24 Janeiro 2026
"O verdadeiro desafio do nosso tempo é aprender a reconhecer a violência e medir seus limites, e a liberdade autêntica é a capacidade de se mover conscientemente dentro desses limites e permanecer humano quando tudo parece convidar ao oposto", escreve Elisa Giordano, em artigo publicado por La Stampa, 21-01-2026.
Eis o artigo.
Não há um momento preciso em que a violência entra em cena. Ela já está lá, antes mesmo de nos darmos conta: em uma música que acompanha distraidamente um dia comum, em uma série de televisão assistida sem grande atenção, em palavras proferidas descuidadamente e logo esquecidas. Nada clamoroso, nada abertamente transgressor. No entanto, na soma desses detalhes mínimos, toma forma uma paisagem cultural na qual a fronteira se dissolve lentamente. É nesse espaço que a violência hoje exerce seu fascínio mais persistente, como linguagem simplificada capaz de reduzir a complexidade da realidade em relações de força imediatas. Em um mundo competitivo, promete clareza, identidade, rapidez, reconhecimento. Oferece respostas rápidas onde o caminho parece longo, incerto, frustrante ou impossibilitado. Aparece como um atalho simbólico, não como uma anomalia.
Grande parte do imaginário contemporâneo confirma esse apelo. Há mais de vinte anos, o rapper Frankie hi-nrg mc resumia o problema em uma fórmula que continua sendo atual hoje: "Os últimos serão os últimos se os primeiros forem inalcançáveis". Quando o horizonte do sucesso parece fechado, quando as distâncias parecem intransponíveis, quando se deixa de enxergar o próximo, a transgressão perde seu caráter excepcional e se torna, para alguns, uma opção plausível que não é necessariamente violenta na prática, mas frequentemente é agressiva na linguagem, nas posturas, nas relações e nas representações. O que se enfraquece é o respeito pelas regras e a boa educação como verdadeira função cultural do limite: aquela fronteira interior que distingue entre o que pode ser imaginado e o que pode ser praticado, entre representação e realidade, entre desejo e responsabilidade. Uma parte da produção musical e audiovisual contemporânea contribui para tornar essa fronteira menos reconhecível, normalizando estéticas de excesso, subjugação e vulgaridade. Isso não significa que produza automaticamente comportamentos consequentes, mas pode ajudar a construir estruturas de sentido dentro das quais algumas possibilidades se tornam mais familiares.
Salvatore Quasimodo escreveu em Homem de Meu Tempo: "Você ainda é o homem da pedra e da funda, homem do meu tempo." Homem capaz de construir e destruir, chamado a reconhecer o mal sem confundi-lo com inevitabilidade ou normalidade, natureza humana que, apesar de milênios de evolução, permaneceu em parte primitiva. O apelo do poema é simples e poderoso: reconhecer a violência significa compreendê-la, delimitá-la, não a alimentar e transformar a experiência em responsabilidade consciente. Reconhecer o limite e restaurar sua centralidade é a condição para a verdadeira liberdade. É o que impede que o desejo se transforme em destruição e que a força se torne o único critério de valor. Uma sociedade que luta para tornar seus objetivos acessíveis deveria se questionar sobre as formas simbólicas com as quais fala do sucesso, do fracasso e do poder.
O verdadeiro desafio do nosso tempo é aprender a reconhecer a violência e medir seus limites, e a liberdade autêntica é a capacidade de se mover conscientemente dentro desses limites e permanecer humano quando tudo parece convidar ao oposto.