21 Fevereiro 2026
“O que é um rito? É o que torna um dia diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas.”
O artigo é de Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado por La Stampa-Tuttolibri, de 14-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Essa é uma citação famosa de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, onde a raposa explica ao protagonista o profundo significado dos ritos. A raposa define um rito como um gesto repetido com constância que cria significado, dando um sentido especial ao tempo e distinguindo um momento comum de um extraordinário. O que é um rito? Essa é a pergunta que Gabriel Ringlet também faz em Des rites pour la vie, publicado pela prestigiada editora francesa Albin Michel, e ele responde: “O rito é a arte de trazer o ‘céu’ para os nossos assuntos terrenos, não para escapar da terra, mas para habitá-la com maior consciência e menos medo… O rito é um laboratório da humanidade onde se aprende a não ser mais escravo da angústia.”
Há cerca de vinte anos que edito a coluna “Espiritualidade” no Tuttolibri e, se não me falha a memória, esta é a primeira vez que apresento um livro estrangeiro. Faço-o porque acredito que a reflexão sobre os ritos, juntamente com a École des rites (Escola de Ritos), que Gabriel Ringlet está realizando há anos na Bélgica, no Priorado de Malèves-Sainte-Marie, a trinta quilômetros de Bruxelas, no coração do Brabante Valão, é uma experiência pioneira no panorama europeu que deveria ser conhecida também na Itália, e que deveria persuadir as editoras italianas a publicar esse ensaio.
Sacerdote, jornalista, escritor, poeta, professor de longa data e vice-reitor da Universidade Católica de Lovaina, além de membro da Real Academia de Língua e Literatura Francesa da Bélgica, Gabriel Ringlet nos oferece um livro de convicções que acompanha a invenção de uma vida "diferente": aquela dos ritos dos quais o ensaísta é celebrante. Um caminho que não está fora e em alternativo aos ritos oficiais da Igreja e das práticas cerimoniais laicas, mas sim ao lado deles. Em uma abordagem humanista de abertura e diálogo entre o cristianismo, outras religiões e laicidade, entre as Escrituras e o livre pensamento, ele questiona tanto sua própria experiência interior — a de um crente que faz do louvor à fragilidade um pilar fundamental de seu pensamento — quanto nossa necessidade de ritos que celebrem os momentos marcantes da vida (casamento, nascimento, luto, doença, crises interiores, etc.) para integrá-las e superá-las por meio da simbolização.
Por meio de relatos das histórias daqueles que o procuram (católicos praticantes, crentes que romperam com a Igreja, não crentes, etc.), Ringlet nos imerge na invenção de ritos de "reencanto" (réenchanter) que acompanham os eventos decisivos da existência, sejam eles felizes ou trágicos.
Antropologicamente, os ritos asseguram momentos de passagem de um estado para outro, suavizando a dificuldade de cruzar por soleiras, inserindo-as em um campo de significado que as transcende. O livro se desdobra como um convite para renovar a celebração e expandir o espaço do ritual: "Reencantar a palavra", "o sacramento", "a despedida", "a liturgia", "a natureza", "o riso". Esses seis capítulos revelam como a École des Rites responde ao paradoxo de uma "crescente demanda ritual" em um mundo onde as igrejas estão cada vez mais desertas.
Um livro sobre o chamado interior e a voz que vem "do além", Ritos para a Vida testemunha uma vocação como celebrante que criou um espaço cerimonial onde gestos e palavras revitalizam o que bloqueia o fluxo da vida, curam feridas e revivem ritos eclesiásticos convencionais que perderam sua vitalidade. Sejam os viajantes especialistas ou novatos, ateus ou cristãos, os ritos exigidos são vivenciados como experiências subjetivas. A importância dos ritos exige um algo mais de criatividade que, longe das derivas comerciais dos "kits espirituais" de mercado, reconhece a multiplicidade das necessidades.
Enquanto a sociedade reserva os rituais para datas excepcionais, Ringlet convida a uma celebração do cotidiano. Contra o "desencanto do mundo", a Escola dos Ritos promove um reencanto onde a contemplação se une à ação. Des rites por la vie é uma coletânea de histórias de celebrações centradas no cuidado, nos marcos da vida e nos grandes momentos litúrgicos. Como podemos abençoar uma união "longe de qualquer igreja"? Como podemos revisitar os ritos de passagem para a vida, dando-lhes uma dinâmica completamente nova? Como podemos encontrar os gestos e as palavras que nos ajudam a acolher e lidar com as situações perinatais mais difíceis? Como podemos celebrar uma adoção, uma fertilização in vitro ou, no extremo oposto, a chegada de uma pessoa a um lar de idosos? E como podemos invocar uma abordagem ritual mesmo no momento da morte, em casa, no hospital, durante a sedação ou no momento da eutanásia?
São tocantes as páginas onde Ringlet fala sobre celebrações que vivenciou em condições de eutanásia, uma situação extremamente delicada, porém profundamente eloquente. O autor é conhecido na Bélgica por seu empenho com os cuidados paliativos e por acompanhar pessoas em fase terminal, incluindo aquelas que optaram pela eutanásia. Para ele, o celebrante deve estar presente não para julgar, mas para oferecer um "carinho ritual" que reconheça a dignidade da pessoa até o último momento. Ele critica os "funerais em série", os ritos eclesiásticos ou laicos demasiado padronizados e "frios".
Defende que as despedidas devem ser personalizadas: cada vida é uma obra de arte, e seu fim merece sua própria estética, composta por palavras, silêncios ou símbolos que realmente pertençam ao falecido e a seus entes queridos.
Para Gabriel Ringlet, a ideia de rito não está atrelada à repetição mecânica de dogmas ou à preservação de tradições institucionais. Pelo contrário, para ele, o rito é um organismo vivo, poético e profundamente humano. O rito não deve ser um "pacote pronto" fornecido pela Igreja ou pelo Estado. Ele defende que cada etapa da vida requer uma liturgia sob medida. O celebrante não impõe o rito, mas o inventa em parceria com aquele que o solicita (crentes, agnósticos ou ateus). Ele se distancia das "rubricas" (as regras escritas nos missais) para buscar palavras, gestos e músicas que realmente falem da história pessoal dos indivíduos.
Em um mundo secularizado que perdeu seu sentido do sagrado (o que o sociólogo Marcel Gauchet chama de "desencanto"), Ringlet propõe um reencanto. O rito serve para devolver profundidade à realidade. Não é uma fuga do mundo, mas uma maneira de olhar para o cotidiano com novos olhos. Não se limita a grandes eventos (nascimentos, mortes), mas se estende ao que é considerado "trivial": o riso, o perdão, o cuidado com a natureza.
Retomando conceitos antropológicos, Ringlet vê o ser humano como um ser de "passagem".
Quando vivemos um trauma (doença, divórcio, luto), cria-se uma ruptura. O rito serve para construir uma ponte (uma "travessia de limiar") para evitar que a pessoa caia no vazio da falta de sentido. O símbolo faz o que a explicação racional não consegue fazer: une o interno ao externo, o visível ao invisível, permitindo "metabolizar" a dor ou a alegria.
Sua École des rites está localizada em uma terra de ninguém, uma "zona franca": não é necessariamente um rito católico, mesmo que seja nutrido pela poesia dos Evangelhos; é um espaço onde a espiritualidade (entendida como sopro vital) importa mais do que a pertença religiosa.
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