leão, superando a divisão para trazer de volta aqueles que se sentiam ameaçados pelo Papa Francisco. Seus papéis são perfeitamente complementares.

Vamos falar sobre duas questões candentes: o senhor admite que a Fiducia Supplicans, documento de Francisco que permite a bênção de casais homossexuais, “provocou indignação e raiva entre muitos bispos em todo o mundo”: como a Igreja pode acomodar esses sentimentos e, ao mesmo tempo, acolher evangelicamente os fiéis LGBTQ+?

Essa é uma pergunta muito importante! Francisco sempre insistiu que todos são bem-vindos. Todos, todos, todos. A Igreja é a casa de todos. Mas antes de uma declaração como a Fiducia Supplicans ser proclamada, as vozes daqueles que se sentem desconfortáveis devem ser ouvidas e compreendidas. Deveria ter havido um processo mais sinodal — de escuta mútua — antes da formulação do documento. Dadas as nossas diferenças culturais, creio que o documento final do Sínodo, aceito pela grande maioria dos participantes, foi claro ao acolher aqueles que se sentem marginalizados na Igreja.

O senhor escreveu: "Sou totalmente a favor da ordenação diaconal das mulheres; não vejo nenhum argumento teológico convincente contra. Acredita que o Magistério concordará com o senhor, mais cedo ou mais tarde?

Não faço ideia. Sou apenas uma voz na discussão, e é meu dever ouvir atentamente aqueles que discordam de mim e aprender com eles. Compreendo as reservas do Papa Francisco que dizia querer 'desclericalizar a Igreja e não clericalizar as mulheres'. Mas também me solidarizo profundamente com a frustração das mulheres que sentem que suas vozes e sua autoridade não estão sendo suficientemente ouvidas. Elas estão, compreensivelmente, ansiosas para que a situação mude. Além disso, não devemos subestimar o enorme aumento da autoridade feminina na Igreja, especialmente graças a tantas excelentes teólogas, e também às mudanças progressistas promovidas pelo Papa Francisco ao nomear mulheres para cargos de alto escalão no Vaticano. Vamos em frente!

Como se pode superar a "polarização" dentro da Igreja da qual o senhor fala? Mantendo-nos no meio, encontrando um compromisso entre os extremos?

Se você apenas tentar ficar "no meio", corre o risco de afastar a todos e se tornar entediante. Muitas vezes, é mais frutuosos prestar atenção às preocupações apaixonadas das pessoas, mesmo que expressas em termos extremos demais, e estar atento à verdade que elas prezam e que toda a Igreja precisa.”

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